Manipula-se, com a conivência e o incentivo de setores do jornalismo, a investigação de olho do calendário eleitoral. Um desenho e um licro
Caras, caros e cares, saiu um texto danado de longo. Divido-o em tópicos, que conversam entre si. Eles têm três pilares: 1: inexiste justiça fora do devido processo legal; 2: governos que agem contra a corrupção sempre geram desgastes para si mesmos. Se a imprensa é conquistada por um aparato que se apropria da investigação, não se tem mais uma apuração isenta, mas uma máquina de moer “inimigos públicos”; 3: conservadores mantêm a ilusão, já estudada por Robert O. Paxton, em “A Anatomia do Fascismo”, de que se pode civilizar a extrema direita.
Nota prévia: acima, o desenho “Maul halten und weiter dienen” — “Cale a Boca e Cumpra o seu Dever”, do artista alemão George Grosz (1893-1959). Ironizava setores da igreja que apoiavam os “esforços de guerra”. Assim, pôs na cruz um Cristo com máscara antigases e de coturnos, com a inscrição que se lê acima. Foi processado por blasfêmia. Os que o acusaram não viam, obviamente, mal nenhum em que se manipulasse a religião em benefício de grupos políticos. Deu no que deu. No destaque, a capa do livro “A Anatomia do Fascismo”, de Robert O. Paxton,
MORAES: QUAIS SÃO MESMO OS TIPOS PENAIS? Digamos, por hipótese, que se abra um procedimento no Supremo para avaliar, ou que verbo se escolha nessa patuscada, a atuação do ministro Alexandre de Moraes. Huuummm… Estas poderiam ser as suas primeiras palavras para que os demais avaliassem o que fazer em seguida: “Desafio qualquer pessoa a apontar uma única mensagem de minha autoria, um único ato ou uma decisão judicial em favor do Banco Master ou de Daniel Vorcaro. Não são minhas condutas apontadas pela PF como favorecimento a um grupo político, direcionamento da investigação e definição prévia de alvos”.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles Fosse este escriba seu colega na Corte — vamos ver qual será o rito deste tribunal de ofício nada santo que alguns pretendem criar —, pediria um aparte: “Apesar da farsa montada e divulgada, não é possível nem mesmo apontar os tipos penais em que teria incorrido Vossa Excelência. O que me parece é que os extremistas que tentaram pôr fim à democracia — inclusive sob o silêncio cúmplice ou o cinismo de alguns presentes — resolveram se vingar”.
E por que faria o meu aparte? Porque convém observar que, para que a comédia macabra tenha curso, será preciso formular uma acusação. E apresentar as provas. Ou se estará num tribunal de exceção. * VAI SE CONSAGRAR UM MÉTODO? Todos sabem no Supremo, inclusive ele próprio, que André Mendonça mandou investigar Moraes ao arrepio da lei. Sob o nariz de setores da imprensa, que fariam Carlos Lacerda vomitar de nojo, também do estilo — assistimos a um espetáculo de múltiplas manipulações da investigação e do processo para atingir, na boca da urna, alvos previamente definidos.
Nada encontraram contra Lulinha que o ligasse ao desvio do INSS. Abriram-se três inquéritos para investigar tráfico de influência. Os dois que estão sob a relatoria de Mendonça tornaram-se uma usina de vazamentos, com óbvia interferência no processo eleitoral. Como resta evidente, nada se sabe da investigação sobre os mais de US$ 13 milhões que Flávio Bolsonaro pediu a Daniel Vorcaro para supostamente fazer o tal filme “Dark Horse”.
Mendonça mandou fazer o relatório contra Moraes no dia 24 de agosto e suspendeu o sigilo no dia 1º de setembro, antes mesmo de que a PGR se manifestasse. A investigação sobre “Dark Horse” foi aberta no dia 23 de julho. O ministro a mantém em sigilo.
“Está inferindo que Mendonça vazou, Reinaldo?” Não infiro nada. Estou sendo absolutamente objetivo. Esses são os fatos irrespondíveis. O relatório da PF evidencia que o “Aparato Mendonça” tem controle absoluto sobre os chamados dados brutos, que é o manancial que municia os vazamentos.
Lendo algumas análises, parece que eu deveria concluir que Moraes fez algo horrível quando pediu relatórios de Inteligência da PF, chamados de “apócrifos”. Já o aparato que alimenta o noticiário contra um dos lados da disputa eleitoral deveria ser considerado o “Moisés de Michelangelo” do devido processo legal. O único “não apócrifo”, que estaria prestando um bem à humanidade, é o VILMO, o “Vazador de Informações contra Lulinha e Moraes”. * PRÁTICA QUE DERRUBOU DILMA DE VOLTA O calendário é sempre muito importante nessas decisões. O 7 de Setembro de Flávio já nascia com cara de mais um mico. As duas decisões de Mendonça inflamam os espíritos. A história está aí para lembrar. No dia 13 de março de 2016, houve uma grande manifestação na Paulista em favor do impeachment de Dilma, embora, nos bastidores, a hipótese começasse a parecer cada vez mais remota.
No dia 16 daquele mês, a presidente decide nomear Lula ministro da Casa Civil — e o meio político passou a considerar que ele teria condições de contornar a crise. À noite, Sergio Moro vaza ilegalmente uma gravação também ilegal entre a então titular da Presidência e o ex que, sem contexto e isolada de outros diálogos, sugeria que o objetivo da indicação era apenas blindá-lo de eventual ação da PF. Para lembrar:
Dilma: “Lula, deixa eu te falar uma coisa.” Lula: “Fala, querida. Ahn…” Dilma: “Seguinte, eu tô mandando o ‘Bessias’ junto com o papel pra gente ter ele, e só usa em caso de necessidade, que é o termo de posse, tá?!” Lula: “Uhum. Tá bom, tá bom.” Dilma: “Só isso, você espera aí que ele tá indo aí.” Lula: “Tá bom, eu tô aqui, eu fico aguardando.” Dilma: “Tá?!” Lula: “Tá bom.” Dilma: “Tchau.” Lula: “Tchau, querida.”
Um mês depois, no dia 17 de abril, a Câmara autorizou o envio do pedido de impeachment ao Senado, aprovado em 12 de maio, e ela teve de se afastar. O golpe do “isento” Moro, o santarrão de então — que viria a ser ministro de Bolsonaro —, deu certo.
Agora é Mendonça quem joga com o calendário para inflar a rua em favor de Flávio e contra o Supremo, que ele integra. Não me surpreende. Não reconheceu a tentativa de golpe nem viu com especial gravidade a invasão do tribunal onde tem assento. Seu senso de Justiça, como está nos anais, resolveu indagar a culpa da vítima: o governo estava no poder havia uma semana. No dia 14 de setembro de 2023, diga-se, ele e Moraes tiveram um duro embate na Corte sobre o assunto (o vídeo está aqui, a partir de 9min38s).
Nota: o “Bessias” do diálogo reproduzido acima é Jorge Messias, o ausente advogado-geral da União. Conviria refrescar a memória. * STF: FILA DA GUILHOTINA OU IGREJA IDEOLÓGICA? Investigue-se quem tem de ser investigado. É a regra na democracia. De acordo com o devido processo legal. Eis uma outra regra. Há pencas de acusações contra ministros do Supremo e de arguições de impedimento o tempo todo. É da natureza do jogo.
Se o relator de um inquérito houver por bem manipular procedimentos, recorrer a ilegalidades e espalhar acusações contra colegas, contando com assessoria profissional nesse trabalho e com parte do aparato midiático, bem…, não se terá mais um tribunal independente, mas uma fila de magistrados prontos a ir para a guilhotina, a menos que se alinhem com o influente da hora.
Cria-se um modelo: “As coisas não estão saindo como quero? Então me comporto como delegado, mando fazer um relatório contra quem me atrapalha, transformo numa petição, envio à PGR, não espero seu parecer, despacho para o presidente da Casa e suspendo o sigilo em seguida em nome da transparência”.
Vença Lula ou Flávio, pode ser esse o funcionamento regular da Corte?
Mas há hipótese pior. Digamos que o candidato de Mendonça chegue lá. Bolsonaro diz já ter 20% dos ministros: Mendonça e Nunes Marques. Flávio indicaria três, quem sabe quatro porque a vaga que foi de Luiz Roberto Barroso segue em aberto. Chega-se a seis. Se consegue o impedimento de Moraes, somam-se sete. Dias Toffoli parece ter saído da mira porque é visto como “neutralizado por Mendonça”. Mas nada impede que volte à fila da degola. Essa gente não tem compaixão com quem sangra em público. O cenário aponta, nesse caso, para oito alinhados…
O presidente teria no STF uma igreja ideológica; contaria com uma Polícia Federal sob intervenção, como aconteceu no governo Bolsonaro; escolheria um futuro procurador-geral alinhado com a metafísica da extrema direita e, não seria improvável, “faria” os comandos da Câmara e do Senado… Aí bastará decretar o fim da corrupção no Brasil, como fez o “Mito”. Em vez de um modelo em que todos investigam todos, o que já é um despropósito, chegarão à conclusão de que é muito melhor aquele que já chegou a funcionar, em que os alinhados se protegem, e o direito vira um exercício de tiro ao alvo contra o inimigo.
De novo, não preciso inferir nada: o caso “Dark Horse” já está aí para ilustrar. * PAULO GONET E ANDREI RODRIGUES Já tratei aqui das pusilanimidades que colhem Paulo Gonet, procurador-geral da República, e Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal.




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