Na Assembleia Geral da ONU, Lula manda indiretas a Trump e rivais bolsonaristas ao dizer que não permitirá que "inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular" nas eleições.

"A democracia está novamente em xeque. Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais. A divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos", disse Lula, após mencionar que na América Latina e Caribe, "a proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é inescapável".

Em outro recado, aparentemente direcionado à proximidade entre a Casa Branca e seus aliados bolsonaristas no Brasil, Lula disse que "sabemos que alguns abusam dessa liberdade para se associar a interesses estrangeiros contrários ao país".

"Mas possuímos um sistema eleitoral moderno e robusto. Sob o olhar atento de uma cidadania plural e de uma imprensa livre, não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular", prosseguiu o presidente.

"A democracia brasileira pertence aos brasileiros. O Brasil continuará sendo um país soberano. Ninguém..! Ninguém nos afastará desse caminho."

Tal como ocorreu em 2025, a fala de Lula na ONU ocorre em um momento particularmente delicado para a diplomacia brasileira. A viagem de Lula a Nova York ocorre após a Casa Branca sob Donald Trump impor um novo tarifaço punitivo a exportações brasileiras.

Lula fez duas referências indiretas às tarifas dos EUA, que também atingem países como o Canadá e membros da União Europeia, entre outros.

A delegação dos Estados Unidos presente na Assembleia não aplaudiu, em momento algum, o discurso de Lula, em contraste com outros países.

Lula discursou após a presidente da Assembleia Geral, o bangladeche Khalilur Rahman, e o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres.

Em outros momentos do discurso, Lula ainda fez referências críticas indiretas à postura dos EUA em temas como a guerra do Irã e a intervenção na Venezuela.

"Ameaçar civilizações de extinção não trará estabilidade para o Oriente Médio", disse Lula, numa referência a uma das ameaças feitas por Donald Trump ao Irã durante o conflito com o país no primeiro semestre.

"O Estreito de Ormuz transformou-se em trincheira da guerra, quando deveria permanecer uma passagem vital para o comércio internacional. Famílias em todo o mundo pagam pelo aumento dos preços de combustíveis, fertilizantes e alimentos”, disse Lula.

O presidente brasileiro ainda disse brevemente que “o povo venezuelano merece definir o próprio destino” e criticou o cerco dos EUA a Cuba.

"Em Cuba, o mundo assiste estarrecido à punição coletiva imposta a 10 milhões de pessoas por um embargo econômico e um cerco energético ilegais."

Lula só fez uma referência nominal aos Estados Unidos em seu discurso, quando mencionou o combate ao crime organizado. O tema também é delicado no contexto das relações entre EUA e Brasil. A Casa Branca reiteradamente tem usado o discurso de combate ao crime para ampliar ações militares na América Latina e críticos veem a ofensiva como uma estratégia para intervenções com objetivo político.

"O Brasil não subestima o desafio representado pelo crime organizado. Estamos preparados para enfrentar as organizações criminosas que aterrorizam nossas comunidades. (...) Mas não vamos terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras e de garantir à população o direito de viver sem medo", disse Lula.

"Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime. Esse é o espírito da proposta que entreguei pessoalmente ao presidente dos Estados Unidos. Queremos combater a lavagem de dinheiro realizada por criminosos brasileiros no exterior", prosseguiu Lula, que em seguida listou iniciativas do seu governo para o combate ao crime.

No início do seu discurso, Lula abordou um tema habitual da diplomacia brasileira: a cobrança por reforma de organismos internacionais, especialmente o Conselho de Segurança das Nações Unidas, que também é defendida por países como Alemanha e Japão.

“A ONU está falhando em uma das suas missões mais elevadas: a de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa. Sua capacidade de proteger os mais vulneráveis – os que não têm exército, nem arsenais – nunca foi tão pequena", disse Lula.

“Somos todos reféns do imobilismo de um Conselho de Segurança que não cumpre o seu papel."

O presidente brasileiro também direcionou críticas explícitas a Israel pela guerra em Gaza, mas também condenou o terrorismo do grupo palestino Hamas, cujas ações desencadearam o atual conflito.