Imagina se, em vez de legalizarem o jogo, o Congresso tivesse legalizado drogas. Todas.
Escritor e roteirista, autor de "Por quem as panelas batem"
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27.jun.2026 às 18h00
Imagina se em vez de legalizar o jogo, o Congresso tivesse legalizado drogas. Todas. E elas fossem a principal patrocinadora da Copa do Mundo.
"E começa a partida! Partida que fica mais animada com a Copacoca! A cocaína da torcida brasileira! Tá vendo o QR code aí no canto da tela? É só escanear e correr pro abraço, em meia hora a Copacoca tá aí na sua casa! Cheirou, é gooool! O Brasil toca a bola no campo de defesa. Casimiro. Pra Vini Jr. Vini é craaaaaaaaque! É craaaaaaaaque! Será que ele vai ser o craque da partida? Será? Será? Entra agora no nosso App, diz quem você acha que vai ser o craque da partida e você concorre a três pedras de crack e um cachimbo oficial da Seleção Brasileira! Brasil no ataque. Vini volta com Casimiro. Passa pra Neymar. Neymar aí que conseguiu se recuperar a tempo da Copa, Neymar herói, herói, herói, e herói chama o que? Herói chama heroína! Foi gol? Injetou! Viajou! Lembrando que é só pra maiores de dezoito anos e que pra mais emoção, injete com moderação!".
Não sei se o locutor dormiria melhor por dizer a última frase. Eu não. Que hipocrisia enorme é vender um vício e pedir moderação. Se a loteria é a maconha, as bets são a cocaína. Ninguém tem overdose de maconha, assim como não se vai a falência jogando na Mega-Sena. Bet é droga pesada. Já ouvi mais de uma história de pessoas se arruinando por apostar em lateral, gol, escanteio. É criança pegando o cartão dos pais, marido apostando com o dinheiro da esposa. A prima da minha diarista economizou 15 mil reais ao longo da vida. Fazendo faxina. Cozinhando. Lavando roupa. O marido gastou tudo, sem que ela soubesse.
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Outro fator agravante. A loteria lida com números aleatórios, mas apostar nas bets pega numa fraqueza nacional: todo homem brasileiro acredita ser o Guardiola, o Telê, o Ancelotti. Faz parte da nossa masculinidade frágil uns delírios de grandeza. Acreditamos até que poderíamos estar em campo. Na Copa de 2014 fiz uma crônica sobre aquele ser o último mundial em que poderia jogar. Ao me dar conta que estava com 33 anos e que em 2018 teria 37. Claro que, perna de pau como sempre fui e tendo me dedicado a vida toda não aos gols de letra, mas às letras sem gols, havia zero possibilidade de jogar na seleção. Em algum lugar do inconsciente, contudo, havia esse desejo latente, que parou de latir.
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Tá todo mundo caindo de pau na Cazé TV, com razão, mas ela é só a boca de fumo (de crack, de pó) mais visível. Toda a mídia tá comprada pelas milícias das apostas, hoje os maiores anunciantes, depois do governo. Se você libera um troço desses, com tanta grana, é claro que quem vive de propaganda vai aderir.
Faz umas semanas, a colunista da Folha Deidre Nansen McCloskey escreveu uma coluna falando sobre o erro que é deixar decisões importantes nas mãos do estado. "É melhor deixar para os mercados e outras interações humanas voluntárias a maior parte do que o Estado tenta planejar, organizar, ordenar e moldar." Falava sobre a série "The West Wing", em que um governo de centro esquerda tentava governar. Cara Deidre, olhe pro mundo hoje. Os governos e os cidadãos são reféns do mercado, que convence pessoas pobres a gastar suas parcas economias em cassinos. É melhor deixar bets, Elons Musks, Jeffs Bezos e Marks Zuckerbergs darem as cartas? Acha que está funcionando?
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