Com o país a ser alvo de incêndios devastadores com frequência, a Grécia avançou com uma rede própria de satélites equipados com Inteligência Artificial (IA), capaz de detetar um incêndio com apenas quatro metros...

29 Jun 2026 · High Tech 17 Comentários

Com o país a ser alvo de incêndios devastadores com frequência, a Grécia avançou com uma rede própria de satélites equipados com Inteligência Artificial (IA), capaz de detetar um incêndio com apenas quatro metros de diâmetro e enviar o alerta às equipas de bombeiros em tempo quase real.

Os incêndios no verão mediterrânico podem tornar-se incontroláveis em poucos minutos, e a Grécia conhece essa verdade, assim como Portugal.

O país grego ainda recorda o fogo de 2018 perto de Atenas, que matou mais de 100 pessoas, e o incêndio de 2023, que se tornou o maior já registado na União Europeia (UE).

Com um histórico nada invejável, em maior, a Grécia lançou para órbita baixa quatro pequenos satélites, cada um mais compacto do que uma bagagem de mão, tornando-se o primeiro país a integrar uma constelação própria dedicada à deteção de incêndios no seu sistema nacional de proteção civil.

Michel Farah, engenheiro de software da OroraTech, a trabalhar numa réplica de um satélite de deteção de incêndios florestais nas instalações da empresa, em Atenas, na Grécia, no dia 18 de junho de 2026. Crédito: Petros Giannakouris/AP Photo

Os satélites foram construídos pela empresa alemã OroraTech e equipados com sensores térmicos capazes de identificar focos de incêndio a partir de apenas quatro metros de largura, uma sensibilidade superior à dos satélites tradicionais.

Quando um foco é detetado, os dados captados pelos satélites são processados por modelos de IA, que calculam automaticamente uma série de elementos, antes de enviarem o alerta aos comandantes no terreno:

Esta informação é especialmente útil quando há vários incêndios em simultâneo, pois permite às autoridades decidir rapidamente quais merecem prioridade imediata.

A IA desempenha, também, um papel importante por filtrar falsos alarmes. Uma vez que painéis solares, telhados industriais quentes ou rochas aquecidas pelo sol podem confundir os sensores térmicos, os algoritmos foram treinados para distinguir estes casos de incêndios reais antes de qualquer alerta chegar às equipas de emergência.

Dimitris Papastergiou, ministro da Governação Digital da Grécia, com uma maquete de um nanossatélite, em Atenas, na Grécia, no dia 23 de junho de 2026. Crédito: Lefteris Pitarakis/AP Photo

Este sistema de satélites gregos não funciona isolado, complementando drones e sensores terrestres que o país já tinha reforçado depois da tragédia de 2018.

A ideia é colmatar falhas de cobertura dos satélites internacionais, especialmente em zonas remotas de difícil acesso.

Com planos de expansão, a Grécia está a construir, em conjunto com três empresas europeias, uma rede de observação mais ampla, que vai combinar satélites:

O investimento total ronda os 200 milhões de euros, financiados pela UE, com novos lançamentos previstos ainda este ano.

Entretanto, Atenas já garantiu mais 350 milhões de euros de financiamento adicional para reforçar o programa.

Conforme a informação avançada pela Associated Press, responsáveis gregos e europeus já admitem usar este tipo de rede de satélites para outros fins, como vigilância de fronteiras, gestão agrícola, resposta a catástrofes e até identificação de "ilhas de calor" urbanas, ajudando a planear a localização de centros de arrefecimento durante ondas de calor extremas.

O exemplo grego ganha ainda mais relevância quando olhamos para Portugal, que enfrenta um problema igualmente grave.

Todos os anos, Portugal é um dos países europeus mais afetados por incêndios florestais. Em 2025, foi mesmo o país da UE com maior percentagem de território ardido, num ano que ficou registado como o segundo pior da última década e meia.

Perante este cenário recorrente, a estratégia grega mostra que já existe tecnologia madura, testada e relativamente acessível para reforçar a deteção precoce de incêndios, sem depender exclusivamente de satélites internacionais partilhados por toda a Europa.