O Líbano serve para o Irão fazer testes e para Israel sonhar com a expansão, enquanto os EUA pagam a conta do armamento e fingem lamentar a violência. A análise de Bernardo Valente.

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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço para a análise dos mais recentes desenvolvimentos da guerra no Médio Oriente e também na Ucrânia. Hoje com Bernardo Valente, professor de Relações Internacionais no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Boa noite, Bernardo.

Olá. Vamos então começar pelo conflito no Irão. Já deram início as últimas homenagens ao antigo líder supremo do Irão. O funeral de Ali Khamenei está marcado para amanhã. Começava por lhe pedir para fazermos aqui uma análise deste timing escolhido por Teerão para realizar estas cerimónias.

Há aqui vários fatores que podem ser considerados relativamente ao timing das cerimónias. Primeiro, é importante salientar também que se percebe claramente pelos convites endereçados que temos um mundo novamente bipolar. É um mundo bipolar flexível, ou seja, em que o alinhamento e as alianças dos países ou dos Estados não são rígidos, no sentido em que temos dois blocos fixos. Neste caso, reminiscente ainda da Guerra Fria, um bloco mais pró-russo e um bloco americano, mas temos claramente um bloco antiocidental e um bloco ocidental, e por isso é que não foram endereçados convites nem a líderes europeus, nem a líderes ou representantes norte-americanos. Esse é o primeiro ponto a destacar, creio eu. Se bem que é verdade que há países, como por exemplo a Geórgia, que está num limbo entre os dois lados e por isso é que tem também uma candidatura à União Europeia suspensa e um processo democrático que por vezes é um pouco dúbio e que exatamente por isso foi convidado, no sentido em que ainda pode cair para esse bloco antiocidental através da esfera de influência russa. Para além disso, e agora sim relativamente ao timing, é um momento em que já se percebeu que dentro do Irão, dentro da opinião pública iraniana, o Khamenei é um mártir, portanto é elevado ao estatuto de mártir e se formos ver até aquilo que é a história do Irão, não foram muitos os líderes políticos elevados a esse estatuto. Lembro-me aqui, por exemplo, de Ahmad Mirza, que foi o último líder da dinastia Qajar e por ser o último líder da dinastia Qajar, foi muitas vezes colocada em causa até a sua legitimidade, porque durante muito tempo se acreditou que ele tinha dado soberania iraniana de mão beijada tanto aos britânicos como aos russos, e hoje em dia é visto também como um mártir porque se percebeu que foi um símbolo da resistência iraniana e se não fosse este último líder da dinastia Qajar, também o Irão provavelmente não existiria com a sua soberania ou, na altura, a Pérsia. Portanto, este timing prende-se com o facto de, na opinião pública iraniana, se perceber que temos aqui um mártir e para além disso, há aqui não só um morno entendimento, mas um período de erosão da tensão entre Estados Unidos e Irão.

Temos aqui uma mensagem...

As relações estão aos poucos, gradualmente, a pacificar e para além de estarem a pacificar, percebe-se que existe a tentativa de um cessar-fogo claro, mesmo que com algumas exceções, mas existe esta tentativa de um cessar-fogo claro, e então seria de prever que não existisse qualquer tipo de intervenção externa nestas cerimónias fúnebres. Sabemos que as cerimónias fúnebres vão continuar a decorrer durante mais alguns dias. Portanto, o dia mais importante e que contou com um aparelho securitário reforçado foi precisamente o de hoje, porque tivemos representantes políticos. É importante também agora perceber, neste timing, há uma terceira parte, uma terceira dimensão e um terceiro tempo que é preciso considerar, que é agora quando tivermos as cerimónias na rua, quando tivermos as pessoas a sair à rua, é bom para medir o pulso àquilo que é o sentimento antiocidental, antiamericano do Irão. E para além disso, é também importante saber se aquelas pessoas que saíam em janeiro, em fevereiro, antes do ataque dos Estados Unidos, antes da intervenção dos Estados Unidos ao Irão, que saíam precisamente porque estavam descontentes com as condições de vida que tinham no Irão, precisamente porque queriam uma abertura ao Ocidente, é preciso agora também perceber se essas pessoas terão à vontade ou não para sair, quando vão encontrar na rua aqueles que são os seus inimigos ou opositores políticos e sociais, no sentido em que vamos ter duas fações muito claras. Uma fação que está muito mais pró-ocidental, muito mais pró um regresso a um modelo parecido com aquele que tínhamos na altura dos xás, ou então, do outro lado da barricada estará a população que acredita que Khamenei era um mártir, que para além de acreditar que o Aiatola era um mártir, acredita também que este regime vai sair reforçado deste conflito, precisamente através daquela ideia de que mesmo que não ganhem a guerra, o importante é a sobrevivência do regime, e um regime teocrático xiita, cada vez mais musculado e cada vez mais militarizado. E é interessante também perceber aqui como é que estes dois lados da barricada nestas cerimónias fúnebres irão interagir.

Vamos depois fazer então essa leitura daqui a uns dias. Ainda pelo Médio Oriente, os ataques israelitas ao Líbano prosseguem. O ministro dos Negócios Estrangeiros do Líbano afirmou hoje que o acordo com Israel não é definitivo, é antes uma base para avançar e concluir negociações. O Líbano continua a ser um calcanhar de Aquiles na estabilidade naquela região do mundo.

É, o Líbano é um calcanhar de Aquiles, aliás, desde os anos 80, principalmente quando começamos a ter as primeiras intervenções israelitas no Líbano. E não nos podemos esquecer que este governo não é só composto por Netanyahu, é composto por outras personalidades que são também bastante defensoras e acérrimas defensoras dos estudos talmúdicos, que são defensoras daquilo que é o grande Israel. E esse grande Israel passa primeiro por garantir A defesa nas suas fronteiras norte, portanto, garantir a sobrevivência a sul do rio Litani no Líbano e depois, eventualmente, uma conquista total do Líbano. O Líbano sempre foi um calcanhar de Aquiles, por quê? E é um calcanhar de Aquiles tanto para Israel como para os Estados Unidos, porque o Líbano foi durante muito tempo sede da autoridade palestiniana, portanto a autoridade palestiniana andou durante largos anos, nos anos 70 e 80, à procura de um refúgio, e foi também no Líbano que encontraram esse refúgio e portanto, Arafat teve aqui uma esfera de influência dentro do Líbano que fez com que se criasse este sentimento de ódio também em Israel. E que depois, mesmo quando a autoridade palestiniana sai e é expulsa pela intervenção israelita no Líbano, o Irão cria o seu novo proxy, o Hezbollah, que vem substituir aquilo que era a influência da autoridade palestiniana de Arafat no Líbano, quando depois Arafat se muda para a Jordânia e depois mais tarde para a África magrebinas. Isto faz com que o Líbano, que se foi em tempos caracterizado como a Suíça do Médio Oriente, porque era de facto um país muito desenvolvido, principalmente do ponto de vista administrativo, com uma administração muito próxima daquelas administrações europeias. O Líbano, desde os anos 80, desde essa intervenção israelita, que resultou em massacres, porque Israel tinha uma espécie de aliança com milícias cristãs dentro do Líbano e que massacraram muita da população junto a Beirute. Isso fez com que dentro do Líbano se criasse este sentimento anti-israelita, que também acabou por se fragmentar em diferentes milícias, sendo que a mais importante é claro, o proxy iraniano, o Hezbollah, e que se situaram também na zona de Beirute. E isto é importante percebermos que não é apenas a sul do rio Litani que o Hezbollah atua, o Hezbollah também atua em Beirute e também tem os seus mecanismos, também tem os seus instrumentos de poder dentro do governo. Agora, a grande novidade aqui neste conflito, e os Estados Unidos sempre apoiaram também Israel nestas intervenções, mesmo que dissessem do ponto de vista narrativo, que Israel estava a violar o direito internacional ou que se devia conter nestas investidas ao Líbano, desde os anos 80, no Líbano, na Síria também, na Guerra de Atritos contra o Egito no início dos anos 80. Mas a verdade é que, na prática, sempre continuaram a fluir, sempre continuaram a enviar armamento para Israel para que precisamente continuassem este esforço de guerra. Portanto, agora o governo libanês tem aqui uma posição delicada, porque a verdade é que vai assinando os cessar-fogos com Israel, mas em simultâneo, o grande ator, o principal ator aqui que faz frente a Israel é o Hezbollah. E portanto, enquanto o Irão e o Hezbollah continuarem a perceber que este esforço de guerra continuado contra Israel faz com que os Estados Unidos continuem presos à região, tal como aconteceu nos anos 80, quando a União Soviética expandia a sua esfera de influência para aquela zona e os Estados Unidos, em vez de conterem Israel, sempre alimentaram Israel desse armamento e desse financiamento para conter essa esfera de influência soviética. Os Estados Unidos têm a sua principal linha mestra de política externa, precisamente a defesa de Israel naquela região.

Bernardo, vamos agora-

O Líbano será sempre um calcanhar de Aquiles.

Vamos agora, Bernardo, analisar o conflito na Ucrânia. Volodymyr Zelensky sugeriu hoje que Kiev pode ultrapassar a Rússia na produção de armamento. O presidente ucraniano diz que o país atingiu uma capacidade de produzir armas tão grandes, armas tecnologicamente avançadas, que a longo prazo poderá superar Moscovo. É mesmo assim ou isto é marketing de guerra?

Se formos analisar aquilo que têm sido as duas estratégias de guerra, portanto, a ucraniana e a russa, no último mês ou nos últimos dois meses, tem aqui um fundo de verdade. O que temos visto é que a Rússia agora opta por estes ataques um bocadinho indiscriminados, em blitz, em ataque concertado em grande escala, é verdade, mas uma coisa que acontece de duas em duas semanas e com alvos indiscriminados, portanto muitas vezes contra a população civil. E isto parece um jogo de desespero, tal e qual como a Rússia também já tentou fazer noutros conflitos antes, quando se viu a perder, inclusive na Segunda Guerra Mundial. E por outro lado, a Ucrânia tem desenvolvido aqui uma estratégia ligeiramente diferente, que é uma estratégia de ataques em profundidade e de ataques em profundidade a refinarias, a infraestruturas que atinjam principalmente o aparelho industrial militar, entre elas essas refinarias que acabam por cortar o grande apoio logístico de guerra à Rússia, inclusive na Crimeia. E portanto, estas duas estratégias e o facto de como estas duas estratégias estão a evoluir ao longo da guerra, em que inicialmente tínhamos uma realidade precisamente oposta, ou seja, tínhamos a Rússia a atacar em profundidade e a Ucrânia a recuar constantemente no terreno, e agora com estes ataques em profundidade da Ucrânia, percebemos que a Ucrânia tem o poderio económico e militar para encostar a Rússia mais às cordas e a Rússia tem recuado e para além de ter recuado, viu-se agora também perante uma dificuldade na zona do Sebastopol, na zona da Crimeia, portanto na zona sul, porque a Ucrânia ao atacar todas as pontes à volta da Crimeia, acabaram por isolar a Crimeia e agora a Rússia está um pouco isolada, os soldados russos que se posicionam na Crimeia estão também um pouco isolados. Para além disso, se formos a comparar aquilo que tem sido o avanço diário das tropas russas, é muito residual, muito residual até comparado com outros avanços ao longo da história, não só do Império Russo, mas também da União Soviética. E isto faz adivinhar aqui que existe uma queda, uma decadência do ponto de vista militar e do ponto de vista económico russo, e até foi o próprio Vladimir Putin que admitiu isto mesmo na semana passada. Por outro lado, a Ucrânia se começou de forma muito arcaica, de forma muito rudimentar, o seu esforço de guerra, neste momento tem todo o tipo de tecnologia e um tipo de tecnologia que, mesmo com alguma resistência, é também muita dela financiada pelos Estados Unidos, muita dela providenciada pelos Estados Unidos através do seu conhecimento e, claro, com os aliados da NATO, com os aliados europeus atrás. E, portanto, há aqui uma possibilidade não só de a Ucrânia recuperar muito território, mas também de recuperar ou retomar território que nenhum de nós esperava há dois, três anos, inclusive a Crimeia.

Ficamos então por aqui hoje. Obrigado por ter estado conosco, Bernardo Valente, professor de Relações Internacionais no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Já agora, bom fim de semana. O Gabinete de Guerra está de regresso no domingo, nas manhãs 360 da Rádio Observador.