'Aos olhos da sociedade, o tribunal parece estar implodindo', diz cientista política após novo capítulo de crise envolvendo os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça.

O mais novo capítulo do embate entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça reforçou, entre analistas, a percepção de que o Supremo Tribunal Federal (STF) atravessa uma crise institucional sem precedentes.

Para especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, o confronto coloca em xeque a imagem da Corte perante a sociedade, não parece ter uma saída previsível e representa uma crise sem precedentes, onde "ninguém está certo".

Thiago Bottino, professor da FGV Direito Rio, avalia que "não tem ninguém certo nessa história". "Mas eu também acho que não tem ninguém errado completamente", afirma.

Para a cientista política e jornalista Grazielle Albuquerque, "aos olhos da sociedade, o tribunal parece estar implodindo. É uma crise enraizada por dentro e não parece ter saída previsível", diz.

Na noite de quinta-feira (3/9), Alexandre de Moraes encaminhou ao presidente da Corte, ministro Edson Fachin, um pedido de investigação contra o ministro André Mendonça.

Na petição, Moraes acusa o colega de, "em tese", ter cometido improbidade administrativa, crimes de responsabilidade e de abuso de autoridade, com quebra da "imparcialidade judicial" e "favorecimento a determinados grupos políticos" ao atuar como relator dos casos do escândalo do INSS ("Operações Sem Desconto") e do Banco Master ("Operação Compliance Zero").

O magistrado também retirou o sigilo de relatórios da inteligência da PF que detalham as supostas condutas irregulares de Mendonça, que teria agido contra o próprio Moraes e outros colegas de tribunal.

O contra-ataque acontece dois dias depois de André Mendonça pedir a Fachin que leve ao plenário um pedido de investigação contra Moraes, indicando possíveis irregularidades na relação do juiz com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, também com base em material da PF.

Nesta quinta-feira (3/9), o presidente do Supremo, ministro Edson Fachin, deu cinco dias para que os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça, além do Procurador-Geral da República, Augusto Gonet, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, se manifestem sobre a crise aberta.

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Ao listar possíveis erros cometidos pelos ministros do Supremo, Bottino cita o caso de Mendonça. "Tem o fato de ele ter realizado ações durante a investigação que poderiam levar à investigação de um ministro do Supremo, sabendo que o início dessa investigação depende de autorização do plenário", afirma.

A conduta do magistrado tem sido criticada por juristas que afirmam que Mendonça não poderia ter solicitado diretamente à PF que produzisse um relatório sobre Moraes.

Em sua manifestação sobre o caso, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu a anulação da decisão e afirmou que Mendonça extrapolou os limites da atuação de um magistrado na chamada fase pré-processual.

Gonet também é mencionado no relatório da PF que aponta as supostas interações entre Moraes e Vorcaro.

Também após as revelações sobre os supostos contatos entre Vorcaro e Moraes, o ministro André Mendonça confirmou que ele próprio teve um encontro com o banqueiro do Banco Master, em março de 2025. Ele disse também ter se encontrado com o advogado do empresário no mesmo mês.

Quanto a Moraes, Thiago Bottino vê questões que exigem mais esclarecimento no caso Master e também critica que ele tenha usado o controverso Inquérito das Fake News para apontar irregularidades do colega.

O pedido do magistrado por uma investigação contra o ministro André Mendonça foi feito no âmbito do Inquérito das Fake News.

"Se o André Mendonça extrapolou as funções dele, cometeu um abuso de autoridade, não é no Inquérito das Fake News que isso vai ser apurado", aponta o professor da FGV Direito Rio .

"Não tem problema nenhum o Alexandre de Moraes fazer um ofício ao Fachin dizendo: 'olha, tomei conhecimento de que o meu colega praticou um crime e eu peço providências ao presidente da Corte'", diz. "Esse seria o caminho próprio".