Na mesma situação que muita gente hoje em dia, de vez em quando me pego rolando sem parar o feed do Instagram. Ganhar a vida escrevendo textos para a Internet meio que obriga a gente a ficar antenado com o que anda rolando pelas redes, e quando a gente vê,...…
Na mesma situação que muita gente hoje em dia, de vez em quando me pego rolando sem parar o feed do Instagram. Ganhar a vida escrevendo textos para a Internet meio que obriga a gente a ficar antenado com o que anda rolando pelas redes, e quando a gente vê, duas horas se passaram entre memes, vídeos de influencers que a gente nem segue e classificados de carros e motos.
Em compensação, essa última categoria em específico tem se mostrado bem interessante ultimamente — ao menos uma vez por dia eu dou de cara com alguma coisa interessante sobre duas rodas. E recentemente têm aparecido muitas mini-motos à venda.
Não me refiro àquelas cinquentinhas de trilha com motor 2-tempos que você pode comprar até hoje em uma concessionária Honda ou Yamaha — estas, aliás, eram meu sonho na infância, quando eu tinha uns seis ou sete anos de idade. A ideia de uma moto de trilha de verdade feita sob medida para um moleque que, literalmente, mal tinha saído das fraldas, soava irresistível.
A questão é que eu acabei ficando interessado em descobrir de onde surgiram essas mini-motos e entender que tipo de pessoa as compraria, e para quê. E a resposta, talvez sem surpreender ninguém, tem a ver com a Honda.
Aliás, já reparou como quase sempre é a Honda?
Enfim, é amplamente aceito que a ideia original de fazer mini-motos para adultos partiu mesmo da Honda. Mas, originalmente, elas realmente eram feitas para as crianças.
Em 1961 a Honda inaugurou o parque temático Tama Tech, em Tóquio, com atrações inspiradas pelo automobilismo e pelas corridas de motos. Uma das atrações principais do parque era a Honda Z100, uma micro-moto com o indestrutível que, apesar do nome usava o motor 50cc da Super Cub, rodinhas de apenas cinco polegadas e quadro rígido, sem qualquer tipo de suspensão. O plano era oferecer uma experiência lúdica e segura para os pequenos, mas a Honda não contou com o óbvio: os pais não aguentariam ficar só olhando.
Em pouco tempo, adultos corpulentos estavam disputando espaço e dando cotoveladas nos próprios filhos para conseguir dar uma volta na pista minúscula. Era uma visão no mínimo inusitada, e um jornalista da época comentou que os pilotos pareciam macacos de circo montados em bicicletinhas. Quando a Honda percebeu que havia trombado sem querer com um novo nicho de mercado, nasceu a Honda Monkey.
A primeira versão da Monkey veio em 1963 e atendia por CZ100, uma versão bem rústica, ainda sem suspensão, enviada em pequenas quantidades para mercados na Europa e na Ásia. Foi como um teste para medir a recepção do público — e, com base nas vendas promissoras, em 1967 foi lançada a Monkey definitiva: a Z50M.
A Mini-Trail desarmou qualquer preconceito contra motociclistas — andar de moto não precisava ser coisa de homens barbudos e mal-encarados, mas sim um passatempo divertido, leve e descompromissado. Com isso, a Monkey virou um ícone pop da época. Até mesmo John Lennon, por exemplo, comprou uma Z50A K1 em 1969 para passear por sua propriedade na Inglaterra — unidade que, décadas mais tarde, seria arrematada em leilão por mais US$ 78.000.
Durante a década de 1970, a Honda foi refinando a usabilidade da moto: colocou faróis, piscas e, na versão K3 de 1972, aposentou o desconfortável quadro rígido para adotar uma suspensão traseira convencional com braço oscilante e molas helicoidais. Em 1979, veio a maior virada conceitual da linha com a chegada da Z50R.
Nela, a Honda tirou as luzes, colocou placas de número e aplicou o visual de motocross inspirado na consagrada linha CR Elsinore. A intenção era clara: cultivar a paixão pelo off-road cedo para que, quando crescessem, as crianças comprassem as motos maiores da marca. A família Z50 ainda rendeu raridades lendárias, como a Z50RD Christmas Special de 1986 — uma versão com acabamento totalmente cromado distribuída apenas para os melhores concessionários.
Após mais de três décadas e cerca de um milhão de unidades produzidas, a linhagem clássica saiu de cena em 1999, incapaz de atender às novas exigências ambientais com seus motores carburados de 49cc.
O hiato das mini-motos da Honda parecia eterno, mas em 2013 a divisão tailandesa surgiu com algo bem interessante: a Honda Grom (chamada de MSX 125 na Europa). Em vez de apelar para a nostalgia, porém, a Grom preferiu seguir por outro caminho, oferecendo uma mini streetfighter agressiva, leve e moderna, equipada com motor de 125cc injetado e rodas de 12 polegadas. O sucesso foi imediato no Japão, na Europa e nos EUA, provando que existia uma nova geração faminta por esse formato.
Em 2016, a Honda resolveu explorar a outra ponta dessa categoria com a Navi. Nascida na Índia com foco no custo-benefício, ela adotou um motor de 110cc, com câmbio CVT, montado na roda traseira — liberando o vão central do chassi para a instalação de um prático baú fechado a chave.
O conceito híbrido que juntava a facilidade de pilotagem de uma scooter com o visual de mini-moto dominou a América Latina, fazendo bastante sucesso em países como México, Colômbia, Peru e Costa Rica — chegando ao ponto de ter linha de montagem no México. De lá, partiu para os EUA, e só não veio para o Brasil porque, por aqui, opções como a Pop 110i ou mesmo scooters de verdade como a Lead 110 e a Elite 125 já estavam bem estabelecidas. A Honda não enxergou por aqui potencial para uma mini-moto mais voltada ao lazer e ao lifestyle.
Com o mercado reaquecido e a mecânica de 125cc injetada já provada pela Grom, a Honda finalmente cedeu à nostalgia em 2018 para ressuscitar a Monkey. Sob o tanque diminuto, o velho 50cc deu lugar ao monocilíndrico de 124cc com 9,3 cv e câmbio de cinco marchas — conjunto capaz de encarar o trânsito das vias expressas sem sofrimento em uma moto de apenas 104 kg.
A ciclística deu o mesmo salto de engenharia: garfo dianteiro invertido, suspensão traseira bichoque, iluminação inteiramente em LED e freios a disco com ABS gerenciado por uma unidade de medição inercial (IMU), que impede que a roda traseira se levante caso você precise meter a mão no freio com mais vontade. A tecnologia está toda ali, mas disfarçada sob o tanque em dois tons, os para-lamas cromados e o estilo que parece ter vindo direto da década de 1970.
O domínio da Honda nesse nicho não duraria para sempre. O estouro global da Grom e o renascimento da Monkey acenderam o alerta em outras fabricantes, que perceberam que as mini-motos não eram um capricho passageiro, mas um segmento extremamente rentável e desejado por uma nova geração de motociclistas.
A Kawasaki foi a primeira grande rival a responder à altura. Em 2016, a marca colocou no mercado a Z125 Pro, apostando em uma receita que não tentava esconder o apelo esportivo. Em vez de flertar com o retrô, a Kawasaki simplesmente encolheu a agressiva linguagem de design Sugomi de suas naked maiores — como a Z800 e a Z900 —, resultando em um visual cheio de ângulos afiados, aletas pontiagudas no tanque e o tradicional tom verde Lime Green estampado nas carenagens.




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