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O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) não pode ser o único parâmetro para medir o desenvolvimento econômico e social e o avanço do progresso precisa incluir indicadores que considerem saúde, educação, qualidade ambiental, tempo de lazer e com a família e redução das desigualdades, diz a holandesa Gaya Herrington, econometrista e professora de Harvard. Pesquisadora em sustentabilidade, Gaya integra o Clube de Roma, organização que reúne líderes em negócios, cientistas, economistas e representantes da sociedade civil para discutir temas globais com foco no desenvolvimento sustentável.
“Temos que colocar o bem-estar humano e ecológico no centro. No fim, eles [os indicadores] são a mesma coisa”, diz Herrington. Na semana que vem, ela estará em São Paulo para o Encontro Futuro Vivo, que reunirá especialistas e lideranças para discutir caminhos para um futuro mais sustentável.
Herrington ganhou notoriedade ao revisitar um dos estudos ambientais mais influentes do século XX, chamado “Os limites do crescimento” (“The Limits to Growth”), publicado em 1972 pelo Clube de Roma. Há mais de 50 anos, o relatório usou modelos matemáticos para analisar como variáveis globais - como crescimento populacional, industrialização, produção de alimentos, consumo de recursos naturais e poluição - poderiam evoluir ao longo do tempo em um planeta de recursos finitos.
Em 2021, Herrington comparou os cenários do modelo computacional World3, usado na pesquisa original, com dados das últimas décadas. O resultado foi que a humanidade segue no cenário “business as usual” (negócios como de costume), no qual a ausência de mudanças estruturais leva a uma fase de declínio de indicadores de bem-estar, que culmina com um alerta de colapso social.
“O colapso não significa o fim da humanidade. É um termo técnico para dizer que você chega a um pico e depois começa um declínio. É indesejável, mas não é o fim do mundo. A questão é como podemos aumentar nossa resiliência”, diz a pesquisadora.
Herrington diz que o atual sistema de produção e consumo ultrapassa os limites de equilíbrio ambiental, o que desestabiliza condições que tornam a vida segura. Segundo relatório de 2025 do Stockholm Resilience Centre (SRC), centro internacional de pesquisa da Universidade de Estocolmo, na Suécia, que avalia a resiliência dos sistemas socioecológicos, sete dos nove limites que regulam a estabilidade do sistema terrestre foram ultrapassados, incluindo a acidificação dos oceanos.
A economia precisa servir ao bem-estar, não o contrário” — Gaya Herrington Para Herrington, a principal mensagem é que o crescimento do PIB não pode ser o objetivo final das sociedades: “Quando nossas necessidades materiais são baixas, a alta do PIB está associada ao aumento no bem-estar. Mas, depois de determinado ponto, continuamos aumentando a riqueza sem que isso gere mais felicidade ou qualidade de vida”, diz. “A economia precisa servir ao bem-estar, não o contrário.”
Herrington questiona a ideia de “desacoplamento”, conceito segundo o qual seria possível manter um crescimento econômico contínuo ao passo em que se reduz os impactos ambientais. “Não vemos desacoplamento suficiente no uso de água, na perda de biodiversidade, na degradação dos solos ou na poluição. As emissões globais nunca foram tão altas”, afirma.
Segundo ela, avanços tecnológicos e ganhos de eficiência, embora fundamentais, não resolvem os problemas. “A tecnologia pode ser usada para trabalhar menos e consumir menos recursos, ou para produzir mais com a mesma quantidade de horas e material. Em um sistema orientado pelo crescimento, ela tende a ser usada para produzir mais usando mais.” Ela cita Nova Zelândia, Islândia e Butão como exemplos de países que aplicam a economia do bem-estar.
A pesquisadora também vê oportunidades para países como o Brasil, que combinam biodiversidade, potencial de energias renováveis e conhecimentos tradicionais. “O Brasil tem tudo. Tem uma matriz energética mais limpa do que a maioria dos países e tem povos indígenas, que preservam uma visão de interdependência com a natureza.”




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