Ana Paula Paiva/Valor Somos um país de não leitores? O mercado editorial brasileiro está diante de uma aparente contradição. Dados demográficos e pesquisas de comportamento apontam para um encolhimento na base de leitores. Ao mesmo tempo, o faturamento do set…

Somos um país de não leitores? O mercado editorial brasileiro está diante de uma aparente contradição. Dados demográficos e pesquisas de comportamento apontam para um encolhimento na base de leitores. Ao mesmo tempo, o faturamento do setor apresenta crescimento real, impulsionado por um público consumidor já convertido, pela multiplicação de feiras literárias e pelo aumento da penetração de novos formatos, como os livros digitais e os audiolivros.

A pesquisa “Retratos da Leitura”, o principal termômetro do comportamento leitor no país, revelou um cenário alarmante em 2024. Apenas 47% dos brasileiros foram classificados como leitores (definidos como aqueles que leram pelo menos um livro, inteiro ou em partes, nos três meses anteriores à pesquisa), enquanto 53% declararam-se não leitores. A pesquisa é coordenada e realizada pelo Instituto Pró-Livro, mantido pelas três principais entidades do mercado editorial brasileiro: Câmara Brasileira do Livro (CBL), Associação Brasileira de Editores de Livros (Abrelivros) e Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel).

Enquanto a base geral de leitores encolheu, a venda de livros expandiu. O mercado editorial brasileiro encerrou 2025 em recuperação, registrando um crescimento real de 3,3% (já descontada a inflação) nas vendas ao mercado e um aumento de 6,5% no volume de exemplares comercializados. O faturamento total das editoras atingiu a marca de R$ 4,5 bilhões.

No varejo, o resultado total foi de R$ 3,1 bilhões, um crescimento nominal de 8,7% em relação a 2024. Foram vendidos 60,3 milhões de exemplares, um aumento de 7,8% em volume. Os dados são do painel conduzido pela Nielsen BookData e divulgado pelo Snel. Neste ano, até 12 de julho, o setor movimentou cerca de R$ 1,9 bilhão e 35,6 milhões de exemplares, um crescimento de 12,7% em faturamento e de 10,2% em volume de exemplares vendidos na comparação com período equivalente de 2025.

O sucesso de público de eventos literários como a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) ou a Bienal do Livro, cuja edição paulistana começa nesta sexta, parece ser um alento. “Ficamos muito emocionados ao ver que as pessoas estão reagindo e se envolvendo mais com a literatura em feiras como essa”, diz Godofredo de Oliveira Neto, professor emérito de literatura da UFRJ e membro da Academia Brasileira de Letras, sobre a recente Flip, que em julho reuniu um público estimado de 40 mil pessoas, o maior de sua história.

“Mas é preciso muito empenho para que a literatura volte a ser priorizada, as antologias literárias, retomadas, e os professores, valorizados”, acrescenta ele. “Estamos em luta por um Brasil mais instruído. A ABL está muito preocupada com essa perda de leitores, mas não temos o poder do Ministério da Educação, nem do da Cultura.”

Não é possível, contudo, reverter a redução do público leitor no curto prazo, acredita Galeno Amorim, CEO da Fundação Observatório do Livro, ex-presidente da Biblioteca Nacional e do Cerlalc-Unesco e uma das maiores autoridades do setor. Para ele, a oscilação nos índices de leitura do Brasil ao longo das últimas décadas está diretamente ligada à continuidade ou interrupção de políticas públicas.

“Nos anos 2000, houve um incremento associado a fortes políticas de distribuição, inclusive na Educação de Jovens e Adultos”, diz. “Quando o governo fecha a torneira, os índices despencam. No governo anterior, bibliotecas públicas foram abandonadas por inanição - prefeituras cortaram energia, água, limpeza e funcionários. Fechar uma biblioteca leva um dia. Reconstruí-la e reconquistar o público levam anos.”

Além disso, ressalta, a dependência excessiva do ambiente escolar cria um hiato na vida adulta. “Há um entendimento geral de que ler livros é uma coisa atrelada à escola. A pessoa pensa: ‘Parei de estudar, não preciso mais ler’. O livro perde sua utilidade prática no dia a dia.”

A situação se agrava ainda mais quando se avalia que dentro daqueles 47% que se dizem leitores, ainda uma boa parcela é “de estudantes que têm leitura obrigatória. Aí você percebe que o quadro é pior ainda, porque aqueles que leem espontaneamente representam muito menos do que essa metade”, afirma Dante José Alexandre Cid, presidente do Snel.

A primeira “Retratos da Leitura”, de 2008, foi formatada por Galeno quando estava na coordenação do livro e da leitura no Ministério da Cultura. Ele também lançou em 2006 o Plano Nacional do Livro e da Leitura (PNLL), para ampliar o acesso aos livros no país.

Mas hoje defende um aprofundamento da pesquisa. “Foi bom para chegar até aqui, para o mercado e os governos se programarem, mas a gente tem que repensar e ver maneiras de avançar. Porque há outras formas não convencionais de vivenciar a leitura que não estão contempladas.”

Os estudos e os rankings de hábitos de leitura, reforça, estão ligados à venda dos livros. “A pessoa que não vai a livraria ou a que não compra não é enxergada. A pesquisa não alcança, por exemplo, os slams nas periferias, nem os clubes de leitura em que um empresta para outro.”

Por sinal, o clube de leitura é a estratégia mais potente para reter leitores, avalia ele, depois de 40 anos de atuação no setor. Por meio de sua fundação, já criou mais de mil deles em periferias, presídios, igrejas e residências para idosos. Por isso, acredita, o Brasil não é um país de não leitores, mas de leitores improváveis ainda não acessados.

Para a Câmara Brasileira do Livro, os 40 milhões de consumidores de livros representam um grande mercado, mas ainda pequeno na proporção da população brasileira. “Estamos vendendo mais para os leitores já convertidos”, diz Hubert Alquéres, vice-presidente da CBL. No Snel, a avaliação é similar. “Na pandemia houve uma retomada do hábito de leitura, e assim aqueles que já liam passaram a ler um pouco mais, por isso as vendas têm aumentado”, diz Cid.

O mercado tem buscado ampliar seu alcance diante de um cenário bem mais complexo. Neste ano, pela primeira vez, o Prêmio Jabuti, criado pela Câmara Brasileira do Livro em 1958, vai reconhecer os criadores de conteúdo digital voltados para a literatura. O lançamento da categoria “Incentivo à Leitura - Cultura Digital” é resultado do reconhecimento da CBL da atuação nas redes sociais desses influenciadores como mediadores de leitura.

O fenômeno das comunidades como o BookTok no TikTok, BookGram no Instagram e Booktube, no YouTube, vem transformando o mercado nos últimos anos. O Reglab (Centro de Estratégia & Regulação) investigou, em especial na plataforma TikTok, como um “ato solitário de ler se tornou uma prática coletiva e de pertencimento” e destacou que “o sucesso comercial de um título agora é impulsionado por comunidades de nicho e criadores que priorizam a autenticidade e a conexão real”.

A cada edição, jovens influenciadores arrastam multidões para as Bienais do Livro de São Paulo e do Rio de Janeiro - eventos que atraem mais de 700 mil visitantes cada uma. “A iniciativa de lançar essa nova categoria foi um sucesso. Registramos mais de 2.600 inscrições feitas por meio de indicações do público sobre os criadores que mais gostam”, diz Alquéres. O processo de indicação revelou nomes de todas as partes do Brasil, inclusive microinfluenciadores de 300 seguidores, “mas que possuem um público militante e engajado”.

Por isso, o critério de premiação no Jabuti não será apenas a audiência (quantidade de seguidores), mas sim a "qualidade do conteúdo e o engajamento”, diz ele. No passado, diz, o prêmio era visto como algo muito elitista e não era um fator determinante para alavancar vendas ou criar best-sellers.

“Nos últimos anos, o Jabuti tornou-se mais popular, acessível e valorizado pelo público. Como reflexo, as editoras passaram a colar selos e adesivos nas capas dos livros premiados e realizam campanhas intensas nas redes sociais para celebrar quando suas obras alcançam as listas de semifinalistas e finalistas”, diz. “O livro está ficando pop. Ele passou a ser um instrumento de encontro, debate e socialização.”