Gênero fundado em Seattle e popularizado nos anos 1990 mistura garage rock, punk e metal, tendo o Nirvana como expoente mais popular

Gênero fundado em Seattle e popularizado nos anos 1990 mistura garage rock, punk e metal, tendo o Nirvana como expoente mais popular

Pedro Hollanda (@phollanda21)

No começo dos anos 1990, o rock passou por talvez sua última grande revolução — e o carro-chefe dessa mudança foi o grunge. Artistas antes considerados impossíveis de comercializar se tornaram sucessos de vendas, alterando assim a percepção geral do que é mainstream.

Uma mistura de garage rock, punk, metal e rock setentista, o grunge é ligado para sempre à sua cidade de origem: Seattle, nos Estados Unidos. As bandas responsáveis por popularizar o estilo se tornaram alguns dos nomes mais importantes da música naquela década, como Nirvana, Pearl Jam, Alice in Chains e Soundgarden.

Quer aprender mais sobre o grunge? A Rolling Stone Brasil preparou um guia para você.

Seattle é a região urbana mais isolada dos Estados Unidos. A maior cidade do estado de Washington fica a 13 horas de carro de San Francisco, a metrópole mais próxima. Então, tudo que chegava lá, tendia a ficar por lá. E o que surgia por lá não ia embora. Jimi Hendrix é a exceção, mas ele se mudou quando ainda era bebê.

A região do noroeste do Pacífico — como é chamada no país — se tornou o berço do que ficou conhecido como garage rock graças a esse fenômeno. Um cantor de R&B chamado Richard Berry passou em Seattle nos anos 1950 como artista de abertura numa série de shows. Suas músicas tocaram no rádio e logo se tornaram febre local.

Uma banda chamada The Kingsmen resolveu gravar um cover de “Louie Louie”, sua canção “mais famosa”. O resultado foi um single que chegou ao top 20 americano inesperadamente e alavancou outras bandas da região, como The Sonics, para o estrelato nacional efêmero.

Entretanto, a característica de abraçar o mais extremo continuou. Várias bandas da cidade tinham como influências The Stooges, MC5 e Black Sabbath. Quando o punk explodiu, o que chegava em Seattle era adorado pelos locais — especialmente o Black Flag, cuja mudança sonora no meio da carreira para algo menos acelerado e mais pesado apelou fortemente à cena de Seattle.

O termo grunge já era usado no rock desde pelo menos os anos 1950 para descrever música particularmente suja. Entretanto, o primeiro uso no contexto conhecido do público ocorreu num texto promocional da gravadora Sub Pop para descrever o EP Dry as a Bone (1988), da banda Green River (via The Guardian):

Essa informação serve para ilustrar algumas coisas. Primeiro, o quão pequena a cena era: Green River era uma banda formada por integrantes do que viriam a ser o Mudhoney e Pearl Jam. Segundo, grunge — assim como vários movimentos na história do rock — era uma jogada de marketing.

A gravadora Sub Pop, liderada por Bruce Pavitt e Jonathan Poneman, compreendeu o apelo da tensão entre a música extrema, mas ainda com apelo pop, sendo feita na cidade e resolveu criar mitos em torno dos artistas. Bandas desse selo eram compostos de nobres selvagens; pessoas às margens da humanidade; trogloditas capazes de criar um bom riff de guitarra.

“Endino tinha um talento, como Bruce Pavitt uma vez afirmou, de ‘fazer guitarras sangrarem’, e conseguia fazer isso num orçamento super modesto – era capaz de gravar um álbum inteiro por US$ 1 mil. Para lançar coisas no ritmo que a Sub Pop necessitava, Endino desenvolveu alguns setups padrão. Isso também significou que os discos tinham sons similares, mas era isso que Pavitt e Poneman queriam – um ‘som de Seattle’, assim como havia um ‘som de Memphis’ e um ‘som de Liverpool’.”

Quase todas as bandas importantes de Seattle passaram pela Sub Pop em algum ponto da carreira ou tiveram um integrante que foi parte de um grupo contratado pelo selo. Entretanto — e infelizmente para a gravadora independente —, nenhum desses artistas tinha contrato com eles quando estourou nas paradas, em parte por causa dessas limitações técnicas e financeiras.

Há de se apontar também o papel de artistas mulheres no desenvolvimento do grunge. O movimento teve influência forte dos alunos da Universidade de Washington, em Seattle, e da Evergreen State College, em Tacoma.

Isso significou um contingente feminino grande entre fãs e bandas. Chegou a ponto de haver muita confusão entre o grunge e o riot grrl, movimento punk surgido nessa região mais ou menos na mesma época.

Entretanto, artistas como L7, Babes in Toyland e, principalmente, Hole são considerados mais alinhados com o resto da cena de Seattle.

Apesar do grunge ser atrelado à cena de Seattle, outros artistas são frequentemente atrelados ao termo por terem uma sonoridade semelhante e estarem ativos no mesmo período. O Stone Temple Pilots, por exemplo, surgiu em Los Angeles e não tinha conexão com o noroeste do Pacífico, mas chegou ao sucesso na esteira do Pearl Jam.

Isso gerou críticas à banda, acusada de ser cópia. Entretanto, logo transcenderam isso. Hoje, são vistos como ícones do rock alternativo e, de certo modo, associados ao grunge.

Além disso, tão famoso quanto o movimento em si são os grupos surgidos após, referidos como post-grunge. Esse rótulo pode ser aplicado à trajetória inicial do Foo Fighters (projeto criado por Dave Grohl depois da morte de Kurt Cobain), ao conjunto inglês Bush, o trio australiano Silverchair e até mesmo a Creed e Nickelback, que levam a fórmula para um caminho mais pop.