Os candidatos à presidencia Lula e Flávio se enfrentaram no debate da Band, no último domingo - Foto: Nelson Almeida/AFP O debate entre os postulantes à Presidência da República, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), exibido no último domingo (18), a TV Band, foi marcado por ataques pessoais e acusações, com pouco espaço para o confronto de ideias e propostas. 

Com o segundo turno da eleição marcado já para o próximo domingo (25) e apenas mais um debate previsto, na TV Globo, na próxima sexta-feira (23), a Folha de Pernambuco ouviu especialistas para entender o peso dos debates na decisão do eleitorado, especialmente os que optaram por votar branco, anular o voto e os que se abstiveram de comparecer às urnas. 

A margem pequena de diferença entre a votação de Lula e Flávio no primeiro turno dão a dimensão da importância desses grupos na definição do resultado. Enquanto o senador somou 56.104.288 votos, o equivalente a 47,03%, o presidente recebeu 53.876.617, que representa 45,16% dos votos válidos.

A vantagem de Flávio Bolsonaro foi de pouco mais de 2.227 mil votos, a menor desde a redemocratização do país, em 1985. 

A eleição deste ano ainda registrou mais de 2,3 milhões de votos brancos e 3,7 milhões para presidente. Mas o número que chama mais atenção é o de abstenções.

Aproximadamente 33,4 milhões de eleitores deixaram de exercer o direito do voto, o equivalente a 21,08% do eleitorado apto a votar, de acordo com os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). 

As pesquisas eleitorais continuam apontando para um acirramento da disputa para o Planalto. No levantamento divulgado pelo Instituto Datafolha, na última quinta (15), havia empate técnico entre os candidatos, com Flávio Bolsonaro mantendo a liderança com 47% e Lula marcando 45% de intenções de voto, caracterizando um empate técnico na margem de erro de dois pontos percentuais. 

Nesse contexto, o debate televisivo ganha contornos específicos na reta final da disputa, mas sua capacidade de alterar o resultado depende da forma como os candidatos conseguem dialogar com os eleitores e convencer quem ainda tem dúvidas sobre a escolha, além de estimular a participação de quem não compareceu ao primeiro turno. 

Avaliação Para o cientista político e professor Hely Ferreira, os debates deveriam funcionar como arenas para confronto apenas de ideias e propostas que ditem os rumos do país.

Na avaliação dele, o encontro da Band desperdiçou esse potencial ao concentrar a discussão em ataques pessoais e episódios do passado, sem apresentar perspectivas claras para o futuro.

“Era uma visão de retrovisor, olhando para trás. É necessário pensar o futuro do país. E isso os candidatos deixaram muito a desejar”, avaliou Hely. 

Segundo ele, sem uma discussão mais consistente sobre projetos de curto e médio prazo, o eleitor que busca elementos para decidir pode terminar o debate sem se sentir representado por nenhum dos concorrentes.

No mesmo sentido, o cientista político Alex Ribeiro considera que esses encontros podem influenciar o resultado, especialmente entre quem ainda tem dúvidas ou admite mudar de voto.

Em uma eleição polarizada, no entanto, parte do público acompanha os debates para confirmar uma posição já estabelecida, e não para mudar de lado.

“Com a polarização, parte do público acompanha o confronto para confirmar uma posição que já tem. Ainda assim, em uma eleição equilibrada, conquistar uma pequena parcela dos eleitores pode ser decisivo”, explicou Ribeiro.

Abstenção Ribeiro avaliou também que a possibilidade de mobilizar quem se absteve existe, mas depende de fatores que vão além do desempenho na televisão. O debate pode reforçar a percepção de que a escolha terá consequências concretas, mas dificuldades de transporte, trabalho e saúde também ajudam a explicar a ausência nas urnas.

“Para atrair quem está em dúvida é preciso apresentar respostas objetivas e mostrar capacidade de governar. Quando as acusações dominam a discussão, há o risco de ampliar o desinteresse pela disputa”, afirmou o cientista político.