Na semana passada visitei meu colega de Folha , Marcelo Viana, diretor-geral do IMPA (Instituto de Matemática Pura e Aplicada). Falamos da revolução que a inteligência artificial está gerando na matemática. Sobre o tema, leia o ótimo artigo que Marcelo escreveu com Artur Avila (brasileiro vencedor da medalha Fields) aqui na Folha . Leia mais (09/20/2026 - 14h00)

Advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro

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20.set.2026 às 14h00

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Na semana passada visitei meu colega de Folha, Marcelo Viana, diretor-geral do IMPA (Instituto de Matemática Pura e Aplicada). Falamos da revolução que a inteligência artificial está gerando na matemática. Sobre o tema, leia o ótimo artigo que Marcelo escreveu com Artur Avila (brasileiro vencedor da medalha Fields) aqui na Folha.

Neste momento a matemática está em polvorosa. A razão é que um dos seus "problemas do milênio" foi resolvido com inteligência artificial, as equações Navier-Stokes que modelam o comportamento de fluidos. O resultado está em um impressionante estudo de 166 páginas.

Duas coisas chamam atenção nele. O estudo não é assinado por ninguém. No topo consta apenas "OpenAI". E, mesmo não sendo assinado, o estudo usa o pronome "nós" para descrever os achados. Quem seria esse "nós"? O coletivo do conhecimento humano? Um "nós" real, ou luciferiano?

O fato é que entramos em um território em que a IA está sendo usada na fronteira da matemática. O que permitiu chegarmos a este momento é o trabalho de um brasileiro: o cientista da computação e matemático Leonardo de Moura. Doutor pela PUC do Rio, Leonardo desenvolveu em 2013 a linguagem de programação Lean, que permite a descrição e a prova de problemas matemáticos por computadores.

O impacto da criação do Lean só será compreendido com o passar dos anos. Por causa dele foi possível a criação de bibliotecas de resoluções matemáticas, traduzidas para linguagem computacional. O Mathlib, a maior dessas bibliotecas, tem mais 400 mil "declarações".

Só foi possível para a inteligência artificial atuar na fronteira da matemática por causa do Lean. Sem ele, provar a resolução do problema Navier-Stokes não teria sido possível. O Lean deveria estar incluído no "nós" do estudo.

O curioso é que a chegada da IA na matemática está produzindo maravilhamento e terror. Por exemplo, 25 ganhadores da medalha Fields assinaram uma carta com o título "Desalinhamento Severo da IA na Matemática".

A carta abre dizendo que "a resolução de problemas matemáticos como métrica por empresas de IA ocorre em detrimento da matemática e sua comunidade". Artur Avila está na lista das assinaturas.

De fato, um dos aspectos mais nobres da matemática é que ela pode ser feita apenas com lápis e papel. Ou melhor, podia. Agora, a fronteira da matemática passa a exigir poder computacional.

Para resolver Navier-Stokes, o custo foi algo como US$ 22 milhões em computação (cerca de R$ 113,1 milhões). Isso cria desigualdades e desarticula a comunidade matemática (uma das coisas mais belas que a humanidade já produziu). E o mais radical: torna a matemática incompreensível para nós, humanos.

Sobre isso, o jovem matemático Logan Graves escreveu: "O que sobra para essa comunidade? Converter-se em monges. Passar o resto de suas vidas tentando entender o incompreensível. Mesmo gênios serão incapazes de entender uma única descoberta".