Rua Cardoso de Almeida, conhecida via da região, se chamava Thabor, palco do milagre

As camadas de história encobertas em construções, ruínas e paisagens, por Vicente Vilardaga

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O advogado José Cardoso de Almeida (1867-1931) foi um figurão da República Velha. Homem da elite cafeicultora, administrador respeitado, ocupou vários cargos no governo paulista, como o de chefe de polícia, secretário de Justiça, secretário da Fazenda e diretor da Companhia Paulista de Seguros Marítimos e Terrestres. Exerceu três mandatos como deputado federal e presidiu o Banco do Brasil. Era cunhado do arquiteto Ramos de Azevedo e estimulou a criação da Pinacoteca de São Paulo.

Hoje seu nome batiza uma das principais vias do bairro Perdizes, na zona oeste da cidade. Isto não é por acaso. Nos seus momentos de lazer, ele frequentava a região, onde praticava a caça e possuía uma casa de campo que resiste até hoje, quase secreta, no interior do Conjunto dos Dominicanos.

Naquele tempo, a região era formada por chácaras e estava na zona rural. No final da década de 1930, os frades compraram a propriedade dos descendentes de Almeida e a transformaram num local de estudos teológicos. O imóvel, que tinha vista para o riacho Pacaembu, acaba de ser restaurado pelo escritório Tapera Arquitetura e está impecável.

Antes de homenagear o advogado, a rua levava o nome de Thabor, nome de um monte na Galileia onde Jesus Cristo revelou sua glória divina para três de seus apóstolos, Pedro, Tiago e João. O Dic.ruas, dicionário das ruas de São Paulo, cita informações de José Aranha de Assis Pacheco, autor do livro "Perdizes: História de um Bairro", para explicar o antigo topônimo.

Segundo Pacheco, "os primeiros moradores do bairro, trilhando uma rua em acentuado aclive, seguiram pela crista do morro que, de um e de outro lado, decaía o terreno formando as vertentes dos riachos Pacaembu à esquerda e Água Branca à direita".

E prossegue: "ao atingirem o ponto máximo –o cume da colina (atual cruzamento das ruas Cardoso de Almeida e Caiubi) ocorreu-lhes num momento de religiosidade ou lirismo, a evocação da colina da Galileia onde se deu a transfiguração do Senhor". Nesse momento, o rosto de Jesus brilhou como o sol e suas roupas ficaram resplandecentes. A rua se chamou Thabor até 1907, quando ganhou a denominação atual.

O encanto religioso de Perdizes, porém, se manteve. Ali, há 80 anos, foi fundada a PUC (Pontifícia Universidade Católica), vinculada à Arquidiocese de São Paulo. O Conjunto dos Dominicanos, outra referência cristã, engloba, além da antiga casa de Cardoso de Almeida, o convento Santo Alberto, do final dos anos 1930, hoje uma unidade do colégio Pentágono, e a igreja de São Domingos, projetada na década de 1950 pelo arquiteto modernista Franz Heep. Tanto a PUC como os frades dominicanos ficaram conhecidos pelo espírito progressista e pelo pensamento democrático.

Perdizes, com um passado bucólico, segue sendo um dos bairros mais agradáveis de São Paulo com suas ruas arborizadas e seu microclima mais fresco do que a média da cidade. Seus pontos de maior altitude, como a esquina das ruas Cardoso de Almeida e Caiubi, ultrapassam os 800 metros.

Bairro tipicamente residencial e de casas, Perdizes teve uma primeira onda de verticalização no final dos anos 1970 em torno da rua Homem de Melo. De alguns anos para cá, novos prédios começaram a se multiplicar na paisagem devido à futura instalação de uma estação da linha 6-laranja do metrô, o que libera construções altas num raio de 700 metros.

Quem quiser saber mais sobre a história do bairro pode participar de uma caminhada cultural no próximo dia 19 de setembro promovida pelo coletivo Circuitos Urbanos e pela agência Litera Construindo Diálogos com o apoio da Amora (Associação dos Moradores e Amigos de Perdizes). O passeio guiado dura três horas e sai por R$ 90.

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