No meio do sururu dos Bolsonaro pode se ver um plano novo para a direita extrema no Brasil

Jornalista, foi secretário de Redação da Folha. É mestre em administração pública pela Universidade Harvard (EUA)

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27.jun.2026 às 16h58

Um assunto político da semana foi o vídeo de Michelle Bolsonaro, que armou salseiro novo na extrema direita. Pode ter relevância nesta eleição apertada, pois ameaça tirar votos de Flávio Bolsonaro. Além do mais, Michelle pode vir a ter posição política maior do que já tem por causa de seu status na família irreal dos Bolsonaro e de seu apelo de palco gospel. Tem presença virtual eficaz e militância real.

Que figura nacional viaja pelo país a organizar células de base, de resto com mulheres, com um comitê político de comando majoritariamente feminino? Que lideranças nacionais de esquerda, que quase inexistem, têm tamanha organização digital e agregam militantes no chão de fábrica político? Mesmo quem não gosta do que diz Michelle deveria prestar atenção ao que ela faz, um plano de entrincheirar a direita. A querela de Michelle com os Bolsonaro é "pop", porém, por misturar fofoca, novela, barraco familiar, BBB e pinimba de influenciadores, paixões nacionais.

Outro assunto da semana, Jaques Wagner, teve também apelo sensacional, inclusive por servir à contagem de gols contra que direita e esquerda marcam por se envolver com gangue. O Master, porém, é mais: um fato social total do mundo dominante, para dizê-lo com sarcasmo.

Nesta semana ficou mais evidente o interesse de ministros do Supremo de, no mínimo, conter danos do processo contra Daniel Vorcaro, por interesse pessoal e por alianças no Congresso. Já vimos isso antes, o acordão que acabou por enterrar a Lava Jato ou, mais importante, provas de corrupção sistêmica de parte graúda da elite econômica e que ia muito além do PT.

O lavajatismo foi muitas coisas. Além de fraude processual e parte do movimento para acabar com o PT, era uma das revoltas contra um sistema político podre e impermeável. Perdeu, entre outros motivos, porque a política politiqueira ocupou o espaço deixado pela repressão provisória do lulismo-petismo. Partidos dos mais envolvidos na corrupção deste século, como PL e PP, foram ao centro do poder com Jair Bolsonaro. Aí valeram-se do enfraquecimento do Executivo, se apropriaram de mais recursos (fundos, emendas, favores empresariais), ampliaram bancadas, currais e a prestação de serviços ao poder econômico. Pode acontecer de novo.

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O caso Master é também tentativa de normalizar o que se pode chamar de corrupção contratual ou cordial: contratos para lobby nebulosamente corrupto e favores bandidos chamados de amizade. Vorcaro e políticos, da direita à esquerda, assim justificam seus rolos.

Evidencia também a institucionalização da finança bandida. O Master se valia de um sistema de fintechs, fundos secretos e fraudulentos, de liberalização financeira tosca e de falta de instrumentos de fiscalização disso tudo, pois o Estado é fraco, por captura e falta de recursos no lugar certo. Esse sistema continua vivo, se reorganiza e está no centro de operações de facções, de sonegação e evasão de divisas, de fundos políticos corruptos, tráfico de drogas, armas, combustíveis, ouro e madeira, grilagem, desmatamento etc.

Pela lente de aumento do Master a gente vê a ruína do STF, o poder renovado do centrão direitão, a compra empresarial do Congresso, a infraestrutura financeira do crime, aluguel de poderosos por contrato, corrupção cordial e o padrão de acordões e perseguições políticas vigente desde 2015.

O caso Master e até o de Michelle contam um tanto de como o país funciona.