Terceiro dia reuniu Calvin Harris, Black Eyed Peas, Nelly, Ne-Yo, Barão Vermelho e homenagens a Cazuza e Tim Maia
Rock in Rio 2026 chegou ao terceiro dia com um problema impossível de resolver na produção: o céu. A chuva começou cedo, acompanhou a abertura dos portões e permaneceu por boa parte das horas seguintes, com temperatura chegando a 19,3 °C naquela que foi registrada como a tarde mais fria do ano no Rio. O domingo de ingressos esgotados havia sido programado para pop, R&B, hip-hop, música brasileira e eletrônico; na prática, ganhou também um figurino coletivo formado por capas plásticas, tênis molhados e pessoas decididas a descobrir quanto tempo ainda conseguiriam dançar debaixo d'água.
🎧 Do universo de fã ao universo da música: tudo que você ama em um só lugar. Siga @terrasonora
A chuva chegou a suspender temporariamente os agendamentos de roda-gigante e tirolesa por segurança, dificultou deslocamentos e deixou a Cidade do Rock menos confortável desde as primeiras horas. O efeito sobre os shows, porém, foi curioso. No dia anterior, a água já havia reduzido a quantidade de celulares permanentemente erguidos. No domingo, essa transformação ficou ainda mais visível: guardar o aparelho deixou de ser escolha contemplativa e virou proteção patrimonial. Com isso, boa parte do público acompanhou os palcos com menos mediação entre olhos e artistas, mesmo que ninguém tivesse planejado uma experiência "detox digital".
O terceiro dia também apresentou uma mudança radical em relação ao sábado. Depois de Sepultura, Bring Me The Horizon, Bad Omens e Avenged Sevenfold, a Cidade do Rock virou território de groove, refrões pop, R&B, hip-hop, soul, reggae, funk e house. A programação oficial colocava Calvin Harris, Black Eyed Peas, Nelly e Barão Vermelho no Mundo; Ne-Yo, Jota Quest tocando Tim Maia, BaianaSystem e Calema no Sunset; e Sofi Tukker, Liu, Casa Bonita e MEDUZA³ no New Dance Order.
A troca de estilos produziu outra forma de participação. No sábado, a imagem recorrente era a roda punk. No domingo, quadris, braços e coros coletivos assumiram o gramado. Depois de três dias, o festival também começa a revelar uma tendência bastante boa para sua curadoria: os artistas brasileiros frequentemente estão entregando apresentações tão fortes quanto e, em alguns casos, mais completas do que atrações internacionais posicionadas acima deles no cartaz.
Primeiras Impressões | Rock In Rio 2026 Está Mais Enxuto, Digital e Com Um Sunset Que Respira
Foo Fighters | Duas Horas Foram Tudo o Que o Rock In Rio 2026 Precisava
O Barão Vermelho abriu o Palco Mundo às 16h40 sob chuva persistente e diante de um público que ainda chegava coberto por capas. A reunião de Roberto Frejat, Guto Goffi, Maurício Barros e Dé Palmeira, acompanhados por Fernando Magalhães, carregava uma relação histórica evidente com o festival: em janeiro de 1985, a banda ocupou a primeira Cidade do Rock ao lado de Cazuza. Quarenta e um anos depois, a formação voltou ao palco principal sabendo que qualquer homenagem mal dosada poderia transformar o show em exposição de arquivo.
A apresentação encontrou um caminho melhor ao fazer o passado aparecer dentro das próprias músicas. "Maior Abandonado", "Pense e Dance", "Bete Balanço", "Meus Bons Amigos" e "Tão Longe de Tudo" criaram uma primeira parte guiada pelo catálogo da banda, enquanto a homenagem a Cazuza foi crescendo sem interromper esse fluxo. "O Tempo Não Para" e "Codinome Beija-Flor" carregaram naturalmente a lembrança do cantor, mas o momento de maior carga emocional veio em "Todo Amor Que Houver Nessa Vida".
Frejat cantou diante de imagens de Cazuza nos grandes painéis do Mundo, criando um dueto entre registros separados por décadas. O recurso poderia facilmente cair no sentimentalismo calculado, principalmente num festival que conhece muito bem o valor comercial da nostalgia. Funcionou porque o reencontro daquela formação já carregava história suficiente e porque a música dispensava qualquer dramatização adicional. A imagem de Cazuza diante de milhares de capas de chuva fez o palco de 2026 conversar diretamente com o Rock in Rio de 1985.
A reta final abandonou qualquer delicadeza prolongada. "Por Você", "Vem Quente Que Eu Estou Fervendo", "Malandragem Dá um Tempo", "Puro Êxtase", "Por Que a Gente É Assim?" e "Pro Dia Nascer Feliz" deixaram o público dançando num momento em que o clima já havia tornado ficar parado uma péssima estratégia contra o frio. Foi um começo de Palco Mundo sustentado por repertório e história brasileira, sem precisar tratar a posição das 16h40 como simples preparação para os estrangeiros.
A estreia de Nelly no Brasil carregava uma promessa fácil de entender. Boa parte de seus maiores sucessos pertence ao período em que videoclipes, MTV, rádios e CDs faziam "Country Grammar", "Hot in Herre", "Ride Wit Me" e "Dilemma" circular muito além do hip-hop. O Rock in Rio já percebeu há algumas edições o potencial de artistas de R&B e rap dos anos 2000 para uma plateia que hoje chega ao festival adulta e pronta para cantar repertórios associados à adolescência.
O começo, contudo, teve dificuldade para justificar o tamanho do Mundo. A formação com DJ e backing vocal colocava quase toda a responsabilidade da apresentação sobre Nelly, e as músicas menos reconhecidas recebiam respostas bem mais discretas. O show começou a crescer quando "Country Grammar" apareceu e ganhou força na reta final, quando o rapper concentrou justamente aquilo que aquela plateia parecia ter ido buscar: memória afetiva. "Hot in Herre", "Dilemma" e "Just a Dream" mudaram a reação do gramado e finalmente fizeram o Palco Mundo responder com volume compatível com o repertório.
"Dilemma" produziu uma das imagens esperadas da noite quando Nelly pediu que o público acendesse as lanternas dos celulares. Depois de horas protegendo aparelhos da chuva, milhares deles reapareceram para iluminar o Mundo. Há alguma ironia nisso: justamente num domingo em que o telefone teve menos protagonismo por causa do clima, uma música de 2002 conseguiu trazê-lo de volta como elemento cênico.
O principal limite do show estava na dependência quase completa desse reconhecimento. Quando os hits apareciam, a apresentação justificava a espera. Fora deles, a energia caía. Nelly entregou uma viagem eficiente à primeira década dos anos 2000, mas ficou abaixo de outros artistas do domingo quando a comparação envolve construção de palco, risco e capacidade de transformar uma plateia que já não conhece cada música.
Enquanto o Mundo trabalhava fortemente com memória, o BaianaSystem levou ao Sunset um show interessado em deslocamento físico. A banda apareceu com Alice Carvalho, Antônio Carlos & Jocafi, Afrossinfônicas e Ranking Joe, reuniu "Água", "Sulamericano", "Lucro (Descomprimindo)", "Balacobaco", "Saci" e outras faixas, e tratou a chuva como mais um elemento dentro de uma apresentação que já possui a rua como referência central.
BaianaSystem funciona especialmente bem em festival porque sua música foi construída para circulação. Guitarra baiana, graves, reggae, dub, frevo, ijexá, rap e percussão produzem um som que depende tanto do movimento da plateia quanto da execução no palco. A relação entre os músicos e o público guarda algo dos trios elétricos e do Navio Pirata: existe direção, mas a energia retorna constantemente do gramado para a banda. A água não interrompeu esse circuito; tornou a entrega mais física.
Alice Carvalho acrescentou uma presença teatral que conversa com o universo visual do show, deixando no ar um gostinho de quero mais. Antônio Carlos & Jocafi lembraram que a invenção musical baiana trabalhada pelo grupo possui raízes anteriores ao próprio BaianaSystem, enquanto Ranking Joe trouxe o reggae jamaicano para uma apresentação que já faz essa ponte há anos. O resultado foi um dos encontros brasileiros mais bem resolvidos do domingo, justamente porque cada convidado ampliava uma parte da linguagem da banda.
O desempenho reforçou uma tendência observada ao longo do primeiro fim de semana. Capital Inicial, Detonautas com Biquini, Black Pantera com Nervosa, Sepultura, Barão Vermelho e BaianaSystem tiveram respostas capazes de rivalizar com vários internacionais. O público brasileiro conhece as letras, mas o reconhecimento sozinho não explica tudo. Os melhores desses shows chegaram com propostas pensadas para aquele palco, enquanto algumas atrações estrangeiras confiaram demais no peso do nome.
Pouco depois, o Jota Quest enfrentou outro tipo de risco. Um show inteiro dedicado a Tim Maia poderia facilmente funcionar como coleção competente de versões. A banda, porém, possui uma relação antiga com soul, funk e disco, o que torna esse repertório muito mais próximo de sua própria formação musical. O projeto "Jota Quest & Tim Maia: Dance Enquanto É Tempo" foi criado a partir dessa afinidade e ganhou no Sunset uma produção voltada para metais, backing vocals e balanço.




0 Comentário(s)
Deixe seu comentário