Sam Reid sobe o nível de atuação com seu personagem Lastat - Divulgação Existe algo admirável em uma série que chega à terceira temporada e decide mexer em quase tudo. Depois de dois anos marcados pelo romantismo decadente, pelo peso da memória e por uma atmosfera gótica que parecia cobrir cada cena, “Entrevista com o Vampiro” volta sob o nome de “O Vampiro Lestat” e com a disposição de fazer barulho.
A mudança começa pelo próprio protagonista. Se antes acompanhamos a história principalmente pelos olhos de Louis, agora é Lestat quem toma o microfone, literalmente.
A nova temporada adapta “O Vampiro Lestat”, segundo livro das Crônicas Vampirescas de Anne Rice, e coloca o personagem de Sam Reid no centro de uma narrativa que mistura confissões, lembranças, vampiros, fama e uma carreira de astro do rock. No Brasil, a temporada está disponível na Netflix, que também reúne as temporadas anteriores da produção.
O mesmo, mas diferente
Faz sentido que tudo pareça diferente quando Lestat assume o comando. Afinal, seria estranho esperar discrição de alguém que sempre entrou em cena como se o mundo inteiro estivesse prestes a acabar e ele tivesse escolhido a roupa certa para assistir ao desastre.
O gótico melancólico continua existindo em algum lugar da série, mas agora divide espaço com guitarras, maquiagem, luzes de palco e uma energia assumidamente exagerada. “O Vampiro Lestat” troca o luto silencioso pelo espetáculo. Há algo de glam rock, de camp e, principalmente, algo muito coerente com a personalidade de seu novo narrador.
A temporada não tenta transformar Lestat em um protagonista comportado. Deixa que ele seja vaidoso, cruel, engraçado, insuportável, carente e profundamente triste, às vezes tudo dentro da mesma cena.
Protagonista é a estrela da temporada
É difícil imaginar a temporada funcionando sem o ator no centro dela. Reid já havia transformado Lestat em um dos personagens mais magnéticos das duas primeiras temporadas, mesmo quando a narrativa fazia questão de mantê-lo parcialmente escondido atrás das memórias (e versões) de Louis.
Agora, com espaço para respirar, ele entrega uma atuação ainda maior. Lestat pode surgir como uma estrela convencida de que nasceu para ser adorada e, poucos minutos depois, revelar a solidão de alguém que passou séculos tentando convencer os outros de que não precisa de ninguém.
Essa contradição é o que torna o personagem tão interessante. A série não pede que o público o absolva de tudo o que fez. Lestat continua sendo uma criatura capaz de amar e destruir com a mesma intensidade, e a terceira temporada entende que suavizar suas partes mais desagradáveis seria diminuir justamente o que existe de mais fascinante nele.
A história acompanha essa explosão de ego com uma estrutura igualmente inquieta. O presente da turnê se mistura a passagens do passado, gravações, confissões e acontecimentos que ampliam o universo dos vampiros.
Em determinados momentos, é uma delícia acompanhar essa avalanche. A série tem confiança suficiente para jogar referências, personagens e informações no colo do espectador sem parar a cada cinco minutos para explicar tudo.
Excesso cobra seu preço
A temporada tem pressa demais em alguns momentos, especialmente quando volta ao passado de Lestat. Existem acontecimentos que mereciam mais espaço e acabam atravessando a tela rápido demais, quase como se a série estivesse ansiosa para chegar ao próximo grande momento.
É uma escolha curiosa porque as duas temporadas anteriores sabiam muito bem como prolongar uma conversa, um silêncio ou um olhar quando a história precisava respirar. Nos novos episódios, respirar parece ser um problema para Lestat. E, por consequência, para a série.
Ainda assim, mesmo quando a narrativa ameaça se perder no próprio frenesi, existe uma energia que impede a temporada de desmoronar. A sensação é de estar ouvindo alguém contar a história da própria vida depois de alguns séculos acumulando segredos e ressentimentos.
Inevitavelmente, ele vai exagerar, pular partes, mudar de assunto e talvez esconder algumas coisas importantes. A estrutura irregular acaba conversando com a subjetividade do personagem.
Nova fase da história
Na terceira temporada, Louis continua carregando as consequências da morte de Claudia, agora observado por uma perspectiva diferente da que conhecíamos. Jacob Anderson encontra novos caminhos para trabalhar a culpa do personagem, sem precisar repetir o mesmo sofrimento das temporadas anteriores.




0 Comentário(s)
Deixe seu comentário