Cantora vai cantar Ave Maria e abrir o rodeio nesta quinta-feira (27/8), antes de fazer seu show na sexta (28/8), com sucessos da carreira e novos trabalhos do álbum '30 & Poucos Anos'.
Role, Da BBC News Brasil em LondresPublished 26 agosto 2026Atualizado 27 agosto 2026Tempo de leitura: 12 minSerá em cima de um cavalo, cantando Ave Maria, que Paula Fernandes retorna à Festa do Peão de Barretos, o maior rodeio da América Latina, na noite desta quinta-feira (27/8), depois de dez anos afastada do evento. A apresentação dará início às provas de montaria, que antecedem os shows musicais.
A cantora retorna na sexta-feira (28/8) para uma apresentação só sua, no palco Amanhecer, um dos principais do evento. O show — que reúne seus primeiros sucessos, como Pássaro de Fogo, e músicas de seu novo álbum, 30 & Poucos Anos — marcará também a comemoração de seus 42 anos e será uma oportunidade de revisitar sua carreira.
Em entrevista à BBC News Brasil por videoconferência, ela relembrou sua trajetória, desde a infância pobre no interior de Minas Gerais até o início da carreira, cantando em botecos, e a chegada ao estrelato em 2011, quando foi a artista mais tocada do ano nas rádios e vendeu 1,6 milhão de discos pelo país.
Paula diz que a principal diferença que sente hoje é que a indústria já está acostumada à presença de mulheres no sertanejo — um cenário muito diferente daquele que encontrou no início da carreira, quando chegou a fazer 220 shows no ano.
"Não consigo descrever o olhar de espanto de quando eu chegava. 'Por que ela pediu um banheiro no camarim? Por que pediu um espelho?'. Era tudo moldado para homens, que chegam de botina, trocam de roupa em qualquer lugar, colocam uma camisa xadrez, fazem xixi em qualquer lugar", conta. "A gente pede um palco sem buracos, porque uso salto, e isso são necessidades femininas, não luxo."
Paula diz que, embora possa "parecer repetitiva", não se cansa de falar sobre isso porque, ainda hoje, após a criação do movimento feminejo e o sucesso de nomes como Marília Mendonça, as mulheres ainda são minoria no sertanejo.
Prova disso é o line-up da sexta-feira em Barretos, quando ela cantará. Entre os 22 artistas que subirão aos palcos, apenas três são mulheres, ou seja, 13,6%. A proporção é ainda menor quando considerada a programação completa do evento: as mulheres representam 11,6% das atrações dos seis dias.
A artista celebra, no entanto, que os nomes da nova geração, como Ana Castela, não tenham de enfrentar o que ela enfrentou, como as fofocas de que teve sua carreira impulsionada por supostos affairs com homens da indústria musical.
Acompanhe apuração em tempo real
Fim da Promoção da eleição 2026
"Me deram cinco namorados em uma semana. Aí a frase era: 'boazinha, mas passa o rodo, né?'. E eu solteira, super quietinha", relembra.
Na conversa com a BBC, a artista ainda falou sobre o sucesso — e as críticas — de suas versões em português de sucessos estrangeiros, como Shallow, de Lady Gaga; os novos rumos do sertanejo, que agora incorpora até batidas de funk; por que prefere se resguardar quando o assunto é política; e seus novos trabalhos.
Além do disco 30 & Poucos Anos, que tem o single Era Eu, ela fará uma série de shows por casas de espetáculos, cujas datas serão anunciadas em breve.
Leia a entrevista a seguir.
BBC News Brasil — Você vai voltar à arena da Festa do Peão cantando Ave Maria montada a cavalo, algo que fazia no início de sua carreira. De onde veio essa tradição?
Paula Fernandes — Eu ganhei a vida com Ave Maria. Colocou comida na minha mesa desde que me entendo por gente. Sempre cantei em abertura de rodeio, e Ave Maria é um momento importante. É quando os peões fazem uma oração de proteção, porque [a montaria] é um esporte arriscado.
Às vezes eu entrava a pé, às vezes faziam um coração de fogo ao meu redor. Isso é uma memória afetiva tão boa, porque colocava comida na minha mesa e prazeroso, poder orar pelos peões.
BBC News Brasil — Você está comemorando 30 anos de estrada e, quando estourou, nem se falava em feminejo. Você se considera precursora do movimento?
Paula — Eu fui uma das, mas antes existiram — e existem ainda — Sula Miranda, Roberta Miranda, as irmãs Galvão, as Marcianas. Naquela época era mais difícil do que quando eu aconteci, mas sinto orgulho de estar contribuindo na pavimentação de uma estrada difícil contra o preconceito contra as mulheres na música, ainda mais em um meio dominado por duplas masculinas.
A gente tem que levantar essa bandeira. Posso parecer repetitiva, mas a gente ainda precisa de mais espaço nas grades de shows dos grandes eventos, para ter um equilíbrio com os meninos. Não queremos o espaço de ninguém, mas também merecemos o nosso.




0 Comentário(s)
Deixe seu comentário