Professor da FGV detalha os bastidores e os embates nos dois dias de audiência sobre o tarifaço

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As audiências do USTR sobre as tarifas impostas ao Brasil revelaram um debate predominantemente técnico, com muitos defendendo o fim das sanções por seus impactos nos EUA. Contudo, tensões surgiram com produtores de carne bovina e o discurso político de Flávio Bolsonaro, indicando que a decisão final será mais política que técnica.

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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

Os dois dias de audiência promovidos pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) tiveram caráter predominantemente técnico, com parte dos representantes americanos defendendo o fim das tarifas impostas ao Brasil, afirmou Gustavo Pessoa, professor de Economia e Finanças da FGV-SP, em entrevista a VEJA Negócios nesta quarta-feira, 8.

Na avaliação do especialista que estava presente nos dois dias de evento, houve dois momentos de maior tensão: na segunda-feira, quando produtores rurais americanos defenderam a manutenção das tarifas, e na terça-feira, quando o discurso de tom político do senador Flávio Bolsonaro causou desconforto entre os representantes americanos.

Na segunda-feira, produtores rurais dos Estados Unidos afirmaram que a produção de carne bovina brasileira estaria associada à corrupção, ao trabalho forçado e ao desmatamento.

Pessoa, que acompanhou os dois dias de debates em Washington, disse que apenas representantes da pecuária americana defenderam abertamente o endurecimento das sanções contra o Brasil, utilizando argumentos ambientais e trabalhistas para justificar novas restrições comerciais.

“Eles fizeram uma argumentação muito incisiva e pesada, dizendo que a importação de carne brasileira pelos Estados Unidos era, na prática, uma importação de desmatamento, trabalho forçado e corrupção”, afirmou Pessoa.

Segundo o professor, os representantes do setor alegaram que cerca de 70% do mercado americano de carne bovina in natura importada é abastecido pelo Brasil. Ele também chamou atenção para a forma como os dados ambientais foram utilizados durante a apresentação.

De acordo com Pessoa, os produtores destacaram um forte aumento do desmatamento no Brasil, mas utilizaram um recorte estatístico encerrado em 2022. “Esse era o último ano do mandato do ex-presidente Jair Bolsonaro”, afirmou. “Enquanto praticamente todos os demais participantes apresentavam dados de 2025 e 2026, eles recorreram a números de 2022, o que acabou chamando a atenção”, disse.

Apesar do discurso contundente dos pecuaristas, o professor afirma que o restante da audiência manteve um perfil técnico, com predominância de representantes de empresas e associações, tanto brasileiras quanto americanas, interessados em demonstrar os impactos econômicos das tarifas para os próprios Estados Unidos.

Na avaliação de Pessoa, o pronunciamento do senador Flávio Bolsonaro destoou das demais apresentações ao priorizar temas políticos em vez de argumentos técnicos.

Segundo o professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), enquanto os demais painéis trataram dos efeitos econômicos e comerciais das tarifas, o senador abordou assuntos como as eleições presidenciais, casos de corrupção e os conflitos envolvendo a família Bolsonaro e o Supremo Tribunal Federal (STF).

Para Pessoa, essa mudança de foco provocou desconforto entre integrantes do USTR, já que a audiência tinha caráter essencialmente técnico.

“A sensação era de que eles estavam ouvindo o Flávio Bolsonaro apenas por ele ser um aliado de Donald Trump. Foi o famoso caso de: ‘Estou ouvindo você porque meu amigo ou meu chefe pediu e, infelizmente, preciso respeitar'”, afirmou.

O único tema de natureza mais técnica abordado pelo senador foi o Pix. Ainda assim, segundo Pessoa, a discussão sobre o sistema de pagamentos também foi permeada por questões políticas. Segundo o professor, a participação de Flávio Bolsonaro gerou movimentação entre os jornalistas presentes. “Eles queriam gravar as falas, tirar fotos, entre outras coisas”, afirmou.

Fora os momentos de tensão, as audiências tiveram perfil propositivo, inclusive com representantes americanos defendendo o fim das tarifas.

Na segunda-feira, um dos setores mais atuantes foi o de produtores e importadores de mel orgânico. Empresas americanas argumentaram que o produto brasileiro não possui substitutos próximos no mercado local e que a produção doméstica seria incapaz de atender à demanda, mesmo com incentivos.

“O interesse deles era sempre entender como os produtores americanos seriam afetados. Em praticamente todas as apresentações, os próprios participantes americanos mostravam que não haveria substituição automática da oferta e que o custo acabaria sendo repassado ao consumidor local”, afirmou.

O café solúvel também apareceu entre os produtos com maior probabilidade de obter exceções às tarifas, devido à sua importância para a cadeia de abastecimento dos Estados Unidos.

Na avaliação de Pessoa, os argumentos apresentados por esses setores foram consistentes e evidenciaram que, em alguns casos, a manutenção das tarifas contraria os próprios interesses econômicos americanos.