Por que imaginamos o tempo como uma linha?

Há uma pergunta aparentemente boba que muda tudo quando é levada a sério: por que imaginamos o tempo como uma linha?

Provavelmente porque é prático. Uma linha organiza antes e depois, nascimento e morte, causa e consequência. Dá para colocar datas nela, fazer gráficos, escrever livros de História e reclamar que 2020 parece ter acontecido há quinze anos. Só que a natureza ao nosso redor insiste em sabotar essa representação: o Sol dá voltas, a Lua dá voltas, as estações são cíclicas, o corpo obedece a ritmos, civilizações ressuscitam idéias que julgavam enterradas e nós mesmos retornamos a problemas que pareciam resolvidos.

Mas o círculo puro também é insuficiente. Se o tempo fosse simplesmente uma roda, estaríamos condenados a repetir eternamente o mesmo caminho. E talvez seja por isso que outra imagem seja mais interessante: a Mandala. Não porque as antigas mandalas tenham sido criadas para representar uma teoria universal do tempo, mas porque sua própria estrutura — um centro, círculos, direções, repetições e caminhos que organizam o espaço — permite pensar o tempo de forma diferente da linha reta.

Mandala quer dizer, em seu uso budista, algo como círculo organizado em torno de um centro. Muitas são construídas como quadrados dentro de concêntricos, direções e divindades dispostas numa arquitetura com regiões sucessivas que conduzem ao centro. Não é simplesmente um desenho decorativo. É uma estrutura para orientação, visualização e transformação da percepção. Elas representam uma ordem cósmica, mas também funcionam como instrumentos de meditação: não são apenas mapas para serem observados, e sim estruturas que a mente do praticante percorre.

No budismo tibetano existe o Kalachakra, literalmente “Roda do Tempo”. E ele é interessante porque o tempo ali não é apenas uma sucessão abstrata de segundos. O sistema fala de ciclos externos, internos e transformadores: o ano e seus meses de um lado, o dia, a respiração e o corpo do outro. Há ainda uma dimensão de transformação espiritual relacionada a esses ciclos. A ideia não é apenas que o universo gira enquanto nós assistimos de fora. O observador também é parte da roda.

Não precisamos aceitar a cosmologia tibetana literalmente para perceber a elegância da estrutura. O mesmo princípio aparece em escalas e culturas diferentes: a roda celeste, a roda da Vida, a roda do Dharma e a roda da Fortuna.

Talvez o tempo possa ser pensado desse jeito: não uma linha que atravessamos, mas uma arquitetura simbólica na qual estamos imersos. Nós fazemos algo parecido com o tempo sem perceber: estamos tentando entender uma estrutura estando presos dentro dela. Um peixe provavelmente não desenvolveria uma teoria muito intuitiva sobre água.

Os hindus levaram essa imaginação cíclica a proporções quase vertiginosas. Os quatro yugas formam grandes eras que se sucedem; esses ciclos entram em outros ciclos cosmológicos ainda maiores, intercalando manifestação e dissolução. A escala é tão gigantesca que uma vida humana praticamente desaparece dentro dela.

É uma bela maneira de ferir nosso narcisismo cronológico. Nós adoramos imaginar que vivemos no momento decisivo da História. As cosmologias indianas olham para alguns milhares de anos e parecem responder: “fofo”.

E elas não estão sozinhas.

Os estoicos também imaginaram o cosmos atravessando ciclos. O universo se desenvolveria, retornaria ao fogo numa grande conflagração e um novo ciclo começaria. Dependendo da fonte antiga, surge inclusive a questão incômoda: o próximo mundo teria exatamente as mesmas pessoas e acontecimentos ou apenas equivalentes?

Isso ecoa uma proposta filosófica e existencial que Friedrich Nietzsche trouxe quase como uma brincadeira, mas era o centro de seus pensamentos: E se você tivesse de viver esta mesma vida, em cada detalhe, de novo e de novo, eternamente?

Este é o Eterno retorno do mesmo (Die ewige Wiederkunft des Gleichen), publicado em A Gaia Ciência: Imagine que, em sua mais profunda solidão, um demônio lhe diga que você terá de viver esta mesma vida novamente, incontáveis vezes, com cada dor, prazer, pensamento e suspiro retornando na mesma sequência e ordem. Até a aranha presente na cena, o luar entre as árvores e aquele próprio instante retornariam. Então Nietzsche pergunta: como você reagiria? Você amaldiçoaria o demônio? Ou diria que jamais ouviu algo tão divino?

Existe, porém, um problema na imagem do círculo. Se voltamos sempre ao mesmo ponto, onde entra a transformação?

Talvez por isso a espiral apareça com tanta frequência quando tentamos representar processos de aprendizado. Ela retorna à mesma direção sem ocupar exatamente o mesmo lugar. Repetimos situações, temas, relações e perguntas, mas não necessariamente somos os mesmos quando voltamos a elas. Uma mandala permite conciliar essas duas intuições. Seus padrões se repetem, mas a repetição ocorre em níveis, direções e relações diferentes com o centro. De perto vemos elementos individuais; de longe percebemos um desenho que antes estava invisível. Essa mudança de escala é talvez uma das ideias mais interessantes aqui. O que parece repetição para quem está dentro do desenho pode formar uma estrutura quando visto de fora. Marie-Louise von Franz, colaboradora de Jung, descreveu o processo psicológico associado à mandala como algo que retorna repetidamente ao mesmo ponto ao mesmo tempo em que cresce como uma espiral ascendente. Há conservação e novidade na mesma figura.

Nossa própria experiência cotidiana funciona assim. Dias se repetem. Dormimos e acordamos. Semanas recomeçam. Estações retornam. Corpos envelhecem seguindo ritmos. Planetas percorrem órbitas. Civilizações repetem conflitos que seus habitantes juravam ser inéditos. Ainda assim, nenhuma primavera é exatamente igual à anterior e nenhuma pessoa retorna ao mesmo aniversário sendo rigorosamente quem era um ano antes.

O tempo vivido parece combinar permanência e diferença.

É bastante curioso observar como as FORMAS Círculo e Quadrado adquiriram uma expressão quase espiritual, metafísica, para civilizações das mais diversas:

Para Platão (e a escola Pitagórica, que o influenciou fortemente), a geometria era o alfabeto usado pelo Demiurgo (o arquiteto cósmico) para criar o universo. O Quadrado (Cubo em 3D) significa estabilidade, a base firme, os limites da matéria física e a lógica racional humana. O Círculo (Esfera em 3D) Platão considerava a forma mais perfeita e bela, porque é uniforme em todas as direções. O movimento circular uniforme representava a Alma do Mundo e o intelecto divino. Na tradição neoplatônica posterior, integrar o quadrado e o círculo era o segredo para unir o intelecto humano mutável (o quadrado) à mente divina imutável (o círculo).

A cosmologia também brinca com a possibilidade de ciclos. Paul Steinhardt e Neil Turok propuseram no começo deste século uma cosmologia na qual o universo atravessaria sucessivas épocas, com expansões e contrações associadas a novos Big Bangs. É física teórica, com problemas matemáticos concretos e hipóteses que precisam competir com outros modelos cosmológicos.