Quarto dia teve menos chuva, apresentações históricas e multidões espalhadas entre Mundo, Sunset, Favela e New Dance Order
Rock in Rio 2026 encerrou seu primeiro fim de semana em 7 de setembro depois de três dias em que o clima havia se transformado quase numa atração paralela. A segunda-feira ainda teve momentos de chuva, inclusive durante algumas apresentações, mas o temporal persistente do sábado e do domingo finalmente perdeu força. Circular pela Cidade do Rock deixou de exigir a mesma batalha contra água, frio e capas plásticas, e essa pequena mudança ajudou um dia cujo line-up já convidava menos ao confronto físico e muito mais à memória, ao canto e à escuta.
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Também foi uma programação construída de maneira diferente. Elton John, Gilberto Gil, Jon Batiste e Luísa Sonza com Roberto Menescal ocupavam o Palco Mundo; Laufey, Péricles, Roupa Nova com Guilherme Arantes e Vanessa da Mata com Rubel estavam no Palco Sunset; Belo fechava o Espaço Favela; João Bosco encerrava o Global Village; e Fatboy Slim só começaria à 1h30 no New Dance Order. Os horários dos dois maiores palcos chegaram a ser antecipados antes do festival, levando Elton John ao Mundo às 23h e Gilberto Gil às 20h30.
No papel, era o dia das grandes carreiras. Na prática, acabou sendo também o dia em que o público questionou involuntariamente a própria distribuição do festival. Roupa Nova lotou o Sunset. Belo transformou o Espaço Favela numa região quase intransitável. Péricles voltou a encher o Sunset. Jon Batiste, no mesmo período, encontrou muito mais espaço diante do Palco Mundo do que sua apresentação merecia.
Esse contraste levou o público presente a refletir bastante sobre a edição de 2026 e a distribuição dos artistas em determinados palcos. Será que Roupa Nova, grupo com anos de bagagem, fãs apaixonados e responsável pela música do festival não merecia uma noite no famigerado Palco Mundo?!
Um grande festival escolhe seus palcos com meses de antecedência. O público responde em tempo real.
Jon Batiste Usa Liturgia do Groove e Transforma o Palco Mundo em Culto de Libertação no Rock in Rio 2026
Péricles Lota o Palco Sunset Com Homenagem à Motown no Rock in Rio
A abertura do Mundo com Luísa Sonza e Roberto Menescal já apresentou uma das contradições daquele feriado. A área diante do palco ainda estava esvaziada quando a cantora começou uma apresentação que procurava fugir de seu formato pop mais previsível. Depois de uma abertura mais pesada com "Carnificina" e uma passagem por "Lança Perfume", de Rita Lee, o show caminhou para a bossa nova e recebeu Roberto Menescal, figura diretamente ligada ao nascimento do gênero.
A opção poderia parecer improvável para quem esperava apenas sucessos de pista, mas mostrava uma cantora interessada em deslocar a própria voz para outro ambiente. "Samba de Verão" e outras referências brasileiras ganharam arranjos apoiados por uma banda capaz de dar outra textura ao palco, enquanto imagens do Rio ajudavam a construir esse encontro entre pop contemporâneo e uma tradição musical muito anterior à carreira de Luísa.
O problema estava mais na circunstância do que na proposta. Abrir o Mundo às 16h10 em um dia atraído principalmente por Elton John e Gilberto Gil significa cantar para uma Cidade do Rock ainda chegando. A sensação de vazio ficou evidente diante do tamanho gigantesco da estrutura, reforçando um problema recorrente no festival: certas performances ganhariam muito em espaços onde a proximidade compensaria a menor quantidade de pessoas.
O risco artístico, porém, merece ser reconhecido. Em uma edição cheia de artistas veteranos recorrendo aos próprios sucessos, Luísa utilizou parte do tempo para colocar seu repertório ao lado de Menescal e experimentar outra leitura sobre a música brasileira. A plateia poderia ser maior, mas a proposta não ficou menor por causa disso.
Pouco depois, bastava caminhar até o Palco Sunset para encontrar a situação oposta. O Roupa Nova voltou ao Rock in Rio depois de 35 anos e recebeu uma quantidade de público que fazia o espaço parecer apertado. "Dona", "Volta Pra Mim", "Sapato Velho", "A Viagem" e outras músicas que atravessaram rádios, novelas e gerações foram recebidas por um coro que começava antes mesmo de algumas introduções terminarem.
A nostalgia, nesse caso, tinha várias entradas. Havia o catálogo romântico da banda, mas também músicas que se soltaram completamente de sua discografia para ocupar outros lugares da memória brasileira. O "Tema da Vitória", associado às conquistas de Ayrton Senna, e a gravação do próprio tema do Rock in Rio são exemplos perfeitos. São melodias que muita gente reconhece antes de lembrar quem as gravou.
A chegada de Guilherme Arantes ampliou ainda mais essa memória coletiva. "Cheia de Charme" e "Lindo Balão Azul" deixaram o show com cara de grande encontro popular, enquanto diferentes faixas do Roupa Nova já haviam estabelecido uma relação fortíssima com a plateia. A chuva voltou perto do encerramento, mas naquele ponto dificilmente conseguiria dispersar um Sunset já completamente comprometido com a banda.
O que ficou evidente é que o grupo tinha público para o Mundo. Isso não diminui o Sunset, que há muito deixou de ser palco secundário. A questão está na circulação. Quando uma apresentação reúne uma multidão grande demais para a área e dificulta a passagem entre regiões da Cidade do Rock, a escolha de escala passa a interferir na experiência de quem sequer pretendia assistir ao show. O quarto dia repetiria esse problema poucas horas depois.
Às 18h20, Belo começou a cantar no Espaço Favela. Quase no mesmo horário, às 18h25, Jon Batiste assumia o Palco Mundo. A simultaneidade produziu uma das imagens mais reveladoras da tarde. A região do Favela ficou tomada.
Chegar perto do palco exigia paciência, atravessar a área se tornou difícil e milhares de pessoas se concentraram para cantar um repertório que Belo consegue apresentar praticamente sem precisar explicar nada. A força de músicas acumuladas desde a época do Soweto se soma a uma carreira solo que transformou o cantor em um dos nomes mais reconhecidos do pagode romântico brasileiro.
O show ainda recebeu dez participantes do Estrelas da Casa, que cantaram "Palco", de Gilberto Gil. Quando Filgueira se emocionou e esqueceu parte da letra, Belo o recebeu com um abraço, produzindo um daqueles acontecimentos pequenos que às vezes revelam mais sobre um artista do que qualquer grande discurso ensaiado.
Belo também desceu para perto do público e trabalhou uma relação de proximidade que ficava ainda mais intensa num espaço menor. O problema é que o sucesso dessa configuração passou do ponto da intimidade e entrou na saturação física. O Favela recebeu um público que poderia preencher uma estrutura bem maior sem dificuldade.




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