O Brasil envelhece mais rápido do que consegue formar quem cuida. É dessa lacuna — hoje sentida em praticamente todos os municípios do país — que nasce no Paraná o Projeto Cuidar para Todos, iniciativa do Centro Brasileiro Inovação e Sustentabilidade (Cebis) …

O Brasil envelhece mais rápido do que consegue formar quem cuida. É dessa lacuna — hoje sentida em praticamente todos os municípios do país — que nasce no Paraná o Projeto Cuidar para Todos, iniciativa do Centro Brasileiro Inovação e Sustentabilidade (Cebis) em parceria com o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). O projeto abriu 300 vagas gratuitas para o curso de capacitação de cuidadores de idosos em Londrina (https://www.londrina.pr.gov.br/), com previsão de chegar a 600 vagas e expandir para municípios da região a partir de 2027.

Mais do que um curso, a proposta se apresenta como um modelo replicável para a economia do cuidado — setor que ganha peso econômico à medida que a transição demográfica avança. A iniciativa pode injetar, segundo projeção do Cebis, mais de R$ 7 milhões nessa cadeia, entre formação, geração de renda para os egressos e ampliação da oferta de serviços especializados em uma área que hoje opera majoritariamente na informalidade.

Londrina como laboratório de um cenário nacional

A escolha da cidade não é casual. O Censo de 2022 registrou pela primeira vez na história, mais idosos do que crianças — 101.948 pessoas com 65 anos ou mais contra 97.014 crianças de zero a 14 anos. O município contabiliza ainda mais de 15 mil moradores acima dos 80 anos, faixa em que a demanda por cuidado contínuo é mais intensa.

O que se testa em Londrina, portanto, é uma resposta desenhada para um cenário que se repetirá em centenas de cidades brasileiras: como estruturar, com qualidade e escala, uma rede profissional de cuidado.

O cuidado improvisado é a regra — não a exceção

Ao lado do fator demográfico, o projeto enfrenta uma fragilidade social pouco visível nas estatísticas: a ausência de apoio profissional estruturado dentro das famílias. Segundo Katiane Gouvea, presidente do Cebis, uma parcela expressiva dos idosos vive sozinha ou sob os cuidados de pessoas que improvisam da melhor forma que podem, sem preparo técnico.

"Muitas vezes, quem cuida do idoso é a própria família — filhos e filhas que trabalham fora o dia todo e chegam em casa exaustos. Esse cuidado improvisado sobrecarrega os familiares e nem sempre garante a atenção que a pessoa idosa necessita na rotina diária e na administração de medicamentos", explica Katiane Gouvea.

A presidente ressalta que a presença de um profissional qualificado vai além dos cuidados de saúde física e funciona também como proteção social. "Uma parcela considerável dos idosos mora sozinha. Além das fragilidades de saúde, essa solidão os torna extremamente vulneráveis a golpes digitais, financeiros e abusos. Tendo um cuidador preparado ao lado, nós não estamos apenas garantindo higiene e medicação correta; estamos oferecendo segurança e proteção integral", reforça.

A grade curricular reúne 17 disciplinas, que vão de primeiros socorros, nutrição e administração de medicação à estímulo cognitivo e letramento digital. O projeto também se preocupa com a inserção do aluno no mercado de trabalho. Ao final da formação, cada formando leva um kit profissional com oxímetro, termômetro digital e esfigmomanômetro, o que permite iniciar a atuação imediatamente.

Londrina tem histórico pioneiro na agenda do envelhecimento: foi onde nasceu a primeira Secretaria Municipal do Idoso do Brasil, criada em dezembro de 1999, com recursos destinados à melhoria da qualidade de vida da pessoa idosa. A trajetória do Cebis está ligada diretamente a esse legado, idealizado pela assistente social e fundadora da entidade, Altina Gouvea.

Mais de duas décadas depois, a aposta é transformar experiência local em referência nacional — e o cuidado, de arranjo improvisado dentro de casa, em profissão reconhecida, qualificada e economicamente relevante.

Conheça mais sobre o Cebis em cebis.org.br.