Por Diego Benedetto Panetta, La Nuova Bussola Quotidiana

Dê de presentePrefira a Gazeta no GooglePrisioneiros houthi comemoram libertação após avanço das tropas do grupo radical. (Foto: EFE/EPA/YAHYA ARHAB)Ouça este conteúdo

Olhando para o mapa-múndi, é difícil enxergar o estreito de Bab el-Mandeb. Se, contudo, ajudarmos o observador desavisado dizendo-lhe que ele fica no ponto de interseção entre o Mar Vermelho e o Golfo de Áden, então o local, as dimensões e a importância começam a ganhar certa consistência. Portanto, a notícia de que o movimento houthi ocupou em 12 de setembro a ilha de Perim, um pedaço de terra que vigia o estreito de Bab el-Mandeb, não deve deixar ninguém indiferente.

Para compreender a importância desse estreito, basta pensar que, embora tenha apenas 16 km de largura, ele constitui a passagem obrigatória para todos os navios que atravessam o Canal de Suez. As ligações entre a Europa e a Ásia são possíveis graças a essa "porta das lágrimas" (como diz o nome do estreito traduzido do árabe), que simbolicamente testemunha a dolorosa separação que marcou originalmente o destino dos dois continentes. Cerca de 12% do comércio mundial passa por essa faixa de água estreita entre o Djibuti, a Eritreia e o Iêmen, que conecta o Canal de Suez ao Oceano Índico.

Após o bloqueio do Estreito de Ormuz, promovido pela República Islâmica do Irã como ato de retaliação contra os Estados Unidos e Israel, o Mar Vermelho assumiu ainda mais centralidade na exportação do petróleo saudita. O ouro negro de Riade voltou, de fato, a fluir massivamente de leste para oeste, na direção de Yanbu — na costa do Mar Vermelho — por meio do oleoduto Petroline. Mas, no início do mês, os ataques desferidos pelos houthi e a recente tomada de posse do estreito de Bab el-Mandeb levaram o país mais importante do Golfo a fechar o oleoduto e a suspender as exportações.

Observando o desdobramento dos acontecimentos, é difícil constatar um êxito, ao menos por enquanto, da estratégia de Washington e Tel Aviv. A primeira lição a tirar do conflito no Oriente Médio é que quem controla as rotas estratégicas já venceu metade de uma guerra, mesmo na era dos drones e dos sistemas de armas autônomos e, sobretudo, mesmo enfrentando a maior potência global.

Esse último aspecto não deve ser subestimado, e contudo é justamente nele que a administração norte-americana encalhou. É difícil admitir, especialmente se olharmos para esses homens de fúria cega, que aceleram em caminhonetes caindo aos pedaços, com camuflagens improvisadas, armados com fuzis e pistolas vindos de depósitos envelhecidos há décadas, mas perfeitamente funcionais. Os houthi, porém, são profundamente diferentes do que eram os talibãs, embora o olho ocidental mal consiga enxergar as diferenças.

O grupo armado iemenita não pode ser simplesmente reduzido ao papel de "marionete de Teerã". É verdade que possui relações, e inclusive estreitas, com a República Islâmica devido à fé xiita em comum; mas, além de pertencer a uma corrente teológica específica (o zaidismo), demonstrou ao longo de seu passado recente ser dotado de um pragmatismo incomum e de saber se adaptar às situações concretas de maneira vitoriosa. Em 2011, por exemplo, os houthi souberam aproveitar as manifestações antigovernamentais geradas pelo movimento da Primavera Árabe, forçando o presidente Ali Abdullah Saleh, no poder desde 1978, a se renunciar. Saleh, intimamente ligado à Arábia Saudita, representava para os houthi um inimigo mortal. Entre 2004 e 2010, ele promoveu seis campanhas militares para erradicar o grupo armado da província setentrional de Sa'da, local de origem de Hussein Badreddin al-houthi, fundador do movimento, morto em 2004 pelas forças armadas iemenitas. Afastado da presidência, perdeu o apoio de Riade, que apoiou em 2012 a ascensão ao poder de seu vice, Abd Rabbo Mansur Hadi.

É nesse ponto que acontece algo inesperado. Saleh e os Houthi decidem formar uma frente comum contra Hadi. Graças aos arsenais disponibilizados pelo ex-presidente e ao controle do território por parte dos Houthi, estes entraram em setembro de 2014 na capital iemenita, Sanaa, e tomaram o seu controle. Desde então, o país entrou em uma espiral de violência da qual nunca mais saiu. O conflito entre Israel e o Hamas eclodido em outubro de 2023 radicalizou o confronto iemenita e estendeu a lógica do conflito para um terreno ainda mais impregnado de religião e ideologia, ampliando seu espectro para toda a região.

Sob esse ponto de vista, a guerra entre Irã e Estados Unidos-Israel parece ter galvanizado o movimento Houthi, convencendo-o da necessidade de estender a ofensiva para as zonas costeiras do país, assim como o que foi feito por Teerã com o bloqueio do Estreito de Ormuz. A tomada de pontos-chave no Mar Vermelho pelos Houthi marca um salto qualitativo no confronto com o Ocidente, ainda mais por vir de um grupo armado e não de um Estado -— sem esquecer que, embora exerça o controle de grande parte do território iemenita, os houthis não podem ser considerado como um proxy de Teerã, mas certamente como seus aliados estratégicos.

O movimento Houthi, como lembrado anteriormente, adere ao xiismo zaidita e não ao duodecimano (como o iraniano); ancorado em uma visão política de natureza rigidamente familiar/tribal, apresenta características em muitos aspectos semelhantes ao universo sunita, tanto no nível jurisprudencial quanto teológico; do xiismo iraniano, por sua vez, adota a abordagem nacionalista e anti-imperialista.

Diante dos cenários atuais, é realista que missões como a Aspides — promovida pela União Europeia em fevereiro de 2024 como um "escudo" em defesa dos navios mercantes europeus que transitam pelo Mar Vermelho — sejam reforçadas, enquanto se aguarda uma solução negociada entre os Estados Unidos, os Houthi e o Irã, que hoje ainda parece distante, mas extremamente necessária. O duplo gargalo que vincula os destinos de Ormuz aos do Mar Vermelho não pode durar muito tempo. O risco de gerar uma crise sistêmica nos fluxos petrolíferos e um bloqueio no fornecimento de energia global é altíssimo, assim como é altíssima a responsabilidade dos Estados Unidos em gerir da melhor forma uma situação que se tornou dramaticamente insustentável.

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