O problema com o PSD não é ter renegado a ideologia dos seus fundadores – o problema mesmo é ser cada vez menos um partido de ideias e propostas e mais um ...

Será que a derrota parlamentar do pacote laboral foi o tónus de que o PSD precisava? E também o álibi que procurava?

Até sexta-feira de manhã, até ao chumbo pelo Chega da reforma-emblema deste governo, havia uma narrativa dominante: o PSD tinha escolhido, tinha-se encostado ao Chega, mantinha formalmente o jogo de espelhos da equidistância ou do “governo pisca-pisca” mas no fundo, bem no fundo, Luís Montenegro rendera-se a André Ventura e o PSD a uma espécie de “geringonça de direita” abençoada pelo Chega.

Depois da derrota na votação parlamentar esta narrativa ficou coxa, perdeu credibilidade. Vista de Anadia, essa derrota foi o que deu ânimo aos discursos tornando-se no alfa e ómega de uma outra narrativa, a narrativa do montenegrismo reformista.

Assim se vai fazendo a espuma dos dias, como se entretanto em Portugal o salário médio não continuasse mais de mil euros abaixo do salário médio da União Europeia e como se não fosse necessário fazer alguma coisa – para além de repetir discursos piedosos – para alterar esta triste realidade.

Terá havido quem achasse que este chumbo foi um mal que veio por bem – afinal ele permitirá separar águas e expor a natureza dúplice e irremediavelmente oportunista do Chega. É gente que se ilude. É gente que ainda acredita que o Chega é um partido à antiga, com ideias e programa, e não mais um desses novos partidos que têm crescido como cogumelos um pouco por toda a Europa e que vivem de algumas causas populares que sabem identificar e cavalgar. Não são partidos feitos para governar, porventura nem serão partidos feitos para ocupar o poder, são partidos de protesto que quase sempre falham o teste da seriedade política. São partidos que se alimentam do povo zangado, não partidos que tenham muita coisa a propor para além de meia dúzia de bandeiras etnonacionalistas.

“Com o taticismo e com a ideologia”, oiço alguns dizer, todos os que nos dias que antecederam a votação do pacote laboral não foram poucos os que repetiram esta lenga-lenga, acusando o partido de Luís Montenegro de ter deixado de ser o partido social-democrata de outros tempos e se estar a encostar à direita radical. O desencontro com Ventura torna este discurso menos popular, mas o erro de base é outro: as opções políticas que atormentam os zeladores do politicamente correcto, designadamente todas as que se referem à nova realidade da imigração, são opções que decorrem quer de uma nova realidade, quer sobretudo de um novo conjunto de preocupações do eleitorado. O país com 15% de imigrantes, ou mais, não é o mesmo país com uma imigração residual, e só fica surpreendido quem não tiver reparado como as alterações demográficas noutros países geraram também neles novas escolhas políticas.

O problema com o PSD não é ter renegado a ideologia dos fundadores – o problema mesmo é ser cada vez menos um partido de ideias e propostas e mais um partido de simples ocupação do poder.

O PSD acredita mesmo na urgência do pacote laboral? O PSD ainda se lembra que em 2010 apresentou uma proposta de revisão constitucional onde se riscava do texto fundamental a proibição de despedimentos sem justa causa? Ou o PSD é aquele partido onde se faz carreira e se chega à comissão permanente votando ao lado dos socialistas e dos comunistas (e agora do Chega) contra qualquer alteração às regras do mundo do trabalho, como acontecia com Lucinda Dâmaso?

Vou até mais longe: o governo acreditava mesmo no pacote laboral? Ou essa reforma era só de Maria do Rosário Palma Ramalho, tão pouca a atenção que lhe foi dada, meses a fio, pela liderança política do executivo?

O que me leva de regresso ao tema do partido clientelar, mais interessado em ocupar o poder do que em transformar o país, a um PSD que aparentemente não parece perceber que qualquer reforma suscitará sempre oposição, sobretudo quando não existe um governo de maioria, pelo que para as realizar é preciso conquistar “os corações e as mentes” do eleitorado, isto é, é preciso construir maiorias sociais que as apoiem. Um partido reformista sabe que esse é o caminho que tem de ser percorrido, um partido clientelar perder-se-á sempre em cálculos de oportunidade e de timings eleitorais.

Pior: este é o tipo de partido centrista, dependente do exercício do poder e tantas vezes envelhecido que, por essa Europa fora, tem sucumbido ao avanço eleitoral dos novos partidos de protesto, partidos que cavalgam descontentamentos em sociedades onde o mal dizer contamina todos os espaços públicos.

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