Intervenções urbanas, capazes de reduzir riscos e proteger populações vulneráveis, seguem subfinanciadas

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26.jul.2026 às 22h00

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A possibilidade de um novo Super El Niño no segundo semestre de 2026 coloca mais uma vez o país em alerta. Há risco de secas severas no Norte e Nordeste e de chuvas excessivas e inundações no Sul. Esses eventos extremos vão encontrar centros urbanos pouco preparados e vão os levar a discutir as importantes lacunas na adaptação e na gestão de riscos e desastres nos municípios brasileiros. Mas será que a questão da moradia vai fazer parte da discussão?

Os impactos das mudanças climáticas recaem de forma desproporcional sobre quem já enfrenta insegurança habitacional, especialmente em assentamentos informais e áreas urbanas mais vulneráveis —e o Brasil ilustra bem esse quadro. Mais de 16 milhões de pessoas vivem em favelas e comunidades no país, muitas vezes em áreas de alta exposição a riscos climáticos. As populações mais afetadas pelos impactos climáticos são também aquelas que, a cada nova ocorrência, ficam ainda mais expostas, reforçando um ciclo de vulnerabilização que tem origem na falta de acesso a direitos básicos.

Para a iniciativa Re.Habita, grupo que reúne WRI Brasil, ONU-Habitat Brasil, TETO Brasil, Habitat para a Humanidade Brasil e Fundação Tide Setubal, o acesso à moradia digna como direito humano é um pressuposto para a resiliência e a justiça climática.

A moradia digna é aqui compreendida como o acesso à terra urbanizada, segura e servida de infraestrutura, com condições para o exercício da cidadania.

Em maio último, essa discussão foi tema do 13º Fórum Urbano Mundial (WUF13), organizado pela ONU-Habitat em Baku, no Azerbaijão. O documento final do evento reafirmou que o acesso à moradia deve ser um pilar das estratégias climáticas nacionais e convocou governos, bancos e setor privado a transformarem o financiamento habitacional, contribuindo para ampliar a disponibilidade de recursos para diferentes abordagens. Em contraste, nos fóruns climáticos globais, a habitação ainda aparece de forma limitada. Cabe perguntar o porquê, já que essa é uma questão central para a redução de desastres nas cidades.

À medida que a intensificação da crise climática pressiona por investimentos em adaptação, torna-se mais evidente a necessidade de coordenar as agendas de clima e moradia. Isso significa reconhecer que urbanização de favelas, acesso a infraestruturas, melhorias habitacionais e regularização fundiária também são abordagens de adaptação. Essas abordagens exigem recursos compatíveis com a dimensão do problema e coordenação profunda entre políticas públicas e fontes de financiamento.

A maior parte do financiamento climático continua direcionada a setores tradicionalmente associados à agenda ambiental, como a transição energética e a indústria verde, enquanto intervenções habitacionais e urbanas, capazes de reduzir riscos, proteger populações vulneráveis e fortalecer a resiliência dos territórios, permanecem subfinanciadas.

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Entre 2024 e 2026, os recursos para adaptação no Fundo Clima passaram de cerca de R$ 13,5 bilhões para R$ 27,5 bilhões. Ainda assim, apenas R$ 3 bilhões foram destinados ao desenvolvimento urbano sustentável, dos quais R$ 2 bilhões para infraestrutura. Não há informações sobre quanto foi destinado especificamente à moradia.

Cada real investido hoje em moradia adequada, urbanização integrada e infraestrutura resiliente reduz

perdas humanas, sociais e econômicas no futuro. Diante da crise climática, a escolha que se coloca não é se destinaremos recursos à moradia —é se eles serão empregados na reconstrução após os desastres ou na prevenção de seus impactos.

Fabiana Tock Coordenadora de Cidades da Fundação Tide Setubal Camila Jordan Diretora de Relações Institucionais e Incidência da TETO Brasil Rayne Ferretti Moraes Chefe do escritório do Brasil da ONU-Habitat Brasil) Henrique Evers Gerente de Desenvolvimento Urbano da WRI Brasil) Raquel Ludermir Gerente de Incidência Política da Habitat para a Humanidade Brasil) TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.