Para Cila Schulman, ausência de outros candidatos de esquerda pode dificultar que Lula amplie seu eleitorado em um eventual segundo turno

O fato de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ser o único candidato de esquerda na disputa presidencial pode dificultar a ampliação de seu eleitorado em um eventual segundo turno na eleição de 2026, avalia Cila Schulman, CEO do Instituto Ideia. Ela relembra que, na eleição de 2022, o petista conseguiu avançar sobre outros grupos ao construir uma frente ampla com nomes e eleitores de centro, como os ligados à então candidata Simone Tebet. Agora, porém, a estratégia para conquistar novos votos tende a ser mais difícil.

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Segundo pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira, 2, registrada na Justiça Eleitoral sob o número BR-07065/2026, Lula e Flávio Bolsonaro (PL) aparecem em empate técnico em um eventual segundo turno na disputa presidencial. Lula tem 42% das intenções de voto, contra 41% de Flávio. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

“Quando a gente olha para a eleição mais recente, em 2022, Lula conseguiu captar votos da Simone Tebet [no 2º turno] justamente porque construiu uma frente ampla, com apoios de centro e de pessoas importantes que eram eleitoras históricas do PSDB. Com isso, ele conseguiu ampliar seu eleitorado”, afirmou ao Terra.

Para Cila, a campanha ainda pode alterar esse cenário, já que a comunicação eleitoral tem capacidade de mudar a percepção dos eleitores. Na avaliação dela, a disputa pode ser definida por uma parcela pequena de eleitores que já passou por diferentes campos políticos nos últimos anos.

“Quem vai conseguir ganhar essa eleição, na nossa visão aqui, é quem conseguir conquistar 3%, 4% de eleitores que já votaram no presidente Bolsonaro em 2018, ficaram desapontados com a gestão da pandemia, votaram no presidente Lula esperando um segundo mandato que melhorasse a condição de vida dos mais pobres e, hoje, estão desencantados também”, disse.

Esse grupo, segundo a pesquisadora, é formado majoritariamente por eleitores apartidários, especialmente mulheres das periferias e regiões metropolitanas do Sudeste e do Nordeste, que não se identificam com a disputa ideológica entre os dois polos. “Essa pequena margem é que vai fazer a diferença”, afirmou Cila.

Ela destacou ainda que Lula mantém atualmente um nível de apoio semelhante ao registrado em 2022 e, até o momento, não conseguiu incorporar uma parcela significativa do eleitorado que está do outro lado. “O presidente Lula tem hoje o mesmo apoio que ele tinha em 2022. Ele não conquistou votos do outro lado”, afirmou.

Projetos do governo e pautas como o fim da escala 6x1, segundo ela, podem ser usados durante a campanha para tentar ampliar esse apoio. Cila ressalta, porém, que o eleitorado brasileiro não se resume à divisão entre esquerda e direita.

“O Brasil não é dividido só em esquerda e direita. A gente tem uma infinidade de outras posições quando fala de ideologia e de posição política, mas, grosso modo, o Brasil se divide, desde 1989, entre Lula e anti-Lula. Mesmo nas eleições em que não esteve na cédula, seja com Dilma, seja com Fernando Haddad, era esse campo que estava representado. Então, existe um voto anti-Lula, um voto anti-PT, que se aglutina ali no final do primeiro turno”, afirmou.

A pesquisadora afirma ainda que o instituto passou a considerar, pela primeira vez desde 1998, a possibilidade de uma definição da eleição já no primeiro turno. “Eu não estou falando de quem vai ganhar a eleição. A pesquisa existe para mostrar o que eu tenho hoje, mas também para fazer exercícios de acordo com o que a gente vê na história e com o que a gente está vendo da movimentação do eleitor, para adiantar cenários possíveis”, afirmou. “Esse cenário de primeiro turno é um cenário que, pela primeira vez aqui no instituto, a gente está vendo como possível desde 1998.”

Desde a redemocratização, o único candidato à Presidência a vencer a disputa já no primeiro turno foi Fernando Henrique Cardoso (PSDB), que conquistou a vitória nas eleições de 1994 e 1998. Nos dois pleitos, FHC terminou à frente de Lula, que disputou a Presidência pela primeira vez em 1989 e voltou a concorrer nas eleições seguintes.

Para Cila, um dos fatores que ajudam a explicar a possibilidade de uma definição ainda no primeiro turno em 2026 é a concentração do eleitorado nos dois principais campos políticos. “O presidente Lula está sozinho no campo da esquerda. Só ele está ocupando esse espaço”, aponta.

O efeito, porém, pode ser diferente daquele observado em um eventual segundo turno. Na primeira etapa da disputa, a ausência de outros nomes competitivos no campo da esquerda pode favorecer a concentração dos votos em Lula. Já em uma segunda etapa, a falta de outras candidaturas do mesmo campo pode reduzir o número de votos que o petista teria para incorporar.

Na direita, Cila aponta outro movimento que pode contribuir para a concentração dos votos: o chamado “antipetismo de chegada”. O fenômeno ocorre quando eleitores contrários a Lula deixam de votar no candidato de sua preferência para apoiar, já no primeiro turno, aquele que consideram ter mais chances de derrotar o petista em um eventual segundo turno.

“É quando o eleitor antipetista, antilulista, resolve despejar os votos no candidato que ele considera que tem mais chances de vencer do Lula no segundo turno. Mas ele adianta isso para o primeiro turno”, explica. “É um fenômeno que já atingiu, por exemplo, a Marina Silva, em 2014, quando o Aécio Neves passou para o segundo turno. E com o próprio Geraldo Alckmin, que tinha ali um latifúndio de partidos de tempo na televisão, mas o Jair Bolsonaro que passou para o segundo turno”, relembra.

A avaliação ganha peso diante da ausência, até o momento, de uma candidatura de terceira via capaz de conquistar uma parcela expressiva do eleitorado. Cila cita os ex-governadores Ronaldo Caiado (PSD), de Goiás, e Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais, como exemplos de candidatos conhecidos em seus Estados, mas ainda com menor reconhecimento nacional. Para ela, esse cenário pode mudar com o avanço da campanha, os debates, as sabatinas e o horário eleitoral.

“O eleitor não estava prestando atenção, nem sabia quem eram os candidatos. Então, a gente vai ver, sim, uma movimentação entre esses candidatos”, afirmou.

Outro fator apontado pela CEO é a possibilidade de aumento dos votos brancos e nulos entre pessoas insatisfeitas com a polarização entre Lula e um representante do bolsonarismo. Segundo ela, pesquisas qualitativas realizadas pelo instituto indicam que parte do eleitorado demonstra descontentamento com a repetição desse confronto.