Universidade brasileira precisa recuperar o protagonismo

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12.out.2026 às 22h00

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Felipe Chiarello de Souza Pinto Advogado, é mestre e doutor em direito (PUC-SP), pesquisador ado CNPq e diretor da Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie

Advogado, é mestre e doutorando em direito (Mackenzie); sócio de Gordilho Napolitano Advogados

Há uma transformação silenciosa em curso. O mercado, cansado de esperar que a universidade entregue profissionais preparados para seus desafios, passou a formar a mão de obra de que precisa.

Não se trata apenas de treinamentos internos. Crescem ecossistemas corporativos de formação, com certificações, academias digitais, "bootcamps" e programas de requalificação voltados ao mercado de trabalho.

Google, Microsoft e IBM oferecem certificações em tecnologia e dados, muitas delas sem diploma. No Brasil, o Mercado Livre vincula contratações ao IT Bootcamp, enquanto as Apple Developer Academies formam estudantes em parceria com universidades.

O movimento já alcança a graduação. O MEC autorizou o grupo J&F a criar uma faculdade em áreas estratégicas para seus negócios. XP e Inteli também disputam espaço com cursos reconhecidos pelo ministério. O sucesso da Faculdade Israelita Albert Einstein mostra que instituições ligadas ao setor privado podem conquistar prestígio acadêmico.

A fronteira entre mercado e academia tornou-se permeável. A Brasil Terminal Portuário formou quase cem profissionais por meio de sua universidade corporativa. Quando empresas estruturam a própria formação, o protagonismo histórico das instituições de ensino superior sofre um abalo.

A questão é saber o que restará da universidade se formação prática, certificação e atualização profissional forem oferecidas com mais velocidade pelo mercado.

Durante décadas, a universidade ocupou posição central na organização do conhecimento. Hoje, empresas identificam competências, desenham cursos, contratam especialistas, certificam e conectam alunos ao emprego. Muitas universidades ainda operam com semestres, grades rígidas e estruturas lentas. Segundo o Censo da Educação Superior de 2024, a rede privada concentra quase 80% das matrículas de graduação. Perder relevância terá consequências financeiras e acadêmicas.

O risco alcança os professores. Se corporações remuneram melhor especialistas em áreas estratégicas, as instituições perdem atratividade para docentes e profissionais de fronteira. O professor não pode continuar sendo tratado apenas como hora-aula.

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A universidade, porém, não deve competir com o mercado, imitando-o. Sua missão inclui pensamento crítico, ciência, responsabilidade pública, densidade ética e compreensão histórica. Forma profissionais capazes não apenas de ocupar postos de trabalho, mas de transformá-los.

Essa missão não autoriza imobilismo. É preciso ampliar formação continuada, certificações curtas, projetos aplicados, laboratórios de inovação, pesquisa financiada e integração com empresas, governos e sociedade civil. Empregabilidade e formação humanística podem caminhar juntas.