Divórcio, infância difícil, um acidente: nem tudo o que dói é trauma. Gustavo Jesus explica o que acontece no cérebro e quando procurar ajuda. Novo episó...

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Desculpa. Nós podemos ter uma família onde não há violência, onde não há abuso, mas onde também o amor é condicional, não é incondicional.

E o nosso cérebro, no fundo, tende a adaptar-se a tudo o que tem.

Bem ou mal, adapta-se. Aquela memória salta sem a pessoa perceber por quê e ela é revivida de forma tão emocionante e tão ativa como se estivesse a acontecer aquele momento.

Mas há traumas que podem ser mais invisíveis, por assim dizer, situações que podem deixar uma marca sem que nos apercebamos da gravidade que elas tiveram.

Sim, o trauma fica armazenado no nosso corpo, mas não é tão simples como às vezes as pessoas querem fazer. Há divórcios que são extremamente traumáticos na verdadeira acepção do termo. Tu podes ter trauma menor e trauma complexo ao longo da tua infância e depois tens um grande evento major que dá origem a um estresse pós-traumático.

E não vai correr muito bem.

Já vamos falar sobre as várias possibilidades para uma cura, para resolver um trauma, mas há traumas incuráveis? Gustavo, quando alguém diz que tem um trauma, nós normalmente achamos que percebemos bem o que a pessoa quer dizer. "Olha, tenho um trauma." Mas será que nós percebemos bem o que é exatamente ter um trauma?

Eu acho que a maior parte das pessoas não percebe exatamente o que é o trauma e confunde trauma com estresse intenso, e são coisas diferentes. E por outro lado, há ainda que distinguir trauma acontecimento de trauma evento psicológico, porque as pessoas pensam, no fundo, que ter um evento muito traumático na vida é o trauma em si. Mas, na verdade, o trauma, deste ponto de vista psicológico que nós estamos aqui a falar, não é o evento em si, é sim a resposta que o nosso cérebro e o nosso corpo fazem a esse evento. Porque nós dois podemos deparar-nos com uma circunstância igual. Podemos ir na rua e ver um atropelamento e o nosso cérebro reage muito diferentemente a esse acontecimento. Portanto, uma coisa é o acontecimento, outra coisa é a reação corporal e cerebral ao acontecimento. E isso é que, do ponto de vista psiquiátrico e psicológico, é o trauma.

E pode ter intensidades diferentes, porque há muitas pessoas que dizem ou que acham mesmo que nunca tiveram um trauma, porque nunca passaram por uma guerra, nunca viveram uma situação de abuso na infância e, portanto, estão a pensar em coisas maiores. Mas há traumas que podem ser mais invisíveis, por assim dizer, situações que podem deixar uma marca sem que nos apercebamos da gravidade que elas tiveram.

A resposta simples é sim, pode haver. Mas agora deixa-me só voltar atrás para explicar o seguinte: quando nós temos estresse psicológico, e já falamos muito aqui no nosso programa de estresse psicológico, no fundo, existem sempre alterações do nosso sistema nervoso em reação aos acontecimentos propriamente ditos, acontecimentos estressantes. Quando nós falamos de acontecimentos traumáticos, estamos a falar de um grau um bocadinho maior do que apenas acontecimentos estressantes. Porque uma coisa é eu ter muita coisa por fazer, muito trabalho e por aí fora, outra coisa é acontecer algo traumático. E a definição clássica de trauma é, de facto, aquilo que tu disseste como sendo o trauma major. Ou seja, habitualmente, e de acordo com as definições, depois explico, aliás, que perante um trauma, uma pessoa pode desenvolver mesmo uma perturbação psiquiátrica. Não necessariamente desenvolve, mas pode desenvolver. E para que essa perturbação aconteça, o trauma tem que ser major num dos tipos de doença ou minor noutro tipo. O trauma major implica sempre ou a morte presenciada ou conhecida de alguém, que pode ser próximo ou não, mas tem que ser uma morte presenciada ou altamente reconhecida, ou uma violência física com ameaça vital, com ameaça à vida, ou então, por exemplo, violência sexual. Portanto, tem que ser uma coisa muito grave que tem que ser presenciada ou vivida na própria pessoa. Isto é a definição clássica de trauma major. Quando nós passamos por um trauma major, e era como te dizia, o nosso cérebro sofre, registra várias alterações. Essas alterações, só para resumir, acontecem em duas regiões principais do nosso cérebro: a amígdala, que digamos, é o central de alarme, que é perante aquele trauma, no fundo, o que acontece é que o ser humano se sente ameaçado. Eu estou em ameaça, porque eu presenciei a morte ou eu estou a ser vítima de algo que me pode causar a morte, e a amígdala ativa-se muito, portanto, há um sinal de alarme no nosso cérebro. E depois faz uma série de ativações e nomeadamente regula ou desregula outras regiões do cérebro relacionadas, por exemplo, com a memória, como é o caso do hipocampo ou o córtex pré-frontal. Portanto, toda a gente tem isto. Perante um trauma, uma grande ativação do nosso cérebro através da amígdala, com modificação das funções de outras regiões cerebrais. Tipicamente, em pessoas saudáveis, o que acontece é que a pessoa vive o trauma e consegue regular-se. Depois o cérebro volta ao normal, digamos assim. Mas, e por isso é que diferentes pessoas perante o mesmo trauma, podem desenvolver ou não o fenômeno psicológico trauma.

Mesmo num trauma major.

Sobretudo num trauma major, porque depois os mecanismos do trauma minor são um bocadinho diferentes, posso-te explicar já de seguida. Mas quando existe este trauma, toda a gente tem esta ativação, só que depois, dependendo do estado basal do teu cérebro, tu desenvolves ou não uma coisa patológica relativamente àquele trauma.

O que é isto do estado basal?

O estado basal, no fundo, é aquilo a que aliás, hoje em dia se costuma chamar a resiliência. Portanto, a resiliência do teu cérebro varia dependendo de vários fatores. Fatores geneticamente determinados. Por exemplo, quando eu te digo que a amígdala é ativada, isso está geneticamente até determinado. Há pessoas que são mais sensíveis à ameaça. Há até certas mutações de genes, por exemplo, relacionados com transportadores da serotonina, que é muito conhecida como neurotransmissor, que aumentam o risco de ter perturbação de estresse pós-traumático. Por quê? Porque resultam numa ativação excessiva da amígdala. É como se tu tivesses uma amígdala que já de base é hiperativa geneticamente. Isto, biologicamente determinado. Depois, as experiências prévias que tu tenhas tido. Se tu tiveres tido uma vida altamente estressante ou um período prévio muito estressante que tenha deixado o teu cérebro em alerta prévio, o trauma vai apanhar um terreno mais fértil para desenvolver uma resposta excessiva. E depois, por outro lado, como é que o trauma aconteceu propriamente dito? Ou seja, tu estavas sozinha ou estavas acompanhada por alguém que te fez sentir segura? Estiveste mesmo na iminência de morrer ou foi uma coisa um pouco mais distante? O que é que aconteceu nas horas e nos dias a seguir ao trauma? Ficaste em isolamento social a ruminar no que aconteceu ou continuaste a tua vida e tiveste outras relações que te securizaram? Portanto, todos estes fenómenos pré e pós evento traumático vão modificar a resposta do teu cérebro ao trauma. E isto faz com que depois haja pessoas, a maior parte das pessoas, que resolve aquela resposta que o seu cérebro deu ao trauma de forma natural e outras pessoas desenvolvem doença mental. Deixa-me só fazer esta breve explicação sobre as doenças mentais que resultam do trauma, porque há basicamente três doenças atualmente classificadas nas classificações de doenças mentais sobre trauma. As principais, que são: o estresse pós-traumático. O estresse pós-traumático ou perturbação de estresse pós-traumático acontece tipicamente entre três dias a um mês após o evento traumático. O que acontecer nos três dias iniciais, ou seja, antes desses três dias, chama-se perturbação aguda de estresse. E essas são as duas reações principais ao trauma. Não é estresse, desculpe, é perturbação aguda ao trauma. Depois, perturbação de estresse pós-traumático até um mês. E depois, claro, a perturbação de estresse pós-traumático já é uma perturbação muito disfuncional, enquanto que a perturbação aguda pode resolver-se sozinha e nunca dar origem a uma perturbação de estresse pós-traumático. Mas aqui, voltando à tua pergunta, estamos a falar, sobretudo, trauma major. Quando falamos de trauma minor, aí já não estamos necessariamente a falar de uma resposta aguda a um evento em particular, mas sim a uma resposta continuada a algo que foi acontecendo de forma repetida e dá origem a uma coisa que é bastante recente nas classificações, que é a perturbação de estresse pós-traumático complexo ou trauma complexo.

Não. Então passas a ouvir, porque é extremamente importante, porque é uma mudança radical do paradigma relacionada com o trauma.

Mas então vamos perceber primeiro o que é esse do trauma minor. Não é uma coisa tão intensa e tão grave, deixa-me usar esta expressão, como presenciar a morte de alguém ou estar na iminência da morte ou um abuso sexual. Não é isso?

É uma coisa menos intensa e menos extrema, vá, mas continuada no tempo.

E já agora, também dependendo da fase da vida em que acontece. Tipicamente, estamos a falar de coisas que acontecem em fases mais vulneráveis da vida da pessoa, ou seja, infância, adolescência. E quando tu dizes, por exemplo, são, por exemplo, estilos parentais de humilhação, portanto, humilhação permanente ou, pelo contrário, desvalorização constante e falta de cuidado quando esse cuidado é necessário. No fundo, são circunstâncias repetidas, tipicamente das figuras de vinculação, ou seja, aquelas pessoas, já falámos de vinculação anteriormente em episódios anteriores.

E da importância da vinculação mãe e filho.