Com os jogos do Brasil na Copa, o consumo de energia cai tanto que o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) passou a fazer um monitoramento permanente e impor o desligamento de usinas, principalmente hidrelétricas para, assim, evitar o que se cham

Com os jogos do Brasil na Copa, o consumo de energia cai tanto que o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) passou a fazer um monitoramento permanente e impor o desligamento de usinas, principalmente hidrelétricas para, assim, evitar o que se chama de apagão reverso.

Foi o que ocorreu na última segunda-feira, durante o jogo do Brasil com o Japão. A partir das 14 horas, o operador detectou risco de alteração de frequência do sistema -algo que faria desligar os "disjuntores" das redes, causando um apagão. Isso ocorre quando há oferta excessiva de energia por fontes intermitentes (como placas solares e eólicas) frente a um consumo muito baixo.

Naquele momento, foi imposto um corte imediato de 20 GW (Gigawatts) a geradoras -o equiparável à energia combinada das usinas de Tucuruí e Belo Monte.

Atual diretor-geral do ONS, Marcio Rea passou a administrar esse problema do sistema elétrico: evitar esse tipo de apagão provocado pelo excesso de oferta de energia produzida por placas solares e usinas eólicas.

O UOL pediu entrevista, mas Rea só aceitou responder perguntas por e-mail.

O ONS mandou cortar 20 GW (Gigawatts) de geradores na última segunda-feira para evitar apagões durante o jogo Brasil-Japão. Isso representou toda a energia gerada por Tucuruí e Belo Monte. Haverá mais cortes para evitar blecautes na hora dos jogos?

A atuação do ONS garantiu a estabilidade do SIN e evitou a perda de controlabilidade do sistema, preservando a segurança e a continuidade do fornecimento de energia à sociedade. O jogo desta segunda-feira teve um desafio adicional para a operação porque foi o primeiro realizado às 14h, um momento quando atividades industriais e de serviços estão em curso, além da alta geração distribuída [principalmente placas e fazendas solares].O ONS preparou uma operação especial durante a Copa para monitorar o impacto dos principais jogos no consumo de energia no país, garantindo uma resposta segura e confiável durante a competição. A operação especial, bem como as medidas operativas a serem adotadas pelas empresas de geração, transmissão e distribuição, será realizada no período compreendido entre duas horas antes e duas horas depois dos jogos considerados estratégicos. [O desligamento de geradores] É uma ação adotada em grandes eventos e está alinhada à Resolução nº 1/2005 do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), que determina a adoção de medidas a fim de reforçar a segurança do suprimento de energia elétrica em datas de grande relevância para o país.

Não há, então, riscos de que as TVs sejam desligadas na hora dos jogos do Brasil?

Não. A operação do SIN [Sistema Interligado Nacional] durante o jogo do Brasil e Japão nesta segunda e em todos os outros jogos até agora, ocorreu sem qualquer intercorrência.

Esses cortes, especialmente nas hidrelétricas, que geram a qualquer hora, decorrem da sobreoferta de energia inserida na rede de distribuidoras por placas solares e parques eólicos. O ONS não "enxerga" essa energia inserida e isso interfere no planejamento. Como resolver esse problema, que prejudica geradores e encarece a conta de luz?

O ONS tem participação ativa no grupo de trabalho do chamado curtailment [cortes de energia a geradores], coordenado pelo Ministério de Minas e Energia, e nos debates regulatórios conduzidos pela Aneel [Agência Nacional de Energia Elétrica].Em paralelo, o ONS vem atuando junto com os principais atores do setor para avançar no controle dos geradores distribuídos [fazendas solares e placas residenciais e comerciais conectadas às redes das distribuidoras], de forma que também seja possível fazer a gestão desse tipo de geração. Para o futuro, entre as iniciativas em desenvolvimento, destacam-se a perspectiva de utilização de sistemas de armazenamento, capazes de absorver energia em momentos de excedente de geração e devolvê-la ao sistema quando necessário, e o fortalecimento da infraestrutura de transmissão.

Quanto esses cortes de energia já encareceram as contas de luz dos brasileiros?

As questões tarifárias são atribuições da Aneel.

Desde quando esses cortes de geração contemplaram também geradores eólicos, que contribuem com esse efeito de sobreoferta?

Os critérios de curtailment foram implementados em 2019. As restrições de geração não se restringem a usinas eólicas e podem ser aplicadas a todas as fontes de geração para preservar a segurança e o equilíbrio do sistema elétrico, podendo ocorrer por dois motivos principais: razões elétricas, quando a rede de transmissão não suporta o escoamento de toda a geração, e razões energéticas, quando há mais energia disponível do que consumo naquele momento.O ONS acompanha os montantes de restrição de forma sistemática e estruturada desde outubro de 2021, mês em que entrou em vigência a resolução da Aneel que estabeleceu as regras para ressarcimento das restrições em eólicas. Até maio, as usinas eólicas foram restritas em 1.145 MWmed [megawatts médios], o que representa 9,7% do potencial de geração da fonte no período.Ao longo dos anos, houve uma evolução dos montantes de restrição, em função principalmente da alta penetração da MMGD [mini e microgeração distribuída por placas solares].

As fontes intermitentes localizam-se principalmente no Nordeste, que carece de infraestrutura de transmissão, conectando o sistema aos grandes centros consumidores do Sul-Sudeste. Quais investimentos estruturais em linhões estão em curso?

A região Nordeste, antes predominantemente importadora de energia, passou a desempenhar papel estratégico como exportadora para as regiões Norte e Sudeste/Centro-Oeste durante grande parte do ano. A ampliação da rede de transmissão é importante para assegurar o adequado desempenho elétrico do SIN e permitir uma operação futura equilibrada sob os aspectos de segurança, confiabilidade e custo.A expansão da infraestrutura de transmissão associada à região Nordeste envolve um conjunto integrado de soluções estruturantes, com destaque para a implantação do Bipolo HVDC de Graça Aranha, os reforços em corrente alternada entre as regiões Nordeste e Sudeste/Centro-Oeste, a ampliação da malha interna de transmissão em 500 kV [kilovolts] do Nordeste e a instalação de oito compensadores síncronos [espécie de amortecedores da rede].Em conjunto, essas obras são fundamentais para viabilizar o escoamento da crescente geração renovável da região e ampliar a capacidade de intercâmbio entre subsistemas.

De que maneira sistemas de armazenamento por baterias serão integrados ao dia a dia para reduzir cortes de geração?

Os sistemas de armazenamento por baterias poderão exercer um papel importante na operação do sistema elétrico brasileiro. Eles permitem absorver energia em momentos de excedente de geração, reduzindo vales de carga, e devolver essa energia ao sistema nos momentos de maior necessidade, contribuindo para o atendimento aos picos de demanda. Além disso, as baterias podem ajudar a suavizar rampas de carga e geração, aumentando a flexibilidade operativa.Para isso, será necessário avançar na definição dos requisitos técnicos, na representação desses recursos nos modelos de operação e nos aprimoramentos regulatórios e comerciais que permitam sua utilização de forma eficiente.

A digitalização das redes ajudará no melhor controle das demandas de potência e carga na rede? Como está hoje esse processo?