As principais bolsas da região fecharam a segunda-feira (19) com perdas superiores a 1% na esteira dos protestos que tomaram as ruas francesas e de outros países europeus The post Ruas em chamas na França, mercados pegam fogo na Europa — e isso mexe com os investimentos appeared first on Seu Dinheiro.
As principais bolsas da região fecharam a segunda-feira (19) com perdas superiores a 1% na esteira dos protestos que tomaram as ruas francesas e de outros países europeus
Manifestantes marcham a partir da Place de la République durante os mais recentes protestos estudantis, em 17 de outubro de 2026, em Paris, França. "Coletes Amarelos" se uniram a manifestantes de escolas francesas para um fim de semana de mobilização. - Imagem: Carl Court/Getty Images
Milhares de pessoas protestaram na França e em vários países da Europa no fim de semana contra a paralisia política, o custo de vida e o estado dos serviços públicos, incluindo escolas e saúde. Aglomerações em cidades como Paris, Lyon e Marselha se transformaram em cenas dramáticas de prédios e carros incendiados, confrontos com a polícia e mais de 2.000 prisões. Nesta segunda-feira (19), o mercado sente o clima das ruas.
As ações estiveram sob pressão. O CAC, principal índice da bolsa de Paris, caiu 1,11%, com os bancos entre as maiores perdas. As demais bolsas da região também encerraram o dia com baixas de mais de 1%. O euro operou em queda em relação ao dólar e em relação à libra esterlina.
Mas é a renda fixa que conta a história das ruas nos mercados. O yield (rendimento) do título francês de dez anos subiu mais de dez pontos, ficando levemente abaixo do nível mais alto em décadas, enquanto o dos papéis de dois e ano anos avançaram seis e oito pontos, respectivamente.
O mercado de ações francês é historicamente sensível a qualquer ampliação do chamado spread OAT-Bund — o yield extra dos títulos que a França paga sobre a Alemanha, que atingiu o nível mais alto desde a crise da dívida soberana europeia no início dos anos 2010.
Os yields franceses (4,849%) também superam os da Itália (4,503%) ou da Grécia (4,332%), implicando um risco maior.
Embora a explicação técnica possa assustar o investidor pessoa física que não está familiarizado com o funcionamento desses mercados, a prática é simples (e preocupante): o aumento dos spreads dos títulos alimenta preocupações sobre o custo para as empresas levantarem capital e aumenta o temor de impostos mais altos e regulações mais rigorosas.
O Goldman Sachs não descarta uma intervenção do Banco Central Europeu (BCE) caso a liquidez dos mercados mingue, embora reforce que isso não deve acontecer agora.
Caso precise agir, a principal ferramenta para isso é o TPI, ou instrumento de proteção da transmissão, um mecanismo de compra de títulos criado pelo BCE para combater a fragmentação financeira e garantir que a política monetária seja aplicada de maneira uniforme em todos os países da zona do euro.
Muitos especialistas dizem que esquecer a Europa como uma opção de investimento é o equivalente a ir à França e não ver a Torre Eiffel, mas encarar esse mercado ultimamente exige uma dose extra de sangue frio.
Os custos de referência de empréstimos da França estão atingindo o nível mais alto desde 2002, com investidores exigindo retornos maiores para emprestar para emprestar ao governo.
"Se você é um investidor internacional pensando se quer investir em títulos franceses, o que está acontece não ajuda", disse Mike Bell, chefe de estratégia de mercado da RBC BlueBay Asset Management, ao Squawk Box Europe.
Vale lembrar que a parcela da dívida francesa nas mãos de investidores estrangeiros vem subindo nos últimos anos: saiu de 48% no início de 2022 para quase 60% no início neste ano.
A questão dos problemas da França é de natureza fiscal.
"Manifestações sobre educação escalaram para protestos contra custo de vida, declínio dos serviços públicos e frustração geral contra o governo de Emmanuel Macron" na França, dizem analistas do KBC Bank.
Segundo eles, os políticos franceses terão que fazer uma ponte entre as demandas domésticas e a pressão do mercado de títulos internacional ao navegar pelo orçamento do ano que vem.
Só que as negociações orçamentárias estão cada vez mais tensas na França e derrubaram dois dos predecessores recentes do primeiro-ministro Sébastien Lecornu nos últimos anos.
As eleições presidenciais estão marcadas para 18 de abril de 2027 e muitas pesquisas mostram que a extrema-direita de Marine Le Pen está na frente.
Segundo analistas, os credores querem um plano crível de consolidação fiscal para evitar que a França entre em uma espiral de dívida: o crescimento fraco e uma relação déficit/PIB persistentemente alta estão elevando os yields dos títulos e a conta de serviço da dívida do governo, além de ampliar ainda mais o déficit — o que pode elevar mais os custos de empréstimos.
Para a Capital Economics, a situação fiscal do país deve piorar antes de melhorar, mas o risco de contágio é limitado, diante da baixa exposição dos bancos à dívida soberana e da capacidade de atuação do Banco Central Europeu (BCE).




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