Startupi Omni Innovation: cidades não precisam ser mais inteligentes – precisam ser mais integradas o Brasil já tem startups, universidades, deeptechs, capital intelectual e hubs relevantes. O próximo salto não é criar mais iniciativas isoladas, mas integrar…

o Brasil já tem startups, universidades, deeptechs, capital intelectual e hubs relevantes. O próximo salto não é criar mais iniciativas isoladas, mas integrar esses ativos em uma arquitetura territorial de inovação.

Durante muitos anos, a ideia de cidade inteligente foi vendida como uma promessa quase mágica: sensores, dados, aplicativos, câmeras, conectividade, inteligência artificial, plataformas digitais e dashboards capazes de transformar a gestão urbana. A narrativa era sedutora. Bastaria colocar tecnologia sobre os problemas urbanos e, como em um passe de mágica corporativo, a cidade se tornaria mais eficiente, sustentável e inovadora.

Mas a realidade, como sempre, não leu o pitch deck.

Cidades não falham apenas por falta de tecnologia. Falham por falta de integração. Falham quando governo, universidades, empresas, startups, comunidades, investidores, setor cultural e sociedade civil operam como ilhas. Falham quando inovação vira evento, edital, hackathon, laboratório bonito ou relatório de impacto que ninguém usa depois. Falham quando o território é tratado como cenário, e não como sistema vivo.

Eis a mudança de chave: talvez as cidades não precisem ser apenas mais inteligentes. Talvez precisem ser mais integradas.

Essa é a base do que venho desenvolvendo como Omni Innovation: uma abordagem de inovação sistêmica, territorial e integrada, capaz de conectar tecnologia, cultura, economia, sustentabilidade, governança, dados, capital, educação e impacto social em uma mesma arquitetura estratégica.

O conceito de smart city trouxe avanços importantes. Ajudou governos e empresas a olharem para dados, infraestrutura digital, mobilidade, energia, segurança, serviços públicos e eficiência urbana. O problema começa quando a cidade inteligente passa a ser reduzida à compra de tecnologia.

Uma cidade pode ter aplicativos, sensores, câmeras e painéis de monitoramento e, ainda assim, continuar socialmente desigual, economicamente desconectada, ambientalmente vulnerável e institucionalmente fragmentada.

Tecnologia sem governança vira vitrine. Dado sem estratégia vira planilha. Inovação sem território vira palestra. E ecossistema sem integração vira networking gourmet.

O Brasil não precisa apenas de cidades mais tecnológicas. Precisa de territórios capazes de coordenar seus ativos. E esses ativos já existem.

Segundo a AICEP, com base no Global Startup Ecosystem Index 2025, o Brasil aparece como o 27o ecossistema de inovação e empreendedorismo mais desenvolvido do mundo e lidera a América Latina. A mesma análise aponta que cinco dos dez ecossistemas mais robustos da região estão no país: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre [1].

Os dados também mostram capilaridade. Com base no Sebrae Startups Report Brasil 2024, a AICEP estima 18.056 startups ativas no país, distribuídas entre Sudeste (36,1%), Nordeste (23,53%), Sul (21,06%), Norte (10,01%) e Centro-Oeste (9,26%) [1]. Em outras palavras: a inovação brasileira não mora apenas na Faria Lima, em Pinheiros ou nos auditórios refrigerados de São Paulo. Ela também está em Recife, Salvador, Fortaleza, Maceió, Vitória, Belém, Manaus, Goiânia, Florianópolis, Curitiba e em dezenas de cidades médias que constroem suas próprias dinâmicas.

O Sebrae Startups Report Brasil 2025 reforça a evolução do pipeline: houve crescimento de 26,7% no número de startups mapeadas pelo Sebrae em relação ao ano anterior; 39,1% utilizam modelo de receita SaaS; 50,5% atuam no modelo B2B; 36% estão localizadas no Sudeste; e o Sebrae realizou 93.288 atendimentos a startups em 2025 [2].

O problema, portanto, não é ausência de iniciativas. É baixa conversão sistêmica dessas iniciativas em desenvolvimento territorial, produtividade, capital, inovação aplicada e solução de problemas reais.

Volume sem coordenação vira dispersão. Potência sem governança vira ruído. Ecossistema sem arquitetura vira agenda cheia e impacto baixo.

O ciclo de capital também mudou. O relatório Startup Landscape: Ecossistema 2025, da Liga Ventures, aponta que o Brasil recebeu R$ 13 bilhões em investimentos em startups em 2025, queda de 16% em relação a 2024, mesmo com crescimento de 2% no número de deals. Ao mesmo tempo, as operações de fusões e aquisições cresceram 29% em relação a um ano que já havia sido recorde [3].

A leitura é clara: o ecossistema entrou em uma fase mais seletiva, menos encantada por narrativa e mais orientada a fundamentos. Menos “me chama no palco” e mais “me mostra margem, recorrência, governança e escala”.

O mesmo relatório aponta que 39% do capital investido foi direcionado a startups que aplicam inteligência artificial [3]. Mas IA não pode ser tratada apenas como etiqueta de captação. A inteligência artificial está se tornando infraestrutura competitiva. Quem souber conectá-la a cadeias produtivas, serviços públicos, saúde, educação, indústria, agro, energia e cidades terá vantagem. Quem só colocar “AI-powered” no pitch deck vai descobrir que o investidor aprendeu a ler além do slide 3.

O caso das deeptechs é uma das melhores provas de que o Brasil tem ativos de inovação, mas ainda precisa de integração. Segundo a Pesquisa para Inovação/FAPESP, com base no Deep Tech Radar Latam 2025, o Brasil concentra 952 deeptechs, o equivalente a 72,3% das 1.316 startups de base científica e tecnológica mapeadas na América Latina [4].

É uma liderança expressiva. Mas vem acompanhada de um alerta: apenas 7% das deeptechs brasileiras receberam capital privado, 36% contam somente com recursos públicos e 47% não receberam nenhum tipo de investimento [4].