Uma pergunta sobre liberdade de imprensa feita a Narendra Modi expõe a cultura indiana de intimidação de jornalistas
Uma pergunta sobre liberdade de imprensa feita a Narendra Modi expõe a cultura indiana de intimidação de jornalistas
Fredrik Varfjell/NTB via AP)
21.jun.2026 (domingo) - 6h00 Siga o Poder360 no Google
Quando a jornalista norueguesa Helle Lyng gritou uma pergunta para o primeiro-ministro Narendra Modi (BJP, direita) enquanto ele se retirava, sem falar com os repórteres, de uma coletiva de imprensa aberta a jornalistas conjunta com a primeira-ministra da Noruega em maio, ela não esperava uma resposta, sabendo que o líder indiano não havia concedido nenhuma entrevista aberta durante seus 12 anos de mandato.
Embora Lyng não tenha obtido resposta de Modi em Oslo, tornou-se alvo de uma turba online liderada pelas legiões de trolls de direita da Índia. O que ela não esperava era que uma publicação que fez nas redes sociais sobre o incidente alcançasse milhões de visualizações e desencadeasse uma intensa reação negativa na Índia.
Junto com o vídeo, Lyng escreveu: “A Noruega ocupa o 1º lugar no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa, a Índia está em 157º lugar, competindo com a Palestina, os Emirados Árabes Unidos e Cuba. É nosso dever questionar as potências com as quais cooperamos.”
Lyng publicou o vídeo no X e, em poucos minutos, ele se espalhou pela Índia, acumulando milhões de visualizações e milhares de comentários. Enquanto alguns comentaristas elogiaram as perguntas de Lyng, outros a atacaram com uma enxurrada de ofensas, incluindo ameaças de morte e divulgação de informações pessoais.
“Tem sido surreal”, disse Lyng, acrescentando que postou o vídeo no X porque queria que ele alcançasse o público indiano, mas nunca esperou que provocasse uma reação negativa. “Não achei que chegaria ao público dessa forma, porque a liberdade de imprensa nunca foi um tema muito discutido pelo público. É mais uma questão da imprensa. Então, sim, estou chocada”, disse ela.
Sua conta foi restaurada depois que a organização Repórteres Sem Fronteiras, em um comunicado de 22 de maio, denunciou a “campanha de assédio cibernético cruel” contra a jornalista norueguesa. Lyng disse que a situação se acalmou desde então e que espera que tudo volte ao normal em breve, “se é que as coisas podem voltar ao normal algum dia”.
A intensidade da reação negativa pode ter sido chocante para Lyng, mas para muitos jornalistas indianos, a situação pareceu profundamente familiar.
Não foi apenas a natureza da pergunta de Lyng que chamou a atenção, mas a naturalidade com que um repórter europeu a fez. O incidente revelou algo muito maior do que o assédio a um repórter estrangeiro. Expôs o ecossistema que se desenvolveu em torno da figura mais poderosa da Índia –um ecossistema no qual fazer perguntas rotineiras ao primeiro-ministro da maior democracia do mundo se tornou um ato excepcional.
Desde que assumiu o cargo em 2014, Modi não realizou nenhuma coletiva de imprensa totalmente aberta a jornalistas e sem roteiro. Embora ocasionalmente conceda entrevistas a veículos cuidadosamente selecionados e compareça a eventos midiáticos meticulosamente planejados, as oportunidades para perguntas espontâneas da imprensa são praticamente inexistentes na Índia.
O ecossistema tradicional de notícias televisivas da Índia, muitas vezes ruidoso e conflituoso, é agora amplamente visto como esmagadoramente pró-governo, com debates em horário nobre frequentemente ancorados nas ideologias políticas do partido governante. Para jornalistas independentes que continuam a reportar de forma crítica, o episódio da Noruega lançou luz sobre o quão acostumada a mídia indiana se tornou a um primeiro-ministro que não se disponibiliza à imprensa para perguntas rotineiras. Em vez disso, a estratégia de mídia do governo Modi parece focada em evitar o escrutínio espontâneo, desviar perguntas sobre os direitos da imprensa e deixar repórteres críticos ao sistema vulneráveis e expostos a abusos online.
Lyng disse que percebeu o impacto que isso teve sobre os jornalistas indianos quando apareceu em canais de televisão indianos após a controvérsia. O que a surpreendeu, segundo ela, não foram tanto as críticas que recebeu de apoiadores do governo indiano, mas as reações de alguns jornalistas, que expressaram raiva dela em vez de solidariedade a uma colega repórter.
“Eu sabia que a situação com a imprensa era ruim e que havia muito controle dentro da mídia”, disse Lyng, mas a ficha só caiu mesmo depois de algumas entrevistas com os principais canais de notícias da TV indiana. “Era super agressivo”, disse ela. “Isso realmente me surpreendeu, que… um repórter ou apresentador de TV pudesse sentar e me interrogar por 20 minutos, mas não interrogar o próprio primeiro-ministro.”
Durante as entrevistas concedidas à mídia indiana, Lyng afirmou ter sido pressionada a explicar por que não questionou o presidente Donald Trump (Partido Republicano, direito) sobre suas opiniões a respeito dos protestos do movimento Black Lives Matter durante seu período como correspondente nos Estados Unidos no ano passado.
“Tentei explicar a eles que Trump recebe perguntas [da imprensa] todos os dias. Sobre o movimento Black Lives Matter, ele já foi muito questionado, … então eu não preciso perguntar a Trump.” Ela acrescentou que já havia pressionado Trump sobre outros assuntos, como durante a visita do primeiro-ministro da Noruega à Casa Branca em 2025: “Perguntei a Trump sobre a Groenlândia, sobre nossas diferenças comerciais e como ele via o comércio”, disse ela.
Modi seguiu uma estratégia semelhante em viagens anteriores. Em 2023, durante uma viagem a Washington, a repórter do Wall Street Journal, Sabrina Siddiqui, tentou questionar o primeiro-ministro sobre os direitos das minorias e a liberdade de expressão na Índia durante uma coletiva de imprensa conjunta com o presidente Joe Biden (Partido Democrata). Siddiqui foi alvo de assédio online por parte de apoiadores nacionalistas hindus, que se intensificou a tal ponto que até mesmo o governo Biden se viu obrigado a condená-lo.
Na Índia, o governo continua a controlar rigorosamente a imprensa, restringindo o acesso a eventos de imprensa e selecionando quais veículos de comunicação podem participar.
Em 2020, enquanto fazia reportagens sobre o governo Modi, obtive documentos internos que mostravam ministros de alto escalão discutindo estratégias para “controlar a narrativa” e monitorar o que descreviam como “jornalistas negativos”. A revelação desencadeou um debate nacional sobre a liberdade de imprensa, expondo a obsessão do governo em controlar a mídia e as narrativas sobre a administração.
Nesse ambiente extremamente restrito, perguntas críticas de jornalistas são raríssimas. Em vez disso, a grande mídia frequentemente amplifica a linha do partido governista. Mas as tentativas do governo de manipular a imprensa muitas vezes fracassam em âmbito internacional –como demonstrou a recente viagem de Modi à Europa– em países onde os jornalistas estão mais acostumados a responsabilizar os poderosos. A pergunta de Lyng repercutiu entre muitos jornalistas na Índia, não por ser particularmente confrontadora, mas por ser tão comum.


