Mineiro construiu uma carreira de décadas entre grandes reportagens, livros e registros de momentos decisivos da história brasileira
O jornalismo brasileiro perdeu nesta terça-feira (22) um de seus nomes mais consagrados. Zuenir Ventura morreu aos 95 anos, no Rio de Janeiro. Ao longo de décadas de carreira, ele acompanhou transformações políticas e sociais do país e, para além dos jornais, levou muitas dessas histórias também para os livros.
Nascido em 1º de junho de 1931, em Além Paraíba, Minas Gerais, Zuenir teve diferentes trabalhos antes de encontrar seu caminho profissional. Chegou a acompanhar o pai como pintor de paredes, trabalhou no comércio e deu aulas. Mais tarde, então, cursou Letras Neolatinas na atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
A entrada no jornalismo aconteceu ainda durante a faculdade. Zuenir começou trabalhando no arquivo da Tribuna da Imprensa e, em seguida, passou por importantes jornais e revistas do país. No início dos anos 1960, também ampliou sua formação profissional em Paris.
Entretanto, sua carreira ficou marcada por reportagens ligadas a momentos importantes do Brasil. No fim dos anos 1980, o trabalho realizado no Acre sobre Chico Mendes recebeu os prêmios Esso e Vladimir Herzog.
Em 1988, Zuenir lançou '1968 - O Ano que Não Terminou', obra que se tornou uma das mais conhecidas de sua trajetória. O período abordado no livro também atravessou sua vida pessoal: em 1968, ele e a jornalista Mary Akiersztein, com quem se casou, chegaram a ser presos.
Anos depois, outro mergulho jornalístico deu origem a 'Cidade Partida'. Para escrever a obra, Zuenir acompanhou o cotidiano de Vigário Geral após a chacina ocorrida na comunidade carioca, aproximando a discussão sobre violência das histórias de quem vivia naquele cenário.
Em 2015, o escritor passou a integrar a Academia Brasileira de Letras, na cadeira 32, anteriormente ocupada por Ariano Suassuna. Sobre a convivência na instituição, chegou a brincar: "É agradável e tem muito humor. Nós velhinhos temos muito humor".
Apesar de ter dedicado boa parte da carreira a temas difíceis, Zuenir costumava destacar uma característica pessoal que considerava cada vez mais rara. Em depoimento ao Museu da Imagem e do Som, resumiu esse olhar em uma frase: "Tenho qualidades e defeitos, e uma coisa que hoje está fora de moda chamada otimismo. Espero que quando eu morrer o otimismo esteja na moda".
Zuenir deixa a mulher, Mary, os filhos Elisa e Mauro e os netos Alice e Eric.
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