Para Marc Weller, choque provocado pelo retorno do presidente dos EUA à Casa Branca começa a perder força
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30.ago.2026 às 23h00
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Com a tutela americana sobre a Venezuela e o cerco cada vez mais intenso contra Cuba, os Estados Unidos de Donald Trump colocam em prática sua interpretação da doutrina Monroe, que hoje prega a hegemonia de Washington nas Américas, em especial na América Latina.
Para Marc Weller, ex-conselheiro da ONU que atuou na mediação de conflitos nos Bálcãs, no Sudão, na Síria e no Iêmen, a situação se complica pelo fato de que muitos governos de direita na América Latina apoiam Trump. Segundo ele, esses líderes descobrirão que isso significa "perder sua liberdade".
Para ele, também já é hora de olhar para o dia seguinte e se preparar para o que vai acontecer quando o americano deixar de novo a Casa Branca. "O choque do retorno de Trump ao poder está passando", diz.
Weller, que é diretor do Centro de Governança Global e Segurança da Chatham House, famoso think tank britânico, esteve no Brasil para o Paraty Dialogues, evento de debates sobre multilateralismo organizado pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).
Ele conversou com a Folha por telefone sobre as ações dos EUA no Oriente Médio, a ascensão da China como grande potência e o papel do Brasil no cenário internacional hoje.
Há cerca de seis meses surgia o Conselho da Paz, órgão materializado por desejo de Trump e visto, na época, como tentativa de substituir as Nações Unidas. Ainda existe um risco de que isso aconteça? Nenhum. Lembre-se de que mesmo os americanos tiveram que ir ao Conselho de Segurança da ONU para conferir alguma legitimidade ao Conselho da Paz. É bastante provável que o entusiasmo com esse órgão diminua drasticamente no momento em que Trump deixar a Casa Branca —como você sabe, ele é o presidente vitalício do Conselho, mas imagina-se, por conta de sua idade, que não desempenhará essa função para sempre.
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Há, contudo, cada vez mais arranjos temporários que ameaçam —ou, em alguns casos, efetivamente tornaram obsoleto— o papel da ONU em negociações de paz. Eu fui conselheiro jurídico da ONU para negociações de paz por muitos anos. Na minha época, as Nações Unidas sempre tinham primazia. Mas não houve muitos sucessos nos últimos anos.
Por que isso aconteceu? Acho que o Conselho da Paz é uma formalização dessa tendência. O outro elemento é que [o órgão] não participou de outras iniciativas de Trump além de Gaza. Era de se esperar que ele fizesse o que as iniciativas de Trump normalmente não fazem, isto é, ir além de apenas dizer "farei a paz" e usar seu poderio econômico, que adquiriu por meio das imensas doações que estão recebendo, e conquistar avanços reais.
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Mas isso não ocorreu, e agora a credibilidade do Conselho depende inteiramente do desfecho da guerra em Gaza. Digo, os seus negociadores conseguiram um esboço de um desarmamento [do Hamas]. Foi quase surpreendente. Mas então eles se esqueceram de combinar com Israel. Não é um trabalho muito profissional.
Binyamin Netanyahu disse que as Forças Armadas israelenses não se retirarão de Gaza até que o desarmamento do Hamas seja concluído. Isso foi essencialmente uma rejeição do plano de paz de Trump. Por que o senhor acha que Netanyahu correu o risco de enfurecer o presidente dos EUA? Bem, ele sabe que o Trump não pode fazer muito a respeito. Pode criticar Netanyahu, pode causar uma pequena crise, mas em última análise os EUA não têm capacidade de punir Israel de verdade, dada a opinião pública interna sobre [o Estado judeu].




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