Era o que faltava para colocar ainda mais fogo na região mais tensa do planeta

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Os Houthis, antes um grupo marginal no Iêmen, transformaram-se em uma força ardilosa e bem equipada, capaz de redefinir o tabuleiro geopolítico do Oriente Médio. Dominando o estratégico Estreito de Bab el-Mandeb, eles ameaçam rotas comerciais vitais e desafiam a Arábia Saudita. Uma leitura essencial para entender a nova dinâmica regional e seus desdobramentos.

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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

Na hierarquia de poder de fogo e influência do “eixo da resistência” montado pelo Irã, composto de grupos armados encastelados em pontos do Oriente Médio, os hutis, baseados no Iêmen, estavam lá embaixo — mal-ajambrados, de chinelo de dedo no pé, aboletados em caminhonetes brandindo fuzis no ar. O tempo passou, Hezbollah e Hamas — as cabeças do tal eixo — se desintegraram, os Estados Unidos entraram em guerra com o regime dos aiatolás e, de repente, o bando de renegados iemenita se apresenta como um exército ardiloso, bem treinado e equipado, capaz de se impor no tortuoso tabuleiro geopolítico da região. Dominando boa parte da fatia de seu país que margeia o Golfo de Aden, os hutis, em uma ofensiva-relâmpago, em poucos dias avançaram para a pontinha que ainda não controlavam, tomaram a cidade portuária de Mocha e chegaram a ilhas estratégicas no coração do Estreito de Bab el-­Mandeb — uma das duas apertadas saídas navegáveis da Península Arábica, sendo a outra o hoje notório (e semifechado) Estreito de Ormuz.

A posição é vital não só pelo estreito que conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Aden como, na outra ponta, por desembocar no Canal de Suez — uma das principais artérias comerciais entre a Ásia e a Europa. Ameaça que tira o sono de quem navega naquelas águas, a conquista dá aos hutis (e, por tabela, a seus patrocinadores iranianos) a chance de bloquear a via, tal qual os aiatolás fizeram no Golfo Pérsico com o Estreito de Ormuz. Além de ampliar seus domínios no Iêmen, o grupo voltou suas baterias para a vizinha Arábia Saudita, que apoia o fraco e desacreditado governo reconhecido do país e com quem vive às turras. Houve ataques a bases aéreas e cidades sauditas — um deles teria chegado perto da sagrada Meca, o que os hutis, muçulmanos xiitas, negam. Riad, por seu lado, afirma que promoveu 450 bombardeios desde o início do mês contra o território iemenita.

Após tomarem o controle de Bab el-­Mandeb, os rebeldes afirmaram que a navegação da via, por onde passa 8% do petróleo do mundo, segue aberta e segura — menos para petroleiros sauditas. Essa medida corta exatamente a saída alternativa para o fechamento de Ormuz que vinha sendo usada por Riad, agravando seu inferno astral: drones disparados de aliados do Irã no Iraque atingiram o oleoduto que levava o petróleo até lá, forçando sua paralisação. O governante de fato da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, pediu a intervenção dos Estados Unidos no conflito, sem sucesso. “Os hutis nos ligaram e disseram que não querem briga”, disse um muito prático Donald Trump. Os dois lados acertaram uma trégua não oficial em maio e o presidente americano, assoberbado pela impopular guerra no Irã, não quer mais problemas. “Para Trump, é um dilema difícil: ele mantém uma relação próxima com Bin Salman, mas Washington tem muitos motivos, incluindo a eleição em novembro, para evitar um novo confronto militar custoso no Oriente Médio”, diz Farea Al-Muslimi, do think tank Chatham House.

Os hutis tentam há décadas ocupar o poder no Iêmen, tendo atravessado uma sangrenta guerra civil em que tomaram a capital, Sanaa, e humilharam a Arábia Saudita, obtendo um cessar-­fogo. Em apoio ao Irã, já atacaram navios no Mar Vermelho, dificultando a navegação. Agora, mais organizados e sofisticados (segundo a Anthropic, usuários ligados ao grupo tentaram usar modelos de IA para desenvolver mísseis avançados), exigem dos sauditas a deposição do governo que restou e indenização pelos prejuízos do conflito. Era o que faltava para colocar ainda mais fogo na região mais explosiva do planeta.

Publicado em VEJA de 18 de setembro de 2026, edição nº 3013