Por Leandro do Erre – Romper a bolha algorítmica significa enfrentar o desconforto de sustentar uma opinião que não se encaixa perfeitamente no senso comum ou na lógica de uma determinada “tribo” digital.

Por Leandro do Erre – de São Paulo

A ilusão da escolha e a reificação digital.

Em termos técnicos, um algoritmo é apenas uma descrição matemática de um processo. No entanto, no capitalismo contemporâneo, eles se transformaram na infraestrutura invisível que filtra a realidade, selecionando a enorme quantidade de informação disponível e tomando decisões por nós. O algoritmo aprisiona e limita o pensamento, uma vez que delimita o nosso acesso a temas fundamentais de nossa vida.

Quando permitimos que uma fórmula matemática decida a próxima notícia que vamos ler, o próximo vídeo que vamos assistir ou a opinião que devemos ter sobre um fato político, nossa capacidade de escolha fica restrita a interesses que não são os nossos. Mais do que isso, estamos vivenciando o que se chama de reificação: o processo pelo qual relações sociais e humanas (como a comunicação, o debate e a formação de opinião) ganham o caráter de “coisas” independentes que passam a governar nossas vidas. O algoritmo, desenhado para maximizar a extração de lucro, reter a atenção e nos manter numa bolha que dita o que vamos pensar e como vamos viver. Ele não tem compromisso com a verdade ou com a profundidade, mas apenas com o engajamento. Ele prioriza o que choca e o que conforta.

Nesse cenário, resistir ao algoritmo não significa abandonar a tecnologia, mas recusar o que é imposto de forma passiva. É fazer escolhas ativas para preservar nossa soberania intelectual. É, nos termos de Paulo Freire, recusar a condição de objeto — de mero receptáculo passivo de depósitos informacionais — e assumir-se como sujeito que lê criticamente o mundo (Freire, 1970). O pensamento crítico tornou-se nossa principal forma de resistência na era do algoritmo.

A leitura crítica do mundo: superação dialética do senso comum.

Mas precisamos entender o que é o pensamento crítico, pois existe uma armadilha perigosa no debate sobre ele: reduzi-lo a um ceticismo genérico. Dizer que pensar criticamente é “questionar tudo” é abrir as portas para o cinismo paralisante e para teorias da conspiração. A dúvida pela dúvida não constrói; a crítica sem perspectiva é inócua e serve à manutenção do poder. ela apenas destrói e te aprisiona numa eterna negação sem rumo.

O pensamento crítico é, antes de tudo, uma postura intelectual que rompe com a absorção passiva dos conteúdos impostos pelo algoritmo, é uma leitura crítica do mundo — e essa leitura precede sempre a leitura da palavra (Freire, 2000). Isso significa que antes de “checar fatos” ou “verificar fontes”, precisamos compreender as condições materiais e históricas que produzem esses fatos.

É aqui que o materialismo histórico se torna uma ferramenta indispensável para a construção de um pensamento crítico, sendo um dos pilares de nossa independência intelectual. Ele nos ensina que as ideias — inclusive a desinformação e as “fake news” — não existem no vazio. Elas são produzidas por condições materiais específicas: o modelo de negócios das grandes plataformas de tecnologia, a concentração da propriedade dos meios de comunicação, a necessidade de extrair lucro através da retenção da nossa atenção. Pensar criticamente exige identificar essas raízes materiais, não apenas combater as ideias no plano abstrato. Parafraseando Max não basta explicar – ou entender – a realidade, é preciso transformá-la. A superação das oposições teóricas não é apenas uma questão de conhecimento, mas também uma exigência da vida concreta e prática.

Freire nos ensina que essa leitura crítica envolve dois movimentos simultâneos: a denúncia do que existe (a realidade injusta, a manipulação, a desinformação, o capitalismo desigual) e o anúncio do que ainda não existe (o mundo possível, a sociedade justa, o “inédito viável”, a superação do capitalismo) (Freire, 2000). Pensar criticamente, portanto, não é apenas desmontar mentiras, denunciar a desigualdade — é construir alternativas concretas para a superação desta realidade. É a passagem da constatação passiva ao projeto de transformação social.

O pensamento crítico não é um dom individual, mas uma construção coletiva e histórica. Ele se manifesta como a transição da curiosidade ingênua — aquela associada ao saber do senso comum — para a curiosidade epistemológica: uma curiosidade que se torna crítica e metodicamente rigorosa em sua aproximação ao objeto (Freire, 1996).

Essa passagem não é uma ruptura absoluta, mas uma superação dialética. A dialética nos ensina que o desenvolvimento do pensamento não se dá descartando o conhecimento anterior como puro erro, mas incorporando-o em formas mais ricas e concretas. A curiosidade do trabalhador que se pergunta por que seu salário não acompanha a inflação é a mesma curiosidade do cientista político que investiga a concentração de renda — o que muda é o rigor metódico. O senso comum “só se supera a partir dele e não com o desprezo arrogante dos elitistas por ele”.

Por que a leitura crítica do mundo é decisiva na era digital? Porque o algoritmo funciona exatamente nos moldes daquilo que Freire chamou de educação bancária (Freire, 1970): deposita conteúdos em sujeitos passivos, sem diálogo, sem problematização. A timeline é o novo “banco” onde se depositam informações fragmentadas, que servem à dominação na medida em que impedem a visão de totalidade.

Mais profundamente, o ecossistema das redes sociais é a forma contemporânea da Indústria Cultural, conceito central desenvolvido pela Escola de Frankfurt. Adorno e Horkheimer mostraram como, sob o capitalismo monopolista, a cultura é destituída de seu potencial de expressão autêntica e passa a funcionar como mercadoria padronizada e massificada, destinada a estabilizar a ordem social. A lógica industrial se traduz hoje nos algoritmos, que reproduzem a mesma dinâmica: oferecem a ilusão de diversidade infinita, mas, na prática, aprisionam os usuários em bolhas de retroalimentação, reforçando o conformismo e neutralizando o pensamento crítico (Adorno e Horkeimer, 1944).

A Escola de Frankfurt nos alerta para o perigo da razão instrumental — a lógica cega da eficiência e do cálculo (a própria essência do algoritmo) que se divorcia dos fins éticos e humanos. Essa racionalidade transforma tudo em objeto de manipulação, reduzindo pessoas a estatísticas e interações a métricas de engajamento, sem qualquer preocupação com emancipação ou justiça. Trata-se do desdobramento da mesma matriz de pensamento que, historicamente, atingiu seu ápice destrutivo ao viabilizar sistemas tecnicamente eficientes, mas moralmente devastadores, como o nazismo ou a produção da bomba atômica (Adorno e Horkeimer, 1944).

Em contraste, a razão crítica questiona os fins e não apenas os meios: indaga a serviço de quem está essa eficiência, quem se beneficia do tempo que passamos rolando uma tela e se tais estruturas promovem autonomia ou apenas reforçam a alienação. Enquanto a razão instrumental naturaliza o conformismo e a passividade, a razão crítica denuncia as contradições e busca abrir espaço para a reflexão e a transformação social.

Freire já antecipava essa preocupação em relação à mídia de massa:

“Não temo parecer ingênuo ao insistir não ser possível pensar sequer em televisão sem ter em mente a questão da consciência crítica. É que pensar em televisão ou na mídia em geral nos põe o problema da comunicação, processo impossível de ser neutro.” (Freire, 1996).

Se substituirmos “televisão” por “algoritmo”, a advertência de Freire se torna ainda mais urgente. O poder dominante leva uma vantagem sobre nós: “para enfrentar o ardil ideológico de que se acha envolvida a sua mensagem na mídia, nossa mente ou nossa curiosidade teria de funcionar epistemologicamente todo o tempo. E isso não é fácil” (Freire, 1996). Não é fácil, mas é necessário.

A leitura crítica do mundo, porém, precisa de ferramentas. A curiosidade epistemológica exige rigor metódico. É aqui que a lógica informal nos instrumentaliza (WALTON, 2012). Pensar criticamente é a capacidade de qualificar se estamos diante de um bom ou de um mau argumento. Na lógica informal, um argumento é um conjunto de premissas (fundamentos) que sustentam uma conclusão.