Patrocínio expõe crianças e adolescentes, com impactos severos na saúde pública e na sexualidade
benefício do assinante
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
benefício do assinante
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.
Salvar para ler depois
Recurso exclusivo para assinantes
assine ou faça login
Edição Impressa Diminuir fonte
Miguel A. Martínez-González Médico, é catedrático de medicina preventiva e saúde pública da Universidade de Navarra (Espanha) e professor-adjunto do Departamento de Nutrição da Escola de Saúde Pública T.H. Chan, da Universidade Harvard (EUA)
Especialista em políticas públicas para a família pela Universidade da Catalunha (Espanha), é diretor-executivo da ONG Family Talks
Um espanhol e um brasileiro assinam este artigo: um deles, com fartos motivos para estar satisfeito com o futebol. O outro, com razões para estar decepcionado: dias antes de testemunhar a eliminação brasileira da Copa do Mundo, viu seu time do coração firmar um contrato multimilionário com uma conhecida plataforma de conteúdo adulto —cujos proprietários detêm, também, um site de acompanhantes.
Tendo imposto restrições ao acordo, o Corinthians não escapou às reações. Assim o caso foi narrado ao autor europeu: é como se, findos os festejos pelo triunfo mundial da seleção espanhola, o Barcelona, dono da segunda maior torcida do país, passasse a ostentar em seus uniformes —e, portanto, nos estádios, na TV, na internet— a logomarca de uma empresa que promove a pornografia e a prostituição.
Se a atividade é lícita e a divulgação é institucional, sem exposição de teor erotizado, não há espaço para a intervenção estatal
Pelo mundo afora, a idade da primeira exposição a conteúdo sexualmente explícito caiu vertiginosamente nas últimas décadas: na Espanha, dados oficiais falam em 11 anos, em média; no Brasil, pesquisas apontam que ocorre por volta dos 12 anos, com frequentes relatos de casos ainda mais precoces. Trata-se de mais um fenômeno atribuído à internet: o que antes estava sob a guarda dos donos de bancas de jornais ou restrito a horários tardios de televisão, hoje está à distância de um clique. Que as empresas que lucram com esse tipo de conteúdo, porém, passem a ocupar, sem qualquer pudor, os uniformes que dão vida à paixão de milhões de brasileiros é um problema ainda mais grave.
Já não bastasse o desconhecimento geral acerca dos males do acesso precoce à pornografia —prejuízos que ultrapassam a esfera individual e têm impactos severos na saúde e na segurança públicas. Uma meta-análise de estudos conduzidos em sete países concluiu que o consumo pornográfico está associado a uma maior probabilidade de perpetração de agressões sexuais, verbais ou físicas (especialmente contra mulheres); outras pesquisas o vinculam a acasos de ansiedade, depressão, baixa autoestima, disfunções sexuais e comportamentos de risco.
Na Espanha, o Ministério Público relacionou o consumo de "conteúdo adulto" ao salto dos delitos sexuais cometidos por menores e considera que, para 30% dos jovens espanhóis, a indústria da pornografia online é hoje a única fonte de "educação" afetivo-sexual disponível.
Se o acesso precoce a conteúdos explícitos é inimigo do bem comum, extrapolando quaisquer disposições morais, por que o combate parece tão difícil? Revestido de boas intenções, um inimigo discreto pode corroer os poucos esforços movidos contra um mercado bilionário: muitas famílias creem ser as únicas responsáveis por manter crianças e adolescentes longe desse mal.
Voltar Compartilhe Ícone Facebook Facebook Ícone Whatsapp Whatsapp Ícone X X Ícone de messenger Messenger Ícone Linkedin Linkedin Ícone de envelope E-mail Ícone de linkCadeado representando um link Copiar link Ícone fechar
É verdade que, tal qual a epidemiologia demonstra que as vacinas são um dos ativos mais eficazes na prevenção de doenças graves em larga escala, famílias preparadas para dar bons exemplos e intervir quando necessário são uma barreira inestimável contra a pornografia e seus males. Mas, mesmo para os pais mais ciosos, é impossível passar incólume pela cultura: na prática, as melhores regras podem sucumbir ao telefone celular do colega de escola ao lado.


0 Comentário(s)
Deixe seu comentário