Do teatro e da relojoaria à universidade, a trajetória do autor de O Filho Eterno ajuda a compreender seu reencontro com aDo teatro e da relojoaria à universidade, a trajetória do autor de O Filho Eterno ajuda a compreender seu reencontro com a
Dos 26 cadernos deixados pelo pai de Cristovão Tezza, quatro se perderam. João Batista Tezza começou a reunir a documentação em 1931, quando servia no Exército, em Florianópolis. Nos cadernos, registrava cartas, telegramas e outros papéis. Cristovão nasceu em 1952 e perdeu o pai em 1959, num acidente de lambreta em Lages. Dois anos depois, a família se mudou para Curitiba.
Tezza consultou os cadernos em diferentes momentos da vida adulta, mas não sabia como transformar aquela documentação em livro. À “Matinal”, em 2026, disse que precisou passar dos 70 anos para enfrentar o pai. “Visita ao Pai” tinha sido publicado no ano anterior, pela Companhia das Letras.
Na Curitiba dos anos 1960, Tezza começou a escrever poemas e a trabalhar com teatro. Atuava, cuidava da iluminação e escrevia para o palco. Em 1968, participou de uma peça de Denise Stoklos. Naquele ano, entrou também no Centro Capela de Artes Populares, de W. Rio Apa, que trabalhava em Curitiba e Antonina. Ficou ligado ao grupo até 1977. Ao recordar a separação no Paiol Literário, em 2007, disse que continuava a respeitar Rio Apa. Mas sua literatura tinha seguido outro caminho.
A leitura de Joseph Conrad lhe deu vontade de ser marinheiro. “Lord Jim” foi um dos livros que o levaram a imaginar uma vida de viagens e escrita. Em 1971, entrou na Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante, no Rio de Janeiro. Precisava levantar às cinco da manhã, correr e fazer exercícios. O curso durava três anos. Tezza ficou seis meses e se desligou em agosto de 1971. Queria viajar, mas, segundo contou à “Gazeta do Povo” em 1992, nem chegou a sair do quartel.
Em Antonina, onde viveu com o grupo de Rio Apa, trabalhou consertando relógios. Fez um curso de relojoaria e deu à oficina o nome de “Relojoaria 5 em Ponto”, em homenagem a um poema de García Lorca. Na mesma entrevista, perguntaram se ainda fazia consertos. Disse que gostava do trabalho, mas, com o crescimento dos filhos, já não tinha tempo nem espaço para os consertos.
Em dezembro de 1974, viajou para Portugal. Ia estudar Letras na Universidade de Coimbra, matriculado por um convênio entre os dois países. Encontrou a universidade fechada em meio à agitação que se seguiu à Revolução dos Cravos. Passou o ano seguinte viajando pela Europa e voltou ao Brasil em fevereiro de 1976. O ingresso num curso de Letras acabaria acontecendo no Acre, depois do casamento com Beth, em 1977.
Foi Beth quem insistiu para que prestasse vestibular. Eles tinham se instalado em Rio Branco, e as inscrições estavam abertas. Tezza fez a prova e começou o curso. Em 1978, transferiu-se para Curitiba. Em 1984, mudou-se para Florianópolis, onde deu aulas de Língua Portuguesa na Universidade Federal de Santa Catarina. Dois anos depois, voltou a Curitiba como professor da Universidade Federal do Paraná.




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