Tanques japoneses fazem manobras na região do Monte Fuji: país aumentou orçamento militar para 3,5% do PIB Tomohiro Ohsumi/Getty Images Meias-palavras não foram convidadas neste ano para o Diálogo de Shangri-lá, conferência anual de defesa da região Ásia-Pací…
Meias-palavras não foram convidadas neste ano para o Diálogo de Shangri-lá, conferência anual de defesa da região Ásia-Pacífico, que se desenrolou no fim de maio em Singapura. Talvez a melhor ilustração do clima belicoso que tomou conta do mundo tenha sido proferida pela vice-primeira-ministra e ministra da Defesa dos Países Baixos, Dilan Yesilgoz-Zegerius. “Ou você está no cardápio ou sentado à mesa. Se não aumentar seus gastos em defesa, você vai estar no cardápio”, disse a ministra.
Sua audiência era formada por lideranças políticas e militares de todo o mundo, reunidas pelo Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS), organização de pesquisa e consultoria em defesa sediada em Londres. Entre os peixes graúdos estavam o secretário da Guerra dos Estados Unidos, Pete Hegseth, e Shinjiro Koizumi, ministro da Defesa do Japão. Pela China, compareceram um ex-ministro de Relações Internacionais, Cui Tiankai, e o major-general Meng Xiangqing, da Universidade das Forças Armadas do país. A ausência de nomes do primeiro escalão atual, pelo segundo ano consecutivo, foi interpretada como uma manifestação de desprestígio do país que mais rapidamente se arma no mundo de hoje.
Hegseth, enquanto isso, aproveitou a ocasião para resumir com palavras duras a posição americana. O recado aos aliados contém não só o incentivo ao investimento bélico do resto do mundo, mas também o cerne das ameaças econômicas e comerciais que têm sido a marca distintiva do governo de Donald Trump. “Aliados nossos que se recusarem a colaborar e carregar seu próprio peso na nossa defesa coletiva serão confrontados com uma mudança clara no nosso jeito de fazer negócios”, declarou o secretário.
Talvez respondendo às admoestações americanas ou por algum outro motivo, promessas de canalizar dinheiro para as armas têm se acumulado ao redor do planeta. O maior exemplo vem da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que se comprometeu com o “novo padrão”, ou seja, o aumento do piso de despesas militares em seus países-membros de 2% para 5% até 2035.
Na Europa, especificamente, destaca-se o chanceler alemão Friedrich Merz, que assumiu o cargo no ano passado com a promessa de excluir as despesas militares e de infraestrutura (sobretudo militar) do rigoroso cálculo de equilíbrio fiscal alemão, conhecido como “zero negro” (schwarze Null); foram retirados, também, os limites a empréstimos com finalidade de defesa.
O Japão, por sua vez, tem sido acusado pelos vizinhos chineses de abandonar sua tradição pacifista do pós-guerra, devido à expansão do orçamento militar, que já atingiu 2% do PIB e pode chegar a 3,5%, em linha com a Otan. O país asiático também comprou novos mísseis de longo alcance, retirou a limitação a exportações de armas letais e anunciou um foco estratégico no investimento na indústria de defesa.
Na contramão do que costuma se passar no mundo da alta política, desta vez os atos vêm precedendo as palavras: somados, os gastos militares crescem no mundo há 11 anos consecutivos, segundo dados do Instituto de Pesquisa Internacional sobre a Paz de Estocolmo (Sipri). Em 2025 foram US$ 2,89 trilhões, contra US$ 2,72 trilhões em 2024. O aumento de 2,9% é, contudo, inferior ao do ano interior, de 9,2%. Ainda assim, esse valor representa um acréscimo de mais de US$ 1 trilhão em relação a 2014. No último decênio, a expansão foi de 41%. Hoje, o mundo dedica 2,5% de seu PIB ao setor de defesa.
Em boa medida, esse crescimento acompanha o desempenho do PIB mundial, mas um fator que vem desequilibrando as contas é a expansão chinesa, ininterrupta há 31 anos. A segunda maior potência econômica do mundo detém, também, o segundo maior orçamento militar. Pequim tem o objetivo declarado de possuir forças armadas “de classe mundial” até 2049. Mais recentemente, a invasão da Ucrânia e também a chegada de Trump, com sua exigência de maior gasto dos parceiros, acelerou a tendência.
“A aceleração do aumento que vemos desde 2022 tende a se manter nos próximos anos, mesmo que as guerras cessem. O investimento militar é um corpo pesado que se coloca em movimento”, diz Diego Lopes da Silva, pesquisador do Sipri. “Tem uma inércia muito grande, porque envolve estratégia de longo prazo, compras públicas, conversão ou construção de fábricas, treinamento de pessoal e assim por diante.”
Sempre repetem que a indústria bélica gera empregos e traz tecnologia, mas isso depende de onde o dinheiro é gasto” — Diego Lopes da Silva Em que pesem os alertas sobre ameaças externas e a necessidade de virar suas economias na direção dos armamentos, não se pode dizer que a Otan, ou mesmo a Europa, dediquem poucos recursos a essa área. Em 2025, os países-membros da organização aliada dos EUA foram responsáveis por US$ 1,58 trilhão dos gastos e o Velho Continente, em particular, por US$ 864 bilhões. Enquanto isso, a Ásia e a Oceania, somadas, respondem por US$ 681 bilhões. A China, em seu esforço de competição de superpotências, entregou US$ 336 bilhões a seus militares.
Entre os países que tiveram expansão no ano passado está o Brasil, onde a despesa subiu 13%, chegando a US$ 23,9 bilhões, de acordo com os dados do Sipri. Segundo Silva, os principais motores desse crescimento foram os gastos com pessoal e investimentos relacionados ao programa de construção de submarinos em parceria com a França (Prosub), bem como a compra dos caças Gripen da Suécia.
O único dos grandes países a reduzir seu gasto militar no ano passado foi justamente o maior deles e o que mais gasta: os Estados Unidos, que passaram de US$ 997 bilhões a US$ 954 bilhões. A maior parte dessa redução, no entanto, se deve ao corte das transferências à Ucrânia, que somaram cerca de US$ 66,5 bilhões entre 2022 e 2024, de um total empenhado de US$ 127 bilhões. Ainda assim, entre 2016 e 2025, a expansão da despesa militar americana foi de 5,4%, passando de 3,1% para 3,5% do PIB.
Também merecem destaque os beligerantes do Leste Europeu: na Rússia, o peso da guerra corresponde a cerca de 7,5% do PIB, ou US$ 190 bilhões. A Ucrânia, país bem menor, vive um cenário quase de guerra total, com 40% de seu produto comprometido com a tentativa de manter as tropas de Putin longe de Kiev. São US$ 84,1 bilhões.
Uma corrida armamentista, como parece ser o que o mundo está encetando, costuma ser um sinal de que a conjuntura, em geral, está mais hostil. É o que parecem acreditar outros participantes do Diálogo de Shangri-lá, como o general Carsten Breuer, inspetor-geral do exército alemão, que afirmou: “Em meus 42 anos de carreira militar, nunca testemunhei tempos tão perigosos quanto os que o mundo atravessa hoje”.
Ou, em mais detalhes, nas palavras de Mohamed Khaled bin Nordin, ministro da Defesa da Malásia: “Sempre ouvimos que regras e compromissos contam, que normas internacionais valem igualmente para todas as nações, de qualquer tamanho e poder. Mas hoje os tratados, princípios humanitários e compromissos internacionais são ignorados e interpretados seletivamente, sempre que não se alinham com interesses geopolíticos”.
Outros elementos levam a crer que o planeta está entrando em uma era com mais conflitos armados. Um deles é a invasão russa da Ucrânia, em 2022 - e pode-se incluir o período desde 2014, com a tomada da Criméia e a guerra na região do Donbass. Outro é a escalada no Oriente Médio, que já não consiste mais em trocas de mísseis entre Israel e Irã, tendo se convertido na guerra que interrompeu o fluxo de navios no estreito de Ormuz, levou a oscilações selvagens do preço do petróleo e talvez tenha enfim se encerrado, ao menos provisoriamente, com um acordo entre Teerã e Washington.
Expectativas de atritos na região do Ártico, à medida que o aquecimento global vai tornando as águas do extremo Norte navegáveis, se somam ao quadro. A região descongelante é cercada por Estados Unidos, Canadá e Rússia, além dos países escandinavos. Há também a projeção de outras crises ligadas ao clima, como o deslocamento de populações devido à perda de terra agricultável. A guerra civil na Síria, que durou de 2011 a 2024, tem um episódio desses entre suas causas.
Um foco de tensões que já dura décadas é a ilha de Taiwan, que Pequim aspira a reintegrar à China continental, por enquanto por meios principalmente diplomáticos. Estimar a probabilidade de uma invasão ao estilo clássico se tornou um exercício de predileção para analistas militares e geopolíticos.
Em 2023, William Burns, diretor da CIA, agência de inteligência dos EUA, declarou que a ordem do presidente Xi Jinping era preparar suas forças armadas para um ataque em 2027. Em março, a inteligência americana divulgou que não será esse o ano, e provavelmente nem o seguinte. Em maio, o Instituto de Pesquisa em Defesa e Segurança Nacional de Taiwan publicou uma pesquisa de opinião, segundo a qual 65% dos moradores da ilha duvidam que a invasão acontecerá nos próximos cinco anos.
A ascensão chinesa é vista como ameaça nos Estados Unidos, no Japão e em outros países atuantes no Pacífico não só por causa de Taiwan, mas por si própria, já que se trata de uma potência econômica e demográfica considerável, prestes a se traduzir em termos bélicos. A China já possui, por exemplo, ogivas nucleares desde 1964. Seus mísseis balísticos são capazes de atingir qualquer cidade nos EUA.


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