Num mundo onde as tecnologias estratégicas nascem cada vez mais em universidades, startups e empresas tecnológicas, o dual-use pode ligar inovação, competitividade e autonomia
Durante décadas, a Europa separou cuidadosamente três mundos: a ciência, a inovação empresarial e a defesa. As universidades produziam conhecimento, as empresas transformavam-no em valor económico e os sistemas de defesa desenvolviam-se em ecossistemas relativamente fechados, fortemente especializados e apoiados em programas públicos específicos.
Durante muito tempo, este modelo pareceu funcionar.
Hoje tornou-se uma vulnerabilidade estratégica.
A guerra na Ucrânia, a crescente competição tecnológica entre Estados Unidos e China e a emergência de tecnologias como a inteligência artificial, as tecnologias quânticas, os drones, a computação avançada e a cibersegurança vieram demonstrar que a inovação estratégica já não depende exclusivamente dos sistemas tradicionais de defesa. Pelo contrário, emerge cada vez mais em universidades, startups, centros de investigação, laboratórios colaborativos e empresas tecnológicas civis.
Ao longo de grande parte do século XX, a relação entre inovação e defesa obedeceu a uma lógica relativamente simples. A necessidade militar impulsionava grandes programas científicos e tecnológicos, financiados pelos Estados, que mais tarde transbordavam para a sociedade civil. A internet, o GPS, os radares, os materiais avançados ou a própria energia nuclear nasceram nesse contexto. A defesa era o motor; a sociedade beneficiava posteriormente da transferência tecnológica.
Hoje, a realidade é substancialmente diferente.
Grande parte das tecnologias mais estratégicas nasce fora do setor militar tradicional. A inteligência artificial, os drones, a robótica, os sensores, a computação distribuída, o espaço comercial, as comunicações avançadas ou as tecnologias quânticas são desenvolvidas sobretudo em ecossistemas civis de inovação. A inovação tornou-se distribuída, interdisciplinar, aberta e extraordinariamente rápida.
A defesa deixou de ser o principal produtor exclusivo de tecnologia estratégica e passou progressivamente a depender da capacidade de absorver inovação gerada no ecossistema civil.
É precisamente neste contexto que o conceito de dual-use deixa de ser apenas uma categoria tecnológica e passa a assumir uma relevância estratégica muito mais profunda do que aquela que normalmente lhe é atribuída.
O dual-use já não deve ser entendido apenas como um conjunto de tecnologias com aplicações simultaneamente civis e militares. Essa definição tornou-se insuficiente. O que está verdadeiramente em causa é o aparecimento de um novo enquadramento conceptual, institucional e económico capaz de aproximar mundos que historicamente permaneceram relativamente separados: universidades, empresas tecnológicas, startups, organismos públicos e setor da defesa.
E talvez seja precisamente este o verdadeiro potencial transformador do dual-use.
Ao contrário da indústria militar clássica — historicamente fechada, verticalizada, fortemente regulada e dominada por grandes integradores — o ecossistema dual-use cria uma zona de convergência onde ciência, empreendedorismo, inovação e necessidades estratégicas podem coexistir de forma mais natural e colaborativa.
É difícil imaginar universidades ou empresas tecnológicas civis a fazerem uma transição direta para áreas tradicionalmente associadas ao setor militar pesado, como armamento, munições ou sistemas letais. Existem barreiras culturais, éticas, regulatórias e até reputacionais que tornam esse movimento improvável para a maioria das instituições académicas e empresariais europeias.
Mas o dual-use altera profundamente esta equação.
Uma universidade pode desenvolver inteligência artificial aplicada à saúde e simultaneamente criar capacidades relevantes para sistemas autónomos. Um centro de investigação pode trabalhar em materiais avançados para mobilidade sustentável com aplicações igualmente relevantes para proteção balística ou aeroespacial. Uma startup pode desenvolver sensores, drones, comunicações, computação distribuída ou tecnologias de autonomia destinadas ao mercado civil e, ao mesmo tempo, responder a necessidades estratégicas emergentes.
O dual-use cria, assim, o enquadramento que faltava para permitir a entrada progressiva do ecossistema civil de inovação na área da defesa sem exigir uma militarização direta da academia ou da indústria tecnológica.
E esta poderá ser uma das transformações mais importantes da próxima década.
O conflito na Ucrânia tornou esta mudança particularmente evidente. Drones comerciais adaptados, comunicações satélite originalmente concebidas para uso civil, software colaborativo, impressão 3D, inteligência artificial e plataformas digitais demonstraram que a inovação estratégica já não depende exclusivamente de sistemas militares tradicionais altamente fechados e centralizados. Muitas vezes, depende antes da rapidez com que um ecossistema civil consegue adaptar tecnologia existente a novos contextos operacionais.
Neste novo paradigma, as universidades assumem um papel absolutamente central.
Já não são apenas espaços de produção de conhecimento científico. Tornam-se infraestruturas estratégicas de inovação, soberania tecnológica e desenvolvimento económico. Produzem ciência, talento, propriedade intelectual, startups e novas plataformas tecnológicas capazes de alimentar simultaneamente mercados civis e capacidades estratégicas.


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