Dê de presentePrefira a Gazeta no GoogleGoverno Lula assiste ao crescimento da irrelevância diplomática do Brasil, inclusive na América Latina. (Foto: Imagem produzida por ChatGPT/Gazeta do Povo)Ouça este conteúdo
Há derrotas diplomáticas que chegam com a assinatura de um tratado hostil, uma votação perdida ou uma crise aberta. Há outras, mais silenciosas e, por isso, mais perigosas, que se consumam quando um país descobre que os demais começaram a organizar o seu entorno geopolítico sem esperar por ele. O Brasil vive, diante do Escudo das Américas, precisamente essa segunda situação, traduzida, simplesmente, como crescente irrelevância.
A reunião realizada por Estados Unidos e catorze países latino-americanos em Nova York, em 22 de setembro, às margens da Assembleia Geral da ONU, deixou de vez para trás a ideia de que o Escudo seria apenas mais uma coalizão episódica de combate ao narcotráfico. Trata-se de algo substancialmente mais relevante: uma arquitetura de concertação geopolítica hemisférica estruturada em três pilares de atuação: economia, segurança e coordenação multilateral.
A agenda inclui sanções financeiras, restrições de vistos, cooperação militar e de inteligência, tecnologias de segurança, triagem de investimentos, cadeias de minerais críticos e regras para fornecedores de infraestrutura digital. Sua primeira ação conjunta tem como alvo 24 organizações tratadas pelos participantes como narcoterroristas transnacionais. Entre elas estão o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho.
Esse fato deveria bastar para encerrar uma das ficções mais persistentes da política externa deformada e desfocada do governo Lula: a de que permanecer fora de uma arquitetura internacional equivale, por si só, a preservar autonomia. Não equivale. No caso específico, significa apenas conservar intacta a liberdade de não influenciar nada.
O Brasil vive, diante do Escudo das Américas, precisamente essa segunda situação, traduzida, simplesmente, como crescente irrelevância
A ironia histórica é difícil de exagerar. O Escudo pretende solicitar ao Conselho Permanente da OEA a convocação de um órgão de consulta com base no Tratado Interamericano de Assistência Recíproca, o TIAR. O tratado foi adotado no Rio de Janeiro, em 1947. Seu instrumento original está depositado no Itamaraty. Em 2001, depois dos atentados de 11 de setembro, foi o próprio governo brasileiro que pediu a convocação do mecanismo. Setenta e nove anos depois de o Rio ter dado nome ao tratado, e 25 anos depois de Brasília tê-lo mobilizado, o Brasil corre o risco de assistir de fora à tentativa de utilizá-lo contra duas organizações terroristas nascidas em seu próprio território. A geografia permaneceu. A diplomacia, acanhada e desmoralizada, saiu da sala.
É nesse ponto que a responsabilidade do governo Lula e da duplamente acéfala gestão Mauro Vieira/Celso Amorim precisa ser examinada sem eufemismos. O problema não se resume à divergência com Washington sobre a classificação jurídica de PCC e CV como organizações terroristas. Inclui também haver transformado essa divergência em substituto de estratégia.
Desde março, estava claro que a administração Trump pretendia converter o combate aos cartéis e às facções transnacionais em eixo de reorganização hemisférica. Em junho, Washington designou PCC e CV como organizações terroristas estrangeiras. Em julho, o próprio Vieira advertia sobre os possíveis efeitos dessa decisão. Ainda assim, o Planalto e o Itamaraty alegam que foram surpreendidos pela inclusão das duas facções na primeira ação coletiva do Escudo, o que revela, no mínimo, dois aspectos igualmente constrangedores.
O primeiro é a constatação da minúscula capacidade de inteligência estratégica do Estado brasileiro, voltada para a antecipação de situações que tragam riscos potenciais ao País e à consecução dos interesses nacionais. O segundo, diretamente derivado do primeiro, é a materialização do isolamento geopolítico do Brasil e de sua incapacidade de coordenar posições sequer em âmbito regional. A diplomacia de Lula, para surpresa de zero pessoas, subitamente se descobriu sem voz e sem influência.
Diplomacia não é a arte de concordar. É, antes de tudo, a arte de antecipar. Um Ministério das Relações Exteriores pode discordar de uma iniciativa, tentar limitá-la, modificá-la ou bloqueá-la. O que não deveria fazer é descobrir pela imprensa que 15 vizinhos e parceiros acabaram de adotar uma posição sobre duas organizações terroristas brasileiras que afetam diretamente a segurança nacional do País. A surpresa, nesse caso, não é uma virtude da prudência, mas uma medida de perda de capacidade de leitura do entorno.
O discurso de Lula na ONU repetiu uma oposição que soa bem no palanque para os áulicos da delegação brasileira, sedentos por bajulação, mas que carece de qualquer densidade estratégica ou caráter propositivo: o Brasil não terceirizaria a defesa de suas fronteiras e não precisaria de porta-aviões em suas águas.
A diplomacia de Lula, para surpresa de zero pessoas, subitamente se descobriu sem voz e sem influência
A frase constrói um adversário imaginário conveniente, típico das falácias esquerdistas, para evitar a questão real. Ninguém precisa defender subordinação militar estrangeira para concluir que o Brasil deve estar presente onde se escrevem regras que afetarão suas fronteiras, seus bancos, suas empresas, seus portos, suas redes digitais, seus cidadãos e suas cadeias minerais. Soberania não é isolamento, e sim capacidade de converter poder nacional em influência sobre decisões externas.
Existe aqui um passivo doméstico concreto. O narcoterrorismo não respeita a distinção administrativa entre política interna e política externa. PCC e CV operam por corredores logísticos, redes financeiras, portos, fronteiras, intermediários, empresas de fachada, fornecedores de armas e alianças transnacionais. Quando a repressão aumenta de forma desigual entre países vizinhos, as redes tendem a deslocar rotas, ativos e centros de comando para os espaços de menor risco.
Se o Escudo se tornar mais eficaz ao redor do Brasil enquanto o País permanece parcialmente desconectado de seus fluxos de inteligência, sanções e cooperação, cresce o risco de um efeito de deslocamento para território brasileiro. O crime organizado conhece, à sua maneira, a velha lógica hidráulica: pressione-se um ponto do sistema e o fluxo buscará outra saída.
O passivo externo é ainda maior. Ao não participar da fase formativa, o Brasil perde a oportunidade de definir critérios de designação, salvaguardas de soberania, mecanismos de compartilhamento de dados, padrões de sanções financeiras e limites para o emprego de instrumentos coercitivos. Perde também a possibilidade de transformar sua centralidade geográfica em poder de agenda. Países menores podem aceitar regras. Potências regionais devem tentar escrevê-las.
A imagem da cadeira vazia merece uma precisão histórica. Charles de Gaulle pôde usar, em 1965, a chamada política da cadeira vazia para pressionar a Comunidade Econômica Europeia porque a França era institucionalmente incontornável e dispunha de meios para bloquear o processo. A cadeira vazia só é instrumento de poder quando todos precisam que seu ocupante volte. Quando os demais descobrem que podem rearranjar a mesa, ela deixa de ser instrumento de pressão e passa a ser apenas mobília desocupada. O perigo para o Brasil é justamente que a América do Sul se habitue a organizar segurança, inteligência, minerais, comércio, infraestrutura e posições multilaterais sem esperar por Brasília.
O componente geoeconômico torna a omissão mais grave. O documento do Escudo menciona expressamente triagem de investimentos, proteção de cadeias de minerais críticos e fornecedores confiáveis de infraestrutura digital. Não se trata, portanto, de uma aliança policial com adereços econômicos. Trata-se do esboço de uma arquitetura hemisférica para um mundo no qual segurança, tecnologia, finanças, energia e recursos naturais voltaram a formar um único tabuleiro.
Poucos países teriam mais a ganhar com uma participação inteligente do que o Brasil. O próprio governo brasileiro reconhece que o País detém a maior reserva mundial de nióbio e figura entre os principais detentores de grafite, terras raras, níquel, manganês, bauxita e lítio. Isso permite pensar em uma pilha estratégica brasileira que vá da geologia à indústria: pesquisa mineral, extração, processamento, refino, metalurgia, ímãs, baterias, componentes, energia limpa, infraestrutura digital, financiamento e acesso a mercados. O erro seria reduzir essa riqueza a uma escolha infantil entre EUA e China. O objetivo deveria ser usar a competição entre grandes potências para aumentar a capacidade nacional, diversificar dependências e subir na cadeia de valor.




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