Antigamente, para as revoluções em França, havia esta explicação: o tédio, e a necessidade de alguma diversão. Mas em Portugal, tal como na França de 20...

São umas centenas. O problema, para eles, nunca foi a habitação: explicam até que construir casas, isso que o bom-senso sugere ser a maneira de obviar à sua escassez e carestia, é uma actividade poluente, e que deve ser evitada. O problema, para eles, era outro: montarem tendas à noite no Rossio ou na praça D. João I. Porquê? Porquê acampar? Porquê de noite? Porque o único objectivo era forçar a lei, provocar a polícia, suscitar confrontos, recorrer aos tribunais, e assim pôr todos os noticiários e todo o regime, do presidente da câmara ao presidente da república, do governo à oposição, a orbitar à volta de duas ou três centenas de profissionais das manifestações da extrema-esquerda.

Conseguiram? Conseguiram. Num par de semanas, sem precisarem de revisão constitucional, fizeram das assembleias populares novos órgãos de soberania. Televisões e jornais cobrem as suas sessões com a solenidade de quem está a fazer reportagem na Assembleia da República. Quem mais lá usa o megafone negoceia agora com presidentes de câmara de igual para igual, e é ouvido por um presidente da república que já não surpreenderia se amanhã nomeasse Renata Cambra para o Conselho de Estado.  Todos os aspirantes a uma qualquer relevância ou celebridade tiram foto ao pé das tendas. Como se as acampadas fossem as redes sociais, onde quem não está, não existe.

Nunca tanto mudou no actual regime por acção de tão poucos. Como foi possível? Bastaram umas noites amenas, a falta de outro assunto nas redacções, ou a velha mania nacional de macaquear Paris? Antigamente, para as revoluções em França, havia esta explicação: o tédio, e a necessidade de alguma diversão (“la France s’ ennuie”, dizia Lamartine). Mas no Portugal de hoje, tal como na França, a melhor explicação é outra: a paralisia política. Viu-se no caso da lei das rendas: o bloqueio no parlamento atirou com o tema literalmente para a rua. A extrema-esquerda avançou porque a elite do regime, sem iniciativa, lhe deu espaço. É assim que as revoluções acontecem. Não são precisos muitos revolucionários: basta que aos regimes instalados falte, por fracasso e divisão dos seus dirigentes, razão e vontade para resistir.

Não, não vou dizer que teremos amanhã a revolução comunista. Para os acampados é que bastou um avanço da polícia para se sentirem a viver na Alemanha nazi. O que temos aqui é o efeito do vazio de poder que foi gerado pela decisão da liderança do PSD de ignorar a maioria parlamentar de mudança que o país elegeu depois de 30 anos de hegemonia socialista. Também não estou a dizer que teria sido fácil organizar e dirigir essa maioria. Mas ao substituir essa possibilidade por uma oscilação desorientada entre o Chega e o PS, Luís Montenegro não condenou apenas o seu partido a ser a terceira opção de voto nas sondagens: condenou o regime a uma sensação de impasse e de imobilismo, de andar à volta dos mesmos problemas, sem que nada se possa fazer, num sentido ou no outro.

O mundo muda e parece urgente que o país se adapte a essa mudança. Quando nada acontece, o resultado não é apenas a transferência de voto entre partidos, com a subida deste e a descida daquele. É a deslocação da iniciativa de acção política para outras instâncias. A rua é uma delas (os tribunais são outra). As poucas centenas de campistas da extrema-esquerda, para quem há muito tempo que só a rua faz sentido, foram os primeiros a fazerem-se convidados. Estão a ter os seus quinze minutos de poder. O grande risco para o regime é se mais actores políticos se começarem a persuadir de que, afinal, é na rua, e não nas instituições, que se pode fazer alguma coisa.