Não chamem o Lula de mentiroso. Ele nunca prometeu ser fiscalmente responsável. Quem prometeu foram os outros. Em 6 de outubro de 2022, Armínio Fraga, Pedro Malan, Edmar Bacha e Persio Arida assinaram uma nota sucinta: “Votaremos em Lula no segundo turno; nossa expectativa é de condução responsável da economia.” Expectativa. O candidato não prometeu [...] The post OPINIÃO. A eleição do tudo ou nada. Por que não podemos errar de novo appeared first on Brazil Journal .
Não chamem o Lula de mentiroso. Ele nunca prometeu ser fiscalmente responsável. Quem prometeu foram os outros.
Em 6 de outubro de 2022, Armínio Fraga, Pedro Malan, Edmar Bacha e Persio Arida assinaram uma nota sucinta: “Votaremos em Lula no segundo turno; nossa expectativa é de condução responsável da economia.”
Expectativa. O candidato não prometeu nada. Os eleitores (então) mais ouvidos do mercado é que prometeram por ele. Foi a entrevista telepática mais cara da história: a eleição se decidiu por 1,8 ponto.
Lula venceu, direto ou por tabela, cinco das últimas seis eleições, e governou todos os mandatos do mesmo jeito: gastando cada vez mais. Nunca prometeu outra coisa. Chamou o teto de gastos de estupidez, disse que não acredita em ajuste – e cumpriu.
Um mês atrás, Armínio disse que não se arrepende “nem um pouco.” “Meu voto não foi o voto econômico, eu tinha sérias preocupações com a democracia.” Aceito.
Mas de que tamanho era a ameaça? Não houve tanque na Esplanada nem palácio cercado. Houve reuniões, minutas, um plano que nunca saiu do papel. O pior dia foi 8 de janeiro, e no dia 9 o País acordou com o mesmo Presidente, o mesmo Congresso, o mesmo Supremo.
Para combater isso, aceitou-se fazer o que a Constituição não permite, sempre com a mesma justificativa: “salvar a democracia”. Quem rasga a regra para combater o mal já decidiu que a regra vale menos do que ele.
A conta chegou. O Lula 3 elevou a carga tributária ao maior nível da história, 34,2% do PIB, o mesmo peso de imposto da média da OCDE num país com um quinto da renda por habitante.
Conseguiu ainda outros recordes: a dívida pública – de 71% do PIB em janeiro de 2023 para 82% em junho – a dívida das famílias (82% delas endividadas em julho, sexto mês seguido de alta), e a quebradeira das empresas, o maior número de recuperações judiciais que a Serasa já registrou.
Tudo recorde, tudo ao mesmo tempo. 83,9 milhões de brasileiros negativados. Um adulto em cada dois. O rotativo do cartão cobra na casa de 430% ao ano. A Selic está em 14%, e o Presidente explica toda semana por quê: juro, diz ele, é o único gasto que tem.
A quebradeira tem nomes grandes – Raízen, Braskem – que o eleitor comum não acompanha. Mas ele acompanha Casas Bahia e Marabraz, porque é a loja da sua esquina. Ele viu o funcionário de vinte e cinco anos de casa fechando a última porta e indo embora. E viu, no dia seguinte, o ministro da Fazenda dizer que não há crise, e que o consumidor “vai seguir tendo opções para comprar.” Tem substituto para o produto. Não tem substituto para o emprego.
O que vem depois disso tem nome técnico (dominância fiscal) e nome popular (perda total de confiança). A partir daí, o dia em que o Banco Central sobe o juro, a inflação sobe junto, porque o mercado parou de olhar a Selic e passou a olhar a dívida.
Lula não vai fazer o ajuste. Não fez, não faz, e explica por que não faz.
E não é que ninguém saiba fazer. Entre 2016 e 2022 este País aprovou, em sequência, o Teto de Gastos, a reforma trabalhista, a Lei de Liberdade Econômica, a reforma da Previdência, o cadastro positivo, o Marco do Saneamento, a nova Lei do Gás, o Marco das Ferrovias, a autonomia do Banco Central e a privatização da Eletrobras.
E como fizemos isso? Não foi com virtude moral.
Foi com um Executivo que negociava com o Congresso, à luz do dia, voto a voto.
Hoje, o Presidente do Congresso guarda na gaveta 109 pedidos de impeachment contra ministros do Supremo e não vota nenhum. Pergunte por quê. Não é falta de voto.
É que o Supremo pode abrir inquérito contra qualquer um deles a qualquer hora, sem passar por ninguém; pode cassar mandato; pode suspender, como já suspendeu, as emendas que pagam a reeleição de cada um. E o Congresso, por sua vez, tem na gaveta a única coisa que a Corte não controla, que é o próprio julgamento dela. Cada um com a mão no pescoço do outro.
A teoria dos jogos chama isso de destruição mútua assegurada. Nesse equilíbrio não se aprova reforma nenhuma. Por isso é preciso dizer com todas as letras: o ajuste não é uma coisa que pode ser feita. É uma coisa que já foi feita.




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