Produtores de uva do Vale do São Francisco já reduzem vendas aos EUA diante da sobretaxa de 25%, enquanto o governo prepara medidas de apoio.

O tarifaço do governo Donald Trump deve atingir 36,5% das exportações do agronegócio brasileiro aos Estados Unidos e já levou produtores de uva do Vale do São Francisco a reduzir a dependência do mercado americano. A sobretaxa de 25% passa a valer na terça-feira (22) para produtos brasileiros que ficaram fora da lista de exceções anunciada por Washington.

Rodrigo Pamponet, produtor de uvas no Vale do São Francisco, disse que colocou os EUA em segundo plano e passou a concentrar as vendas em destinos como Europa e Argentina.

“A gente costumava exportar bastante para os EUA. Em 2024, a fazenda embarcou cerca de 50 paletes. No ano passado, esse volume caiu para apenas seis, apenas para completar um pedido. Neste ano, a expectativa é de que minhas exportações para lá praticamente zerem, a menos que os importadores americanos aceitem absorver parte do custo adicional das tarifas”, afirmou ao g1.

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) calcula que a medida coloca sob pressão US$ 4,6 bilhões em exportações do agronegócio brasileiro. A entidade estima que 63,5% das vendas do setor aos EUA ficaram preservadas pela ampliação da lista de exceções, enquanto 36,5% enfrentarão a tarifa adicional de 25%.

O setor também acompanha uma investigação comercial que pode acrescentar mais 12,5% de cobrança sobre produtos brasileiros. Se essa medida avançar, a sobretaxa total poderá chegar a 37,5% para os itens afetados. Entre as cadeias atingidas aparecem uva, ovos, madeira, arroz e açúcar.

A uva é a cadeia mais relevante entre as frutas que ficaram fora da lista de isenções dos EUA, conforme análise do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea). A fazenda de Pamponet já envia cerca de 70% da produção exportada para a União Europeia e 28% para a Argentina, mercado que ganhou espaço pela proximidade geográfica e pelo menor custo de transporte.

Os dados de comércio exterior mostram a mudança de rota. O volume de uvas brasileiras enviado à Argentina passou de 3,6 mil toneladas em 2024 para mais de 8 mil toneladas em 2025. As compras dos EUA caíram de 13,8 mil toneladas em 2024, com faturamento de US$ 41,5 milhões, para 4,1 mil toneladas em 2025, equivalentes a US$ 12,8 milhões.

O Vale do São Francisco concentra cerca de 75% da produção nacional de uvas e responde por aproximadamente 95% das exportações brasileiras da fruta. O pesquisador João Ricardo Lima, da Embrapa Semiárido, afirmou que a perda do mercado americano pesa porque os compradores dos EUA pagam mais por frutas de maior qualidade. “O mercado americano é importante em termos de preço. Essas uvas pagam muito bem nos Estados Unidos, mais do que na Europa. Então, quando se perde esse mercado, o efeito para o produtor é maior”, disse.

O presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Petrolina, Jailson Lira, afirmou que a abertura de novos mercados reduziu parte do impacto, mas não eliminou a tensão entre os produtores. A entidade calcula que a cadeia da uva gera cerca de 70 mil empregos diretos e indiretos no Vale do São Francisco, com mulheres ocupando aproximadamente metade da mão de obra, e espera uma solução negociada antes de setembro, quando começa a principal janela de embarque de frutas da região para os EUA.

Outros segmentos do agronegócio também avaliam os efeitos da sobretaxa. A Associação Brasileira da Indústria do Arroz informou que participou de audiências públicas em Washington para argumentar que o arroz brasileiro complementa o abastecimento americano, já que a produção local não atenderia toda a demanda. A entidade avalia que a tarifa pode elevar o custo do alimento para consumidores dos EUA caso o encargo chegue aos preços finais.

Na proteína animal, a Associação Brasileira de Proteína Animal afirmou que a tarifa sobre ovos e carne suína preocupa, mas terá impactos distintos. O Brasil já havia reduzido as exportações de ovos aos EUA após a normalização da crise sanitária provocada pela gripe aviária, e apenas cerca de 1% da produção nacional costuma ser exportada. Na carne suína, os EUA não estão entre os dez principais destinos do produto brasileiro, após os embarques caírem para uma média anual próxima de 3 mil toneladas por causa de barreiras comerciais.

O governo federal anunciou a retomada de medidas para empresas afetadas pelas novas barreiras, ainda sem detalhar o funcionamento. A iniciativa prevê crédito para capital de giro, financiamento de investimentos e apoio ao redirecionamento de produtos. A ApexBrasil prepara para agosto um plano de contingência de R$ 130 milhões, com ações para ampliar vendas na Ásia Central, no Oriente Médio e em mercados ligados ao acordo entre Mercosul e União Europeia.