As mulheres que são eleitas para nos proteger também sofrem violências no exercício de nos proteger

Escritora, roteirista e uma das idealizadoras do movimento Um Grande Dia para as Escritoras

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26.set.2026 às 23h00

As sufragistas devem estar se revirando no túmulo. Quando elas imaginariam que, quase um século depois de terem conquistado o voto para as mulheres, haveria algumas considerando abrir mão desse direito, em nome de um voto por família, obviamente do homem?

Claro que esse movimento é minúsculo, uma aberração conservadora que não pode ser levada a sério, senão como objeto de estudo de um tempo, bastante sombrio.

Ainda assim, nesses quase cem anos de exercício democrático que as sufragistas nos proporcionaram, pouco aproveitamos para fazer um movimento necessário: eleger outras mulheres.

Hoje, no Brasil, mulheres representam só 18% da Câmara. Só 19% do Senado. Não são nem duas para cada dez parlamentares. E por que a presença feminina onde se fazem e aprovam as leis é tão importante?

Primeiro porque a esfera política precisa representar a população —se somos metade lá fora, por que não somos lá dentro? Segundo porque precisamos de diversidade de pontos de vista. E terceiro, embora não último, por que vivemos uma epidemia de violência de gênero, cujo combate vem sendo encampado por mulheres que estão sintonizadas com essa questão.

A Lei Lola, que combate a misoginia na internet, teve como autora a deputada federal Luizianne Lins (PT), apoiada por diversos coletivos feministas. A relatora da Lei Maria da Penha foi Jandira Feghali (PCdoB), embora esse texto não possa ser endereçado a um único autor, já que foi feito a muitas mãos, "mãos de mulheres, já que sabemos onde nos doem os calos", frisou uma de suas autoras, Leila Barsted.

A violência contra as mulheres é tão grande que, às vezes, começa no lugar em que deveria ser combatida: a Câmara ou Assembleia. Basta lembrar do caso de Isa Penna (PCdoB), que foi encoxada pelo deputado estadual Fernando Cury, na frente de outros deputados. Ou do diálogo famoso entre o então deputado Jair Bolsonaro e a deputada Maria do Rosário, quando ele diz que não iria estuprá-la porque ela não merecia.

Ou na serie de ameaças a integridade física que quase conseguiram afastar Manuela D'Ávila da política. As mulheres que são eleitas para nos proteger também sofrem violências no exercício de nos proteger. Somos todas afetadas por construções culturais e sociais que estruturam as relações e se retroalimentam, como apontou a própria Maria do Rosário.

É revoltante ver homens que não têm o menor respeito por nosso corpo legislando sobre ele, votando pautas importantes para as mulheres na calada da noite, usando nossos direitos reprodutivos como moeda de troca em benefício pessoal.

E isso no país em que morre uma mulher a cada dois dias por aborto inseguro. Em que acontece um estupro a cada seis minutos. Quatro feminicídios, em média, por dia.

Desanimar? Jamais. Até porque as sufragistas nos deram a saída, que estamos prestes a usar outra vez. Aperta verde, confia e confirma.