Religiosa do Rio Grande do Sul acusa apresentadora do SBT de ingratidão e rituais contra colegas de bancada.

Mãe Michelly da Cigana, nome verdadeiro Michelly da Silva Bernardes, voltou a ganhar os noticiários nesta semana depois de publicar uma série de vídeos nas redes sociais acusando a apresentadora Cariúcha de ingratidão, de pedir "amarrações" amorosas e de ter feito rituais para tentar tirar o jornalista Leo Dias do SBT.

Mas quem é, afinal, Mãe Michelly? Aos 47 anos, ela é uma das lideranças religiosas mais conhecidas do Rio Grande do Sul. Ficou nacionalmente famosa em 2023, quando uma estátua de Belzebu instalada no portão de sua casa, em Alvorada, viralizou nas redes sociais.

Três anos depois, a polêmica com Cariúcha a colocou de volta ao centro das atenções, agora não pela imagem do "capeta", mas pelas acusações pesadas contra a ex-aliada.

Nascida em Alvorada, na Região Metropolitana de Porto Alegre, Michelly teve uma infância marcada por dificuldades financeiras e familiares. Aos 9 anos, viveu o episódio que descreve como o ponto de virada de sua vida: um grave problema de saúde quase resultou na amputação de uma das pernas. Foi a avó quem, "em um ato de desespero e fé", a levou para ser atendida por uma médium incorporada com a entidade Maria Padilha, da quimbanda. Segundo o relato da própria religiosa em seu site oficial, ela foi curada e a família foi orientada a não retornar ao hospital.

Aos 15 anos, iniciou sua jornada como médium na Umbanda e na Quimbanda, além de trabalhar com o "Povo Cigano do Oriente" através da entidade Cigana Madalena, origem do nome "da Cigana" que carrega até hoje.

Em 2010, decidiu se dedicar exclusivamente aos atendimentos religiosos, criando a marca Magia Cigana, que começou pequena, com clientes atendidos em almofadas no chão, e cresceu ao longo dos anos. Hoje ela também cultua o Batuque, religião de matriz africana típica do Rio Grande do Sul devotada aos orixás.

Em 2023, uma imagem de Belzebu fixada sobre o portão de sua casa, em um bairro de Alvorada, chamou a atenção da vizinhança e viralizou nas redes sociais.

Segundo reportagem do g1, três anos depois a estátua segue no local, mas ganhou companhia: a casa de Mãe Michelly é hoje repleta de imagens de entidades, santos, orixás e divindades de diferentes religiões, distribuídas em três salões, um dedicado à Umbanda, outro à Quimbanda (focado no culto a Exus e Pombagiras) e uma "Casa de Oxum".

A repercussão também impulsionou a expansão de seus trabalhos religiosos. Ela ergueu, em um sítio na cidade de Viamão, o Santuário Nacional de Belzebu, com uma estátua de aproximadamente 5 metros da entidade e o "Lago dos Orixás", inspirado no Dique do Tororó, em Salvador (BA).

"A viralização ajudou a expandir o meu terreiro. Hoje, temos um espaço que se chama Santuário Nacional de Belzebu [...] que é um lugar onde eu me sinto segura. Lá, o meu cliente tem sigilo, tem segurança, pois somos muito atacados", afirmou Mãe Michelly ao g1.

A construção também foi motivada por episódios de intolerância que ela diz ter sofrido: "Houve vezes em que eu estava realizando um trabalho no cemitério, na encruzilhada ou no mato, e as pessoas chamavam a polícia, passavam de carro xingando, jogavam água. Já chegaram até a me atirar pedras", relatou ao portal.

Por causa dos ataques, ela afirma que hoje não sai mais de casa sem segurança: "Não porque temos medo de assalto ou roubo, temos medo é da intolerância", disse.

Com a fama, Michelly assumiu um papel de porta-voz na luta contra o preconceito enfrentado por praticantes de religiões de matriz africana. "Acho que ali teve o dedo da espiritualidade para apontar a possibilidade de eu ser uma porta-voz dessa fé, que é tão discriminada [...] É um grande presente poder desmistificar muitos pensamentos negativos que as pessoas têm em relação a Belzebu e à Quimbanda", disse ao g1.

Ela também relaciona a discriminação religiosa a outros preconceitos que observa na sociedade, citando a própria experiência como mãe de uma pessoa trans: "Eu também sou mãe de um trans e vejo as pessoas não aceitarem a sexualidade, a espiritualidade, a fé", comentou.

Michelly construiu a fama de conselheira espiritual de celebridades, ganhando o apelido de "vidente dos famosos", posicionamento que reforça em entrevistas e nas redes, onde soma mais de 1 milhão de seguidores. Em entrevista à Revista Mensch, em 2023, ela explicou o que significa ser mãe de santo: "cuidar de pessoas, cuidar dos orixás, orientar pessoas e ajudar nos mais diversos problemas diários", disse. Também revelou ter limites éticos para os pedidos que aceita: recusa trabalhos "direcionados à crianças, inocentes ou idosos, ou para morte de alguma pessoa", por ferirem seus princípios.

Sobre amarrações amorosas, tema que reapareceria depois nas acusações contra Cariúcha, ela já havia dito à Mensch que "nem sempre tudo dá e tudo é possível" e que "nem sempre o melhor caminho é amarrar a pessoa a você".

Em 2024, aos 44 anos, Michelly investiu R$ 2 milhões para comprar um terreno e construir um cemitério dedicado às pombagiras, segundo o Terra. A ideia surgiu após mais um episódio de intolerância que diz ter sofrido em um cemitério público. A primeira etapa foi dedicada a Maria Padilha, a mesma entidade que, segundo ela, a curou na infância, e o projeto previa ainda uma casa de vidro para Belzebu e praças para a comunidade cigana e para Cosme e Damião.

A confusão começou depois que Cariúcha se envolveu em uma discussão pública com a ex-Fofocalizando Carol Lekker. O nome de Michelly foi citado na briga, e ela reagiu dizendo que iria "abrir a boca" sobre a apresentadora.

"Comigo, quando eu dei consulta a ela, que a Cariúcha é do tempo que ela não era ninguém, quando ela estava entrando na Fazenda, eu paguei uma publi pra ela ter dinheiro pra fazer uma roupa pra tirar as fotos da Fazenda", contou.

Segundo Michelly, durante o confinamento a irmã e o assessor da apresentadora a procuraram porque suspeitavam que Jojo Todynho estivesse fazendo trabalhos espirituais contra Cariúcha. A religiosa diz ter interferido para reverter a rejeição do público: