No Fora do Baralho, os ases Jorge Fernandes, Luís Aguiar-Conraria, Nuno Garoupa e Susana Peralta discutem as rentrées políticas de PSD, PS e Chega. E questionam postura de Montenegro.

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Os três principais partidos já deram o pontapé de saída para o próximo ano político. Montenegro ignorou o caso dos exames nacionais e todas as questões à volta de Luís Neves e atirou-se à maldicência e à censura moderna, como lhes chamou. Carneiro e Ventura não pouparam o primeiro-ministro, mas tiveram posturas bem diferentes neste arranque de ano político. O líder do PS parece estar mais interessado em aproveitar o próximo ano para cimentar uma alternativa de confiança que convença os portugueses, enquanto André Ventura, que diz que o país não pode andar de eleições em eleições, de seis em seis meses, jurou estar pronto para governar. Resta saber quando é que essa hipótese volta a surgir. Este é o tema para a jogada da semana, na segunda parte do programa. Eu sou Inês André Figueiredo e estou convosco em mais um episódio do "Fora do Baralho" da Rádio Observador. Para discutir a atualidade, juntam-se à mesa os ases Jorge Fernandes, Luís Aguiar-Conraria, Nuno Garoupa e Susana Peralta. E começamos pelos naipes, mais precisamente pelo do Luís Aguiar-Conraria, que à boleia de um dos temas da semana, o estudo sobre a Segurança Social encomendado pelo governo, traz paus para estudos de 200 e 600 páginas. Luís, este tem 607. Já tiveste tempo pra ler?

Ainda por cima foi publicado hoje. Está-se mesmo a ver. Foi divulgado hoje no ministério. E já agora, o estudo de 200 e tal páginas que eu me estava a referir era aquele sobre os preços da gasolina, sobre haver subidas anormais do preço de gasolina, que não tivessem o espelho nas descidas. E esse também são 200 e tal páginas. Os meus paus não é nem pro conteúdo dos estudos, nem para os autores. Para os autores é um bocado, mas não é pro conteúdo. Não estou aqui a analisar o conteúdo. Tenho todos os motivos pra acreditar que ambos os conteúdos estão bons e que foram feitos com todo o rigor. Agora, lamento. Para um estudo sobre os preços da gasolina, não são necessárias 200 páginas, de forma alguma. Aliás, eu tenho uma aluna de mestrado que está a fazer como tese de mestrado exatamente este estudo, exatamente a ver se as subidas de preço da gasolina e do gasóleo e se as descidas são assimétricas ou não, e eu proibia de fazer uma coisa com mais do que 40 páginas. E tenho a certeza que as 40 páginas que ela vai fazer até cobrem muitas coisas que não são cobertas no estudo atual a nível local. Acho isto um exagero. E o outro da Segurança Social, 607 páginas. Tenham dó. Não há forma alguma de ser necessário tantas páginas pra dizerem o que têm a dizer.

Não é metro, não é? Como se costuma dizer na faculdade.

O problema é que há muitas faculdades, agora já não é, mas há uns anos era tradição, especialmente nalgumas faculdades, como Direito, ter teses de 1000 páginas e 2000 páginas, depois foram reduzindo pra 500 e agora já nos 200, 300. Mas isto é um exagero. Uma pessoa vai às teses de doutoramento de pessoas que ganharam prêmio Nobel e muitas vezes vê teses de doutoramento de 20, 30 páginas, e até menos. Mas claro, pra isso é preciso ser um gênio. Mas caramba, não é preciso isso tudo, isto apenas afasta as pessoas. Se fosse um relatório de 100 ou 200 páginas, eu de certeza absoluta que o ia ler. Agora estou aqui a falar neste da Segurança Social. De certeza absoluta que o ia ler se fossem 100 ou 200 páginas, sendo 607, e sabendo eu que a utilidade prática disto é quase nula, porque sabemos que o governo e a oposição estão a fugir a sete pés deste relatório. Qual é o interesse que uma pessoa tem em ler isto? Sabe que vai estar a ler montes de coisas, que é montes de palha, vai estar a ler páginas e páginas de transcrição de leis e de aspectos jurídicos, que não têm utilidade nenhuma pra pergunta que obviamente querem responder.

Outro dos assuntos incontornáveis da semana, não sei se Luís Montenegro tem um relatório de 600 páginas pra este também, mas é o negócio da REN. Luís Montenegro anunciou na Festa do Pontal que o Estado vai comprar 13,7% do capital da empresa. Há críticas à decisão, ao valor, ao fato de o Estado ir pagar mais do que o preço de mercado. Nuno Garoupa, as razões das tuas espadas são pra quê?

Não, eu acho que é a segunda situação, porque o pacto laboral já foi o mesmo problema. Não estava no programa eleitoral e depois fazem. E estão muitas coisas no programa eleitoral que estão por fazer. Então, para que servem os programas eleitorais? Para que servem as eleições? Se os partidos depois fazem o que querem e lhes apetece, e aquilo que está nos programas eleitorais é só para fingir, e os 15 dias de campanha eleitoral é só para fingir. Se esta é a nossa versão da democracia, então nós temos um problema sério com a nossa democracia representativa, penso eu.

Passamos então para os naipes vermelhos contigo, Susana Peralta. Trazes copas para o Miguel de Faria e Castro para falar de um trabalho publicado no “Eco”, que tem como título “A erosão persistente do capital público em Portugal”. O que é que tens de bom ou de mau a dizer sobre este texto?

Este texto é em contraponto às centenas de páginas, aos estudos que o Luís Correria começou por mencionar aqui. Isto obviamente é uma publicação no “Eco”, que é um jornal online, e eu não me dei ao trabalho, mas eu diria que este trabalho do Miguel terá o quê? Quatro a cinco páginas no máximo, se tivéssemos que colocar isto num documento autónomo. E de facto, é um trabalho cheio de sumo. Portanto, como estava a dizer o Luís, nós não precisamos de muitas páginas para contar histórias muito poderosas e para defender teses bastante sólidas e bem argumentadas. Obrigada, era a palavra que me estava a faltar.

O Miguel Castro, para quem não conhece, é um economista, um macroeconomista português.

Vamos aqui passar a palavra ao Jorge enquanto tentamos restabelecer a ligação com a Susana. E o Jorge Fernandes traz-nos ouros para o movimento de mulheres conservadoras que foi criado em Portugal e conhecido na última semana, que conta com algumas caras conhecidas do Chega, desde logo deputadas, e tem dado muito o que falar. O que é que tens a dizer sobre este movimento, Jorge, e os teus ouros são para quê?

Os meus ouros, acima de tudo, são para a mudança estrutural que está a existir em Portugal e que é claramente representada e está muito bem espelhada neste movimento. Há 15 anos, por exemplo, um movimento destes seria praticamente impensável, ou seria visto como uma coisa ultramontana e sem o mínimo de expressão social ou eleitoral. E neste momento, isso já não é verdade. E eu acho muito bem que haja correntes sociais, todas as correntes sociais que assim o entendam, democráticas, claro, e esta é, se estruturem para darem voz a posições conservadoras. Dito isto, há algumas coisas interessantes neste grupo ou neste movimento que ainda, supostamente, segundo aquilo que é público, será cristalizado mais para o final do ano, que são um bocadinho estranhas, digamos assim, à sociedade portuguesa e à Europa. Eu acho que o ponto fundamental é este. A natureza deste grupo é uma natureza tipicamente que se vê nos Estados Unidos, por exemplo, ou que se vê no Brasil. Para que não restem dúvidas, de resto, há uma deputada brasileira que faz parte do partido de Jair Bolsonaro, do Partido Liberal, que está neste grupo e, de resto, já apareceu com estas pessoas em público. E uma das primeiras coisas que é estranha a Portugal e à cultura política portuguesa, pelo menos desde o 25 de Abril, é esta ligação bastante evidente e bastante patente entre a Igreja e a política. Não uma igreja em particular, mas a ideia de motivar e explicar preferências políticas públicas e ideais de sociedade através da religião. Portanto, tipicamente na cultura política europeia, ao longo dos anos, a religião era uma coisa do foro privado. E claro que as pessoas que eram religiosas tinham determinado tipo de preferências, mas isso não era utilizado como justificação para movimentos políticos. É preciso também sermos claros quanto ao efeito que este movimento quer. O que este movimento quer, no fundo, são movimentos auxiliares que pretendem mobilizar eleitoralmente camadas sociais para votar no Chega. Não vamos dourar a pílula para pensar que isto é uma coisa diferente do que aquilo que é.

Mas, por exemplo, esta tentativa ou alegada tentativa do Chega ir buscar os evangélicos ou tentar voltar a esta franja da sociedade, porque, na verdade, há uns anos, no início do Chega, falava-se muito deste tema

Sim, aliás, naquele livro daquele jornalista da Visão, do Miguel Carvalho, “Por Dentro do Chega”, ele fala abundantemente e cataloga bem sobre esta ligação com os evangélicos. É preciso ver que há uma franja que não é negligenciável em Portugal, de eleitores de origem brasileira, mas que são cidadãos portugueses de pleno direito e votam. Portanto, pode haver também aqui uma tentativa de piscar de olho a uma franja do eleitorado que já pode representar facilmente 4%, 5%, e que é uma franja importante do eleitorado. Há claramente aqui esta inspiração americana e brasileira. Nos Estados Unidos, por exemplo, a Phyllis Schlafly já fazia este tipo de coisa nos anos 70. Isto tudo é a cereja no topo do bolo, é que há aqui um conjunto de pessoas que está a utilizar as redes sociais de uma forma inteligente, no sentido da mobilização das causas que eles pretendem. Estas pessoas, a maior parte delas, têm finalidades políticas, mas acima de tudo, muitas delas querem ganhar um lugar ao sol na esfera mediática e no ecossistema mediático português. E muitas delas são pessoas que, aliás, mudaram radicalmente de ideias ao longo dos últimos anos. Enfim, basta ver algumas coisas antigas delas ou até depoimentos de pessoas que as conhecem há muitos anos. Tudo isto pra dizer, e aqui o naipe é mais um marcar de um ponto sobre algo que eu acho que nós vamos ter, se se materializar como parece estar a acontecer, sobre algo que está a mudar na sociedade portuguesa e algo que nós vamos ter que olhar e perceber com atenção dentro de uns meses ou de um ou dois anos, exatamente que tipo de poder de mobilização, inclusive a nível, por exemplo, das camadas mais jovens da sociedade, através da sua grande penetração nas redes sociais.

Continuamos aqui sem a Susana, usando o naipe do Jorge para nos ajudar nestes últimos minutos da primeira parte. Queria perguntar ao Luís e ao Nuno, dependendo do tempo de cada um, o que acham deste tipo de movimentos, neste caso conservador, mas outros que também vão aparecendo cada vez mais. Nuno, força.

Ok, Nuno, começas tu?

Eu ia só dizer, o Jorge disse coisas que são corretas, mas em Portugal já tivemos, durante muito tempo, o MCDS, as Mulheres do CDS, que foi extinto a seu tempo, e havia as mulheres do PSD. Portanto, a questão é se estes movimentos são apenas uma versão 2.0 daqueles movimentos que já houveram há alguns anos e agora, evidentemente, no ecossistema mediático e nas redes sociais, porque estamos em 2026 e não estamos em 1976. Fica uma dúvida até que ponto isto é assim tão novo no espectro português.

Olha, eu acho que estamos numa fase de movimentos de algum certo radicalismo, quer em movimentos de esquerda, quer em movimentos de direita. Na esquerda vê-se com aquele wokeismo, e aqui vemos o espelho do wokeismo. Naqueles movimentos wokistas quase não se pode dizer que uma mulher pode querer ficar em casa, se lhe apetecer e tem esse direito, nestes é quase o contrário, o lugar das mulheres é mesmo de suporte ao marido. Mas acho muito bem que estes movimentos existam. Se existem pessoas com estas opiniões, acho bem que se organizem. Do ponto de vista do Chega, eu acho que isto, pra mim, é bom. Quer dizer, é mau pro Chega e, portanto, eu gosto que estes movimentos existam, porque acho que estes movimentos ajudam a reforçar a ideia de que o Chega é um partido radical, que tem uma mensagem radical e que tem uma mensagem para a nossa sociedade que é horrível. E acho que isto vai contribuir para que o Chega não consiga passar daquele patamar onde já está hoje. Portanto, por um lado, acho bem que estes movimentos existam, desde que haja opiniões para eles, claro. Existindo, neste caso em concreto, por motivos puramente egoístas, digamos assim, acho bom, porque acho que vai prejudicar o Chega.

Ficamos por aqui nesta primeira parte do “Fora do Baralho”. Voltamos para a segunda sobre as rentrées do Chega, do PS e do PSD. Lançadas as primeiras linhas do que vai ser o próximo ano político nas rentrées dos três principais partidos, vamos à discussão com os ases do “Fora do Baralho”. Sugiro começarmos pelo discurso de Luís Montenegro na festa do Pontal e depois guardarmos um pouquinho de espaço para falar sobre o PS e sobre o Chega. Mas agora que recuperamos a ligação com a Susana Peralta, retomávamos só aqui o naipe. Susana, não sei se agora já nos consegues ouvir bem. Estavas a dizer-nos que se tratava de um estudo curto, mas com bastante sumo. Força.

Curto e conciso. Pronto, mas então dizia eu que o Miguel Ferrí Castro é o macroeconomista português que trabalha na Reserva Federal norte-americana em St. Louis. E o Miguel deve ter sido a primeira pessoa a alertar pro problema da diminuição do nosso capital público em Portugal, ou seja, do fato do investimento público ter sido tão cortado nos últimos anos, desde os tempos da troika. Isso levou a que não acompanhasse a deterioração natural do capital público e, portanto, nós acabamos por ter menos capital público, teve a diminuir o capital público. Este ano vai ser o primeiro ano em que o capital público recupera uma trajetória ascendente, segundo esta atualização que o Miguel veio fazer cinco anos depois do seu primeiro artigo no “ECA” a falar do problema do capital público.