Leitor questiona associação frequente de Delcy Rodríguez a termos como 'regime' e 'líder interina', sem menção a 'ditadura'

Jornalista e quadrinista, é ombudsman da Folha. Já foi secretária-assistente de Redação, editora de Diversidade e editora-adjunta de Especiais e Ilustrada

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26.set.2026 às 22h30

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Enquanto o caos pré-eleitoral no Brasil se desenrola sob temor de intervenção estrangeira, leitores questionam o modo como o jornal vem qualificando o que se passa na Venezuela.

Na última semana, a líder da ditadura venezuelana foi a Nova York, onde está preso Nicolás Maduro, ocupante anterior do mesmo cargo. "Em 1º discurso na ONU, Delcy agradece a Trump e fala em renascimento da Venezuela sem citar Maduro", noticiou a Folha. Enquanto Delcy Rodríguez omitia o antecessor em sua fala da quarta (23), o jornal também deixava de identificar pelo nome a ditadura comandada por ela: "Líder interina do regime afirma que haverá eleições e transição democrática no país, mas não dá prazos ou detalhes".

Alguns leitores já haviam notado em outros textos o que parecia uma mudança de tom, já que, em 5 de agosto de 2017, a Folha passou a tratar o regime venezuelano como ditadura. "De acordo com o Manual da Redação, o termo se aplica à 'dominação de uma sociedade por meio de um governo autoritário exercido por uma pessoa ou um grupo, com repressão e supressão ou restrição de liberdades individuais'." Delcy era vice de Maduro, e não havia mudança nas condições indicadas pela Folha como motivo para classificar o regime como ditatorial.

Na terça (22), portanto ainda antes do discurso, chegou a mensagem de Gabriel Pereira, de Campinas (SP), que notava "uma aparente e grave flexibilização dos critérios editoriais da Folha em relação à cobertura política da Venezuela, sugerindo um duplo padrão que depende de quem exerce o poder no país".

"Embora o jornal use o termo ‘ditador deposto’ para se referir a Nicolás Maduro, ele evita aplicar a palavra ‘ditadura’ para qualificar o atual cenário político sob o comando de Delcy Rodríguez", afirma Gabriel.

Até aquele momento, as menções mais recentes a alguma lembrança de que o país ainda mantinha o mesmo regime apareciam relacionadas à cobertura dos terremotos, quando houve referências à "líder interina da ditadura venezuelana", aos dados fornecidos pelo regime ditatorial e às fragilidades que a tragédia teria exposto da mesma ditadura.

Já na notícia do início deste mês sobre Donald Trump e Delcy acharem que a Venezuela "não está pronta" para eleições, "ditador" só aparece para qualificar Maduro, e "ditadura" estava ao sabor de Trump: "Não me parece que eles estejam prontos ainda [para eleições]. Sabe, é algo muito recente. Nós os tiramos de uma ditadura e estamos nos dando muito bem com o governo".

O questionamento do leitor foi levado à crítica interna da última quinta (24): "Por que o jornal abandonou o selo de ‘ditadura’ nas manchetes e passou a adotar termos institucionais como ‘líder interina’? A definição de ditadura adotada pela Folha em 2017 mudou de acordo com o alinhamento geopolítico ou econômico de quem comanda o país?"

Na sexta, já para esta coluna, o questionamento foi novamente submetido ao jornal, que respondeu: "Não houve mudança de orientação nem de prática em relação à Venezuela".

"Desde a publicação da regra, em 2017, até hoje (25 de setembro de 2026), levantamento rápido mostra que publicamos 3.439 textos com as palavras ‘venezuela’ e ‘ditadura’, 3.992 textos com as palavras ‘venezuela’ e ‘ditador’, 3.982 textos com as palavras ‘venezuela’ e ‘regime’ e outros 10 mil textos com a palavra ‘venezuela’ sem estar acompanhada dos outros termos. Omissões dos termos ditadura e ditador ocorrem, portanto, com frequência razoável desde que a regra foi instituída, e seria preciso analisar texto a texto para estabelecer a causa. Mas, no que importa para sua pergunta, o motivo não foi uma revisão da regra, que permanece em vigor", afirmou a Secretaria de Redação da Folha.

Encontrei resultados um pouco diferentes para o período nas categorias "venezuela" e "ditadura" (2.308) e "venezuela" e "ditador" (3.439). De todo modo, o jeito foi reler o máximo que desse e rastrear numericamente a produção.