Medidas repressivas podem coibir algumas formas de atividade das gangues sem, no entanto, desmantelar suas estruturas econômicas
Os grupos criminosos mais poderosos da América Latina expandiram suas operações para além do tráfico de drogas - e, com isso, tornaram-se mais resilientes. Foi isso que meus colegas e eu descobrimos ao pesquisar para um novo estudo sobre a transformação estrutural do crime organizado na América Latina e no Caribe.
Atualmente, as redes criminosas obtêm receita tanto de fontes ilícitas quanto legais. Muitas delas controlam bairros inteiros e influenciam a política local. Outras investem em negócios legítimos e exploram os sistemas globais de transporte e financeiros, utilizando empresas de fachada e plataformas de pagamento digital para ocultar a origem ilícita de seu dinheiro.
Seus negócios se estendem a setores aparentemente legítimos, que vão da mineração ao setor de combustíveis. Essa diversificação protege os grupos criminosos contra "choques de fiscalização", como operações de repressão ao tráfico de drogas. Isso também pode ajudá-los a comprar proteção de autoridades corruptas e permitir que as organizações se enraízem mais profundamente nas economias locais e nacionais. A disputa gira cada vez mais em torno de quem define as regras e quem pode aplicá-las.
O Brasil é um dos lugares onde essas tendências estão em evidência.
Em 28 de agosto de 2025, mais de 1.400 agentes de segurança pública brasileiros se espalharam por oito estados do país naquilo que as autoridades chamaram de a maior operação contra o crime organizado na história do país. Seus alvos incluíam mais de mil postos de gasolina, quatro usinas de etanol, uma frota de caminhões, um terminal portuário, fundos de investimento e escritórios na Avenida Faria Lima, o coração do distrito financeiro de São Paulo.
A investigação, batizada como Operação Carbono Oculto, revelou um suposto esquema de lavagem de dinheiro ligado à organização criminosa mais poderosa do Brasil, o Primeiro Comando da Capital (PCC). Os investigadores alegam que a rede criminosa utilizava postos de gasolina e outras empresas do setor de combustíveis para lavar rendimentos ilícitos, canalizando-os por meio de empresas de intermediação de pagamentos e veículos de investimento que ocultavam suas origens e a propriedade final.
O esquema teria movimentado bilhões de dólares por meio do setor de combustíveis automotivos e de uma rede de empresas de pagamentos e fundos de investimento, com algumas fintechs supostamente atuando como bancos não licenciados. As autoridades apreenderam inicialmente cerca de R$ 1,2 bilhão, ou aproximadamente US$ 220 milhões, em ativos.
A Operação Carbono Oculto ilustra uma mudança mais ampla no crime organizado nas Américas. Várias das maiores organizações da região agora combinam o tráfico de drogas com mineração ilegal de ouro, roubo de combustível, tráfico de pessoas e a manipulação de sistemas de pagamento digital. Outras também passaram a atuar nos setores de logística, finanças, imobiliário e serviços municipais.
Muitos também assumem funções normalmente associadas ao governo, desde a fiscalização das normas locais até a prestação de serviços básicos. Uma pesquisa de 2025 realizada em 18 países revelou que 13% dos entrevistados — o equivalente a quase 80 milhões de pessoas — afirmaram que grupos criminosos locais proporcionavam ordem ou reduziam a criminalidade em suas comunidades.
A diversificação criminosa não ocorreu de uma vez só. Grupos latino-americanos formaram alianças internacionais de tráfico nas décadas de 1980 e 1990, mas a mudança para redes multimercado ficou mais pronunciada em meados da década de 2010. À medida que o tráfico de drogas se tornava mais arriscado, os grupos criminosos passaram a atuar no contrabando de migrantes e na mineração ilegal.
O crime cibernético abriu novas fontes de receita, enquanto as criptomoedas facilitaram a ocultação dos lucros. A pandemia de COVID-19 acelerou a tendência ao enfraquecer as instituições estatais e expandir as economias informais.
A diversificação aumenta os lucros e distribui o risco, reduzindo a dependência de qualquer commodity ou corredor específico.
A cocaína continua sendo altamente lucrativa, por isso poucas organizações a abandonam. Em vez disso, elas acrescentam novas atividades ilegais aos territórios e sistemas logísticos que já controlam. A mesma infraestrutura e os mesmos intermediários podem sustentar vários mercados criminosos ao mesmo tempo.
As estruturas organizacionais também mudaram. Hierarquias rígidas deram lugar a redes mais flexíveis de transportadores e especialistas financeiros que operam por meio de empresas de fachada. Dinheiro e pessoal podem circular entre as atividades à medida que a pressão das autoridades e as condições de mercado mudam. Negócios imobiliários e comerciais ocultam os rendimentos, enquanto ativos digitais facilitam as transferências. Essa riqueza pode então ser convertida em influência política.
Essa adaptabilidade complica a repressão. A polícia e as agências reguladoras são geralmente organizadas por tipo de crime e jurisdição nacional, enquanto as redes que tentam desmantelar operam em diversos mercados e além das fronteiras. A pressão sobre o tráfico de drogas pode levar um grupo a se voltar para o ouro ou a extorsão sem destruir suas finanças. Operações policiais podem remover temporariamente os líderes, mas deixam as relações corruptas e a estrutura financeira intactas, permitindo que a organização se regenere.
Como argumentamos no novo estudo, líderes políticos em grande parte da América Latina e do Caribe ainda são julgados principalmente pela visibilidade com que enfrentam o crime. As pessoas que convivem com extorsões e vitimizações diárias querem alívio rapidamente. Soldados nas esquinas e prisioneiros exibidos diante das câmeras oferecem prova imediata de que um governo está agindo.
Investigações financeiras e reformas judiciais, por outro lado, produzem resultados mais lentos e oferecem menos recompensas políticas imediatas.
Esses incentivos políticos ajudam a explicar o apelo duradouro das políticas de "mano dura", ou segurança com punho de ferro. O estado de exceção de El Salvador tornou-se referência regional depois que a taxa oficial de homicídios caiu de cerca de 105 por 100.000 habitantes em 2015 para 1,3 em 2025. Até junho de 2026, mais de 92.000 pessoas estavam presas em El Salvador. Mas a repressão também suspendeu as garantias constitucionais, levando a detenções em massa sem o devido processo legal e a centenas de mortes sob custódia.
Desde que El Salvador impôs seu estado de exceção em 2022, os governos da Argentina, Belize, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana




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