El Niño forte pode provocar perdas em 2026/27, pressionando mercados devido à liderança do país nas exportações, aponta relatório do Itaú BBA

Compartilhar matériaA possibilidade de uma quebra relevante da safra brasileira de soja em 2026/27 voltou ao radar do mercado global diante da crescente probabilidade de um El Niño forte. Simulações do Itaú BBA mostram que uma perda de apenas 6% na produção nacional seria suficiente para derrubar os estoques mundiais ao menor nível em três anos, reduzir a relação estoque/consumo global de 28% para 25% e reacender um ciclo de alta das commodities agrícolas.

Apesar disso, o banco lembra que esse evento climático não costuma ser sinônimo de disparada dos preços agrícolas. Diferentemente da La Niña, que frequentemente provoca perdas simultâneas em importantes regiões produtoras, o El Niño costuma gerar um efeito de compensação geográfica na oferta mundial. Enquanto algumas áreas enfrentam seca e calor excessivo, outras registram melhora das condições climáticas e ganhos de produtividade.

Por conta desse balanceamento, os mercados de grãos normalmente apresentam menor volatilidade durante episódios de El Niño. Em eventos fortes como os de 1997/98 e 2015/16, por exemplo, não houve rupturas significativas no balanço global de soja e milho. A oferta mundial permaneceu suficiente para atender à demanda e os preços internacionais apresentaram oscilações relativamente moderadas.

La Niña é mais problemático

O contraste aparece quando o mercado observa episódios de La Niña. Entre 2020 e 2022, uma sequência de três eventos consecutivos provocou secas severas em diversas regiões agrícolas do planeta, incluindo importantes áreas produtoras da América do Sul.

O resultado foi uma forte deterioração da oferta global, contribuindo para a disparada das commodities agrícolas. Naquele período, a soja chegou a superar US$ 17 por bushel em Chicago, enquanto o milho ultrapassou US$ 6,50 por bushel.

Mas a dinâmica global mudou. Com Brasil e Argentina respondendo atualmente por cerca de 65% das exportações mundiais de soja e assumindo participação crescente no mercado internacional de milho, os choques produtivos na América do Sul passaram a ter peso muito maior na formação dos preços globais, destaca o relatório. É justamente essa nova realidade que torna o atual El Niño motivo de preocupação para o mercado.

Segundo o Itaú BBA, o fenômeno já foi oficialmente confirmado e existe 63% de probabilidade de atingir intensidade muito forte durante a safra 2026/27. Caso se confirme, o comportamento climático poderá reproduzir características observadas em eventos históricos que provocaram irregularidade de chuvas, veranicos prolongados e ondas de calor no Centro-Oeste e no Matopiba.

Essas regiões concentram parte relevante da expansão agrícola brasileira e são consideradas as mais vulneráveis aos efeitos do fenômeno. Atrasos no início das chuvas podem comprometer o plantio da soja, reduzir o potencial produtivo das lavouras e provocar efeitos em cadeia sobre o milho safrinha.

O receio do mercado tem como referência a safra 2023/24. Naquele ciclo, o Mato Grosso registrou queda de 16% na produtividade da soja, enquanto o Matopiba apresentou retração de 11%. No consolidado nacional, a produção brasileira recuou de 162 milhões para 153 milhões de toneladas.

Tomando esse episódio como base, o Itaú BBA simulou uma nova quebra de 6% para a temporada 2026/27.

No cenário alternativo elaborado pela instituição, a produção brasileira de soja cairia para 169 milhões de toneladas, retirando cerca de 11 milhões de toneladas da oferta global.

O efeito seria imediato sobre os estoques mundiais. A projeção atual aponta para estoques finais globais próximos de 125 milhões de toneladas ao final da temporada 2026/27. Com a quebra brasileira, esse volume recuaria para aproximadamente 108 milhões de toneladas, o menor nível desde 2023/24.

A relação estoque/consumo global também sofreria forte deterioração, caindo de 28% para 25%. Em mercados agrícolas, esse indicador é acompanhado de perto porque mede o grau de conforto da oferta. Quanto menor o índice, maior a sensibilidade dos preços a qualquer novo problema climático ou geopolítico.

Uma das principais diferenças em relação à safra 2023/24 está na menor capacidade de compensação por parte de outros produtores. Naquele momento, a forte recuperação da Argentina neutralizou boa parte dos efeitos da quebra brasileira. Após sofrer uma seca histórica, os argentinos praticamente dobraram sua produção de soja, ajudando a equilibrar a oferta global.

Hoje, porém, a safra argentina já opera em patamares normalizados. Isso reduz significativamente a possibilidade de um aumento extraordinário de produção capaz de compensar eventuais perdas no Brasil.

Nesse ambiente, a demanda também ganha protagonismo. "Quando se observa o balanço global, o crescimento do consumo associado à expansão dos biocombustíveis aumenta a demanda por óleo de soja e eleva o esmagamento do grão, pressionando ainda mais a estrutura de oferta", diz o banco.

Ao retirar os estoques da equação e observar apenas produção e consumo, o mercado global de soja caminha para um dos menores níveis de superávit da história recente, alerta o banco.

O saldo, que chegou a quase 16 milhões de toneladas na safra 2024/25, deve recuar para menos de 1 milhão de toneladas em 2026/27, segundo projeções baseadas em dados do USDA. "Trata-se de um nível próximo ao observado em 2021/22, quando o mercado chegou a operar em condição deficitária."

Nesse cenário, o crescimento da produção global ainda continua, mas em ritmo semelhante ao do consumo, o que reduz o espaço de folga no sistema. A leitura dos analistas é de um mercado progressivamente mais apertado, ainda que sem ruptura estrutural imediata.