Tempo livre surge como resposta política ao racismo e ao capitalismo

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7.set.2026 às 4h00 Atualizado: 8.set.2026 às 10h53

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A assistente social Nadjane Cristina dos Santos, 33, quase desistiu do trabalho com direitos humanos no ano passado. Ela estava no auge da ansiedade e do cansaço quando se deparou com um edital que propunha pagar férias de mulheres negras.

Nadjane faz parte do coletivo Incomode, organização que atua em territórios do subúrbio de Salvador. No último ano, passou a atender psicossocialmente mulheres vítimas de violência doméstica.

A rotina reacendeu memórias de uma violência que ela mesma sofreu. "Eu estava tentando mudar o mundo, mas esquecendo que também precisava mudar minha casa, meu corpo, meu psicológico", diz a mãe de adolescentes de 16, 14 e 11 anos.

Ao relatar o que passava, Nadjane foi uma das selecionadas na primeira edição do edital Descansa, Nêga, do Agbara —fundo filantrópico de mulheres negras do Brasil.

Ganhou uma viagem de férias com tudo pago e podia levar uma mulher negra como acompanhante. Ela escolheu uma vítima de violência doméstica que atendia e sonhava em conhecer o Rio de Janeiro. Nadjane também queria voltar à cidade que visitara uma vez a trabalho.

No primeiro dia da viagem, Nadjane e sua acompanhante passaram o dia no quarto de hotel, conversando na cama.

"Talvez uma das formas mais radicais de pensar prosperidade para uma mulher negra seja fazer com que ela passe um tempo sem produzir nada", diz Aline Odara, fundadora e diretora-executiva do Fundo Agbara.

Talvez uma das formas mais radicais de pensar prosperidade para uma mulher negra seja fazer com que ela passe um tempo sem produzir nada

O fundo atua principalmente com transferência de recursos para negócios, carreiras e organizações lideradas por mulheres negras, além de produzir dados.

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O Descansa, Nêga, diz Odara, surgiu quando a organização começou a perguntar quem tem o direito de descansar no Brasil. "A gente começou a olhar para outra riqueza distribuída de forma desigual: o tempo."

Um estudo da OIT (Organização Internacional do Trabalho) publicado em novembro de 2025 aponta que as mulheres negras enfrentam maior sobrecarga do cuidado relacionado às atividades básicas e instrumentais da vida cotidiana, como cuidar de pessoas idosas ou com deficiência, realizar limpeza, preparar refeições e criar filhos.

Segundo o levantamento, mulheres negras dedicam em média 22,4 horas por semana com cuidado, diante de 20,7 horas gastas por mulheres brancas e cerca de 12 horas por homens negros e brancos.